RETURN

 

MENTIRAS SOBRE A VERDADE — LIES ABOUT THE TRUTH

SIbilA – AN INTERNATIONAL JOURNAL OF POETRY

 

RÉGIS BONVICINO
(1955)

COMPOSIÇÃO

Cano com furos eqüidistantes fixo no teto lançando jatos de água destilada lance de paralelepípedos desalinhado ninguém neles se ajustando grades de ferro pontiagudas em parapeitos de vitrine e janela de alcance mínimo para que ninguém se deite nos espaços vazios ferros retorcidos em portas no teatro além dos jatos câmera canteiro árvore de onde sai a água flores vaso espinho

(Céu-eclipse, 1999)

COMPOSITION

Pipe with equidistant holes fixed on the roof sending jets of distilled water descending misaligned cobblestones nobody on them balancing grates of iron with spikes in window sills and window in decent reach so that nobody lays down in the empty spaces iron twisted on theatre doors along with the jets camera flowerbed tree from where the water flows flowers vase thorn

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

 

O AGAPANTO

O agapanto se lança em janeiro alamanda talvez canto de magnólia branca mil folhas florena esporinha em fevereiro manacá-março o que é flor o que é azul brinco-de-princesa insigne em abril camélia branca de maio íris numa agulha de sol de junho lápis-lázuli lacunas de campânulas embora chamadas de flor rododendro caliandra que se lança jasmim ou miosótis no mês seguinte o que é sépala de outubro fulvo antúrio cinerária petúnia jacarandá-mimoso no mês de janeiro e dezembro sálvia a pétala deslocou a parábola a flor secou a fábula

(Céu-eclipse, 1999)

THE AGAPANTHUS

The agapanthus blooms in january yellow bell perhaps song of magnolia white milfoil yarrow floret larkspur in february manaca-march that which is flower which is blue princess-jewels eminent in april white camelia of may iris in a needle of june sun lapis-lazuli lacuna of campanulas though called flower rhododendron calliandra which blooms jasmin or myosotis on the following month which is sepal in october tawny snapdragon cineraria petunia jacaranda-tendergrass in january and december salvia the petal plucked the parable the flower dried the fable.

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

 

220294

Você toma a avenida como marco. Desce uma de suas transversais até o largo. O que ressalta no caminho é o asfalto pesado. Automóveis. A forma dos automóveis contrasta com a da rua. Farmácia em seguida cortiço. A fachada da igreja neoclássica encoberta pela fuligem. Travessas com asfalto carbonizado. O céu, apesar de claro de verão, espelhando exatamente o asfalto morto. Árvores de tamanhos semelhantes. Apagadas. Paredes de prédios. Nas esquinas, lanchonetes sujas. Ruído igual dos motores. Pouco antes do largo, em frente à farmácia das prostitutas, uma rua aérea, com janelas despencadas. Entre as avenidas, o posto de gasolina. Como se as sombras fossem imagens. O neon do cinema. E, na praça, uma mulher nua inteira de pedra exposta ao sol.

(Ossos de borboleta, 1996)

022294

Takes the avenue as a landmark. Goes down one of the cross streets until reaching a square. On the way, notices the heavy asphalt. Cars. The shapes of the automobiles contrast with the roads'. Pharmacy followed by projects. The façade of the neoclassic church covered with foliage. Cross streets with lanes of charred tar. The sky, despite its summer clarity, perfectly mirrors the dead asphalt. Trees of similar sizes. Burnt out. Walls of buildings. Dirty diners on the corners. Noise from the motors. Just in front of the square, directly facing the prostitutes' pharmacy, an aerial street, blown out windows. Between the gas stations, the avenues. As if the shadows were images. The movie house neon. And in the square a naked woman entirely of stone exposed to the sun.

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

 

POEMA
para Wilson Bueno

Iemanjá
de tão branca
Vela o vento
erva

que cobre os leitos
Arzúa, estrela
León
Virxen

Um de teus nomes
Jaca, Nájera
Sangüesa
Las Médulas

Ou Ruta
de los Dinosaurios
acordando
Santiago

*

A lua em Virgo minúcia pura
exuberante
ramo de arruda
azul

Cangas de Onís
Estella, úmida
luxo
para o Buda

*

manjar azul
dos deuses arco-íris
de Dan
Eco de Liríope

Excelsa Mãe
dança
e seu cavalo
balança o mar

(Céu-eclipse, 1999)

POEM
for Wilson Bueno

Iemanja
(so) white
Veil the wind
herb

covered beds
Arzúa, star
León
Virgen

One of thy names
Jaca, Nájera
Sanguesa
Las Médulas

Or Route
of the Dinosaurs
waking
Santiago

*

The moon in Virgo pure detail
exuberant
grass path of
blue

Cangas of Onís
Estella, humid
luxury
for the Buddah

*

blue flan
of the rainbow goddesses
of Dan
Echo of Lirope

Exalted Mother
whirl
and your horse
twirls the sea

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

 

171196

1
Nunca morei numa rua chamada Vidro. Chutei uma vez paralelepípedos. Cada dia passava como se num espelho — de ecos. Telefones, fios. Uma vez andei de barco num lago. Nunca me vi em meu próprio reflexo. Falas, conversas — uma só figura e pessoa. Alto-falante mudo. Também morei num apartamento minúsculo. Gosto do nome das ruas de alguns amigos. Amherst, Mílvia, Sírius. Não tenho tempo para nada. Meus cabelos caíram. Talvez isto seja tudo.

2
Meus antepassados vieram da Itália. Sicília. Nápoles. Veneza. Alessandro Bonvicino — Il Moretto. Também de Pontevedra, na Galícia. Meus antepassados, de mãe, vieram de minas. Meu nome: meu pai tirou de um cartão de visita.

3
Nunca passei por uma rua chamada Tesoura. Uma lacraia se move, por atalhos. Formigas caindo no olho. Giuliano Della Casa, água e tinta, gosta dos quadros de Alessandro Bonvicino. Giuliano vive em Modena, via Sant'Agostino, 33. Passei alguns anos fechado, aqui mesmo, num quarto. Há uma rua chamada Tesoura. Inhambu é o nome de um pássaro. Gosto de tomar aspirinas e hipnóticos. Uma onda de luz me abandona agora — como a um fósforo, antes de partir. Há um sol e uma lua, ao mesmo tempo, no Boulevard Wilshire. Sabine Macher mora no 7 bis rue de Paradis. Alguém mora na Legion Dr. O pneu da bicicleta não é um círculo. Há uma avenida chamada Precita. O céu, ontem, estava oblíquo.

4
Vejo você mais tarde. O filho de onze anos de David gosta de selos estranhos. Alguém está fazendo garage sale, neste momento. Não senti uma queixa abafada na docilidade das flores, esta manhã. Também não vi um pássaro esguio, comendo insetos, esta manhã. Alguém mora em Gumtree Terrace. A água corre para o mar. A lua não fica cheia em um dia. Há uma rua chamada Lepic. Há uma outra, Lindero Nuevo Vedado. Aquela calçada está suja. Sweet William é o nome de uma flor.

5
Talvez tenha morado numa rua chamada Sí dar. Há uma rua chamada Campeche. Rose e Andy moram com certeza na Cedar Street. Maçãs não significam nada. Dizem que existe um sedativo especial para lesmas. Ninguém explica certas expansões do verde. Árvores grandes não dão frutos, apenas sombra. Sequóias e conchas enlouquecem os homens. Uma mulher esmerilha, pelo telefone. Há uma rua chamada Cedro. Cilícios consentem dias e arames. Estátuas

fazem parte
do
universo

(Céu-eclipse, 1999)

111796

1
I have never lived on a street named Glass. Once I kicked cobblestones. Each day passed as in a mirror—echoes. Telephones, wires. Once I took a boat out on a lake. I've never seen myself in my reflection. Words, conversations—only one character, one person. Megaphone mute. I've also lived in a tiny apartment. I like the name of the streets of some of my friends. Amherst, Milvia, Sirius. I don't have time for anything. My hair fell out. Maybe this is it.

2
My ancestors came from Italy. Sicily. Naples, Venice. Alessandro Bonvicino.—Il Moretto. Also form Pontevedra in Galicia. My maternal ancestors come from mines. My name: my father took it from a business card.

3
I've never run across a street named Scissors. A centipede moves sideways. Ants fall in the eye. Guiliano Della Casa, water and paint, likes the paintings of Alessandro Bonvicino. Guiliano lives in Modena, Santa Agostino Street 33. I spents some years, right here, closed up in a room. There is a street called Scissors. Inhambu is the name of a bird. I like to take aspirin and opiates. A light wave abandons me now—as a match before leaving. There is a sun and a moon, all at once, on Wilshire Boulevard. Sabine Macher lives at 7 Paradise Street. Somebody lives on Legion drive. The bicycle tire is not a circle. There is an avenue called Precita. The sky, yesterday, was overcast.

4
I'll see you later. David's eleven year old son likes foreign stamps. At this very moment someone is having a garage sale. I didn't feel like complaining due to the docility of flowers this morning. I also didn't see a thin bird, eating insects, this morning. Some- one lives on Gumtree Terrace. The water runs to the sea. The moon doesn't fill in during day. There is a street called Lepic. There is another, Lindero Nuevo Vedado. That sidewalk is dirty. Sweet William is the name of a flower. Elephants don't thread needles.

5
Maybe I've lived on a street called Si Dar. There is a street called Campeche. Rose and Andy, certainly, live on Cedar Street. Apples mean nothing. They say that a special sedative exists for snails. Nobody explains certain expanses of green. Large trees don't bear fruit, just shade. Sequoias and shells drive men insane. A woman investigates by phone. There is a street called Cedro. Cecilia senses the millennia and wires. Statues

are part
of the
universe.

(Tr. Jennifer Sarah Frota and Douglas Messerli)

 

CASAS SEM DONO
para Lucio Costa

Farol — caixa de madeira, parede de viga, um sofá — sacos, onde a cabeça, talvez abrigo. Meia-parede, o domínio do jardim, feldspato: cabeça reclinada na pedra — olhar, profundo, à noite, para a rua, cega. Largar-se, num muro baixo, tragando o cigarro, à vista, para quem passa — variação da casa, sob o toldo em frente, onde dorme, sempre. Dorso nu, braços cruzados à cabeça: colcha vermelha entre o corpo e o degrau — vaso oferecendo sombra, trama de branco e azul, na calçada, sob a lona. Outra caixa, vazada, como cadeira. A rua, estreita, como porta, atravessando. Luz da tarde: a escada-passagem como quarto, sob árvores-frechais — acima, de plástico leve, cadeira branca — arbusto, prédio, varanda.

(Céu, eclipse, 1999)

OWNERLESS HOUSES
for Lucio Costa

Traffic light — wooden box, slat walls, a sofa – bags, maybe to shelter the head. Half-wall, garden's realm, feldspar: head leaning against stone – looking deep into night, the street, blind. Lounging on a low wall, dragging at a cigarette, in sight of a passerby, housing variant, under the awning in front where he always sleeps. Bare back, head in crossed arms: red bedspread between body and step – flowerpot casting shade, white and blue weave, under canvas on the sidewalk. Another box, emptied out, as chair. The narrow street, crossing, as door. Afternoon light: stairway as room, treeroot-groundsill below—above, white chair of fragile plastic – bush, building, veranda.

(Tr. Michael Palmer)

 

 . . . . . . . . . .

 

^ topo