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POEMAS DE IVSIC
tradução de Eclair Almeida Filho

LE BATEAU IVRE, ARTHUR RIMBAUD
tradução de Afonso Henriques Neto.

MARIO NICOLAO
traduções de Manoel Ricardo de Lima
e Laura Erber

 

POEsIA TRADUZIDA

 

Poemas de RadOVAN Ivsic
Tradução de Eclair Almeida Filho.


Radovan Ivsic, nascido em Zagreb (Croácia) em 1921, é poeta, dramaturgo e crítico. Publicou seu primeiro livro, Mavena, 1941. Depois veio Narciso (1942), livro que foi proibido e confiscado pelo regime Titista na então Iugoslávia sob a alegação de “ser um produto de uma arte decadente”. De 1943 é sua peça teatral mais famosa Le roi Gordogan. Impedido pelo regime titista e seus jdanovistas  de escrever, Ivsic se dedica à tradução de autores como Shakespeare e Jean-Jacques  Rousseau.
Em 1954, o poeta parte em definitivo para Paris, onde se torna amigo e parceiro dos poetas surrealistas Benjamin Péret e André Breton. Após a morte de Breton em 1966, Ivsic assume a direção das Edições Maintenant.
Suas obras completas encontram-se publicadas em 3 volumes pela editora Gallimard: Poèmes (2004), Théâtre définitif (2005) e Cascades (ensaios, 2006)
Em toda sua obra poética, teatral e crítica, Ivsic busca atingir os limites da expressão verbal, através de imagens relacionadas à liberdade, ao sonho, à natureza e à magia.

Eclair Antonio Almeida Filho (1974) é crítico literário e tradutor,  Doutor em literatura francesa pela USP (05-2006), com a tese intitulada Jacques Prévert e a poética do movimento.

 

METEOROS

1

            Sombria, ela está no vazio. Seu dedo desperta, hesita, depois torna-se peixe. Todo seu corpo se alumia. É o nevoeiro, diz para si mesma.

2

            Pesada, no turbilhão, ela é apenas uma ferida. Um grito entreabre sua boca mas os dedos de seus pés são borboletas e alçam vôo. É o relâmpago, diz para si mesma.

3

            Vermelha, ela se assusta: não são mais as escamas que recobrem seu corpo mas os lábios tão pequenos, inumeráveis. Ela se envolve num lençol branco. É a neve, diz para si mesma.

4

            Trêmula, ela avança em direção ao abismo embora ela gostaria de fugir. Não é um abismo, é um abutre que se precipita em direção à ponta nua de seu seio. É a miragem, diz para si mesma.

 

 

5

            Citadina, ela tem o segredo para abrir as jaulas. Com o primeiro tigre, ela desce no metrô. Em pouco tempo, estão no deserto. As ampolas se apagam mas no escuro dois olhos verdes não tardarão a se iluminar. É o eclipse, diz para si mesma.

 

6

            Ofegante, ela atingiu o cume da mais alta falésia. De repente, atrás de um rochedo, ela percebe um olho e depois um outro: milhares de pupilas ávidas fixam-se sobre ela. Rápida, ela começa a se despir. Nua enfim, ela avança em direção à encosta abrupta, ervosa, e desce até a planície fazendo a roda. É o ciclone, diz para si mesma.

7

            Noturna, no musgo ela descobre as estrelas, os traços de um cervo e enfim uma fonte. Um arminho em fuga se esconde em sua axila. É o cometa, diz para si mesma.

8

Invejosa, ela vê o dorso de um desconhecido que se observa no espelho. Sob o travesseiro, ela pega um machado e o lança em direção à fria superfície para aniquilar sua profundidade enganosa. O desconhecido se desvia e a desfigura para ver sua nova imagem, talvez. Não. É o terremoto, diz para si mesma.


MÉTÉORES

1

            Sombre, elle est dans le vide. Son doigt s’éveille, hésite, puis devient poisson. Tout son corps s’éclaire. C’est le brouillard, se dit-elle.

2

            Lourde, dans le tourbillon, elle n’est qu’une plaie. Un cri entrouvre sa bouche mais ses orteils sont des papillons et ils s’envolent. C’est l’éclair, se dit-elle.

3

            Rouge, elle s’étonne : ce ne sont plus les écailles qui recouvrent son corps mais les lèvres toutes petites, innombrables. Elle s’enveloppe dans un drap blanc. C’est la neige, se dit-elle.

4

            Tremblante, elle avance vers le gouffre alors qu’elle voudrait s’enfuir. Ce n’est pas un gouffre, c’est un vautour qui se précipite vers la pointe nue de son sein. C’est le mirage, se dit-elle.

5

            Citadine, elle a le secret d’ouvrir les cages. Avec le premier tigre, elle descend dans le métro. Bientôt, ils sont dans le désert. Les ampoules s’éteignent mais dans le noir deux yeux verts ne tarderont pas à s’illuminer. C’est l’éclipse, se dit-elle.

 

6

            Haletante, elle a atteint le sommet de la plus haute falaise. Soudain, derrière un rocher, elle aperçoit un oeil et puis un autre: des milliers de prunelles avides sont fixées sur elle. Vite, elle commence à se déshabiller. Nue enfin, elle avance vers la pente abrupte, herbeuse, et descend vers la plaine en faisant la roue. C’est le cyclone, se dit-elle.

7

            Nocturne, dans la mousse elle découvre les étoiles, les traces d’un cerf et enfin une source. Une hermine en fuite se cache sous son aisselle. C’est la comète, se dit-elle.

8

Jalouse, elle voit le dos d’un inconnu qui s’observe dans le miroir. Sous l’oreiller, elle prend une hache et la lance vers froide surface pour anéantir sa profondeur trompeuse. L’inconnu se détourne et la dévisage pour voir sa nouvelle image, peut-être. Non. C’est le tremblement de terre, se dit-elle.


AVENTURA SKURJENI

 

 

A rede
das rotas
espreita
o viajante
na saída
da grota

 

                            A  montanha : Para me              A  zebra : Os itinerários ? A
                           deslocar, não preciso de             rigor, façam-me deles um
                           ferradura.                                    manto.

                            A jaula : Como esse                       O dragão : Nenhum
                            boêmio que teve medo                    barro das estradas sobre
                            e virou cantoneiro.                          meus calcannhares de ouro.
            
                            A vertigem : A mim o machado       A cereja : Eu não me
                            para cortar o polvo                          perco. Entro. Rirei
                           dos caminhos.                                 mais tarde.

12 de abril de 1961
AVENTURE SKURJENI

 

 

Le rets
des routes
guette
le voyageur
au sortir
de la grotte

 

                            La montagne : Pour me               Le zèbre : Les itinéraires ? À
                           déplacer, je n’ai pas besoin            la rigueur, faites-m’en un
                           de fer à cheval.                                manteau

                            La cage : Comme ce                       Le dragon : Aucune
                            bohémien qui eut peur                    boue des sentiers sur
                            et se fit cantonnier.                          mes talons d’or.
            
                            Le vertige : À moi la hache             La cerise : Je ne me
                            pour trancher la pieuvre                perds pas. J’entre. Je rirai
                            des chemins.                                 plus tard.


A ÁRVORE

E depois a árvore cresce cresce cresce
por toda parte de galho em galho
por toda parte de caule em caule
por toda parte de pássaro em pássaro
hou hou hou, hou hou hou
É com certeza a primavera.

E depois a árvore cresce cresce cresce
brotam os brotos
brilham as gotas d’água
riem as sinetas
hou hou hou, hou hou hou, hou hou hou
É com certeza o vento leve.

E depois a árvore cresce cresce cresce
até o sol
E o sol explode de rir
em cascatas
para assustar os peixes
com suas escamas-centelhas
E os peixes têm medo,
oh pequenos peixes !
oh queridos peixes !
Pobres pequenos peixes
que entram nas raízes
que nadam nas raízes
e nadam nadam
e nadam na árvore
e nadam nadam
e nadam nos galhos
e nadam nadam
e ali estão a olhar através dos brotos
suas nadadeiras brilham
eles saltam através dos brotos
hou hou hou, hou hou hou,
e ali estão a se tornar folhas,
e folhas e folhas.
Como elas são transparentes!
Como elas são reluzentes!
São com certeza peixes.

E depois a árvore cresce cresce cresce
todos os pássaros se escondem
as nuvens chamam o vento.
Giram os turbilhões
Girogiram as folhas secas:
o jovem vendaval viaja.
Os cervos jorram das cascatas
com gotículas nos galhos.
O granizo. . .
O granizo em guizos. . .
O granizo. . .
O granizo em guizos. . .
vendaval vendaval vendaval
guizos guizos guizos
o granizo em guizos
o granizo em guizos
vendaval vendaval
vendaval vendaval
o granizo. .
guizos guizos guizos. .
o granizo. .
guizos guizos guizos. .
vendaval. .
granizo
vendaval. .
granizo
guizos. .
guizos. .
Como o céu está azul!
Como o ar está claro!
É com certeza o vendaval passou.

 

E depois a árvore cresce cresce cresce
E as borboletas se perguntam bem baixinho
se deveriam primeiro pousar nos seixos
ou talvez nas cachoeiras
ou talvez nos esquilos.
E então levemente se mexem,
se agitam, passeiam, se sentam,
se balançam, se balançam, se balançam. . .
Como são tantas!
Uma verdadeira nuvem de flores!
São com certeza as borboletas sentadas nos galhos.

E depois a árvore cresce cresce cresce
e depois vem a noite
e depois vem o dia
e depois vem a noite
e depois vem o dia
e a noite e o dia.
e depois vem o outono
e depois os frutos caem.
Como são deliciosos!
e depois vem o inverno.
Como o inverno é branco!
É com certeza a neve.
e depois o que vem depois?
É com certeza a primavera.

E depois a árvore cresce cresce cresce.
(1944)


L’ARBRE

Et puis l’arbre pousse pousse pousse
partout de branche en branche
partout de tige en tige
partout d’oiseau en oiseau
hou hou hou, hou hou hou
C’est bien sûr le printemps.

Et puis l’arbre pousse pousse pousse
bourgeonnent les bourgeons
brillent les gouttes d’eau
rient les clochettes
hou hou hou, hou hou hou, hou hou hou
C’est bien sûr le vent léger.

Et puis l’arbre pousse pousse pousse
vers le soleil
Et le soleil éclate de rire
en cascades
pour effrayer les poissons
avec leurs écailles-étincelles
Et les poissons ont peur,
oh petits poissons !
oh chers poissons !
Pauvres petits poissons
qui entrent dans les racines
qui nagent dans les racines
et nagent nagent
et nagent dans l’arbre
et nagent nagent
et nagent dans les branches
et nagent nagent
les voilà qui regardent à travers les bourgeons
leurs nageoires brillent
ils sautent à travers les bourgeons
hou hou hou, hou hou hou,
les voilà qui deviennent des feuilles,
et des feuilles et des feuilles.
Qu’elles sont transparentes !
Qu’elles sont luisantes !
C’est bien des poissons.

Et puis l’arbre pousse pousse pousse
tous les oiseaux se cachent
les nuages appellent le vent.
Tournent les tourbillons
tournoient les feuilles sèches :
le jeune orage voyage.
Les cerfs jaillissent des cascades
avec des gouttelettes dans les ramures.
La grêle. . .
la grêle en grelots. . .
la grêle. . .
la grêle en grelots. . .
orage orage orage
grelots grelots grelots
la grêle en grelots
la grêle en grelots
orage orage
orage orage
la grêle. .
grelots grelots grelots. .
la grêle. .
grelots grelots grelots. .
orage. .
grêle
orage. .
grêle
grelots. .
grelots. .
Comme le ciel est bleu !
Comme l’air est clair !
C’est bien sûr que l’orage est passé.

 

Et puis l’arbre pousse pousse pousse
et les papillons se demandent tout bas
s’ils devraient d’abord se poser sur les cailloux
ou peut-être sur les chutes d’eau
ou peut-être sur les écureuils.
Et alors légèrement ils bougent,
s’agitent, se promènent, s’assoient,
se balancent, se balancent, se balancent. . .
Combien il y en a !
Un vrai nuage de fleurs !
C’est bien sûr les papilons assis sur les branches.

Et puis l’arbre pousse pousse pousse
et puis vient la nuit
et puis vient le jour
et puis vient la nuit
et puis vient le jour
et la nuit et le jour
et puis vient l’automne
et puis les fruits tombent.
Comme ils sont délicieux !
Et puis vient l’hiver.
Comme l’hiver est blanc !
C’est bien sûr la neige.
Et puis qu’est-ce qui vient après ?
C’est bien sûr le printemps.

Et puis l’arbre pousse pousse pousse.
(1944)


BRIONI
Para Annie

Os cervos são borboletas
as borboletas  são peixes
os peixes são claridade
a claridade é morte
a morte é laranja
a laranja é vulcão
o vulcão é feno
o feno é elefante
o elefante é afogamento
o afogamento é riso
o riso é montanha
a montanha é anel
o anel é solidão
a solidão é areia
a areia é roda
a roda é terremoto
o terremoto é cílios
os cílios são cascata
a cascata é bigorna
a bigorna é lembranças
as lembranças são vermelho
o vermelho é chicote
o chicote é fim
o fim é mel
o mel é nuvem
a nuvem é o infinito
o infinito é infinito


BRIONI
Pour Annie

Les cerfs sont papillons
les papillons sont poissons
les poissons sont clarté
la clarté est mort
la mort est orange
l’orange est volcan
le volcan est foin
le foin  est éléphant
l’éléphant est noyade
la noyade est rire
le rire est montagne
la montagne est anneau
l’anneau est solitude
la solitude est sable
le sable est roue
la roue est tremblement de terre
le tremblement de terre est cils
les cils sont cascade
la cascade est enclume
l’enclume est souvenirs
les souvenirs sont rouge
le rouge est fouet
le fouet est fin
la fin est miel
le miel est nuage
le nuage est l’infini
l’infini est infini

 

 

 


ÉCHO DE BRIONI
Para Annie ainda

O carvão como a aurora
a aurora como o turbilhão
a turbilhão como o fogo
o fogo como a lágrima
a lágrima como o crescimento
o crescimento como a areia
a areia como a velocidade
a velocidade como a ferida
a ferida como a luz
a luz como o grito
o grito como o camaleão
o camaleão como a dor
a dor como o ar
o ar como o ouro
o ouro como a pedra
a pedra como o pensamento
o pensamento como o abismo
o abismo como o garrote
o garrote como o ovo
o ovo como a corrida
a corrida como a montanha
a montanha como o nado
o nado como o coração
o coração como o silêncio
o silêncio como o silêncio.

 


ÉCHO DE BRIONI
Pour Annie encore

Le charbon comme l’aube
l’aube comme le tourbillon
le tourbillon comme le feu
le feu comme la larme
la larme comme la pousse
la pousse comme le sable
le sable comme la vitesse
la vitesse comme la blessure
la blessure comme la lumière
la lumière comme le cri
le cri comme le lézard
le lézard comme la douleur
la douleur comme l’air
l’air comme l’or
l’or comme la pierre
la pierre comme la pensée
la pensée comme le gouffre
le gouffre comme le garrot
le garrot comme l’oeuf
l’oeuf comme la course
la course comme la montagne
la montagne comme la nage
la nage comme le coeur
le coeur comme le silence
le silence comme le silence.

 

NARCISO

 

a folha 
           da água
                        sobre o sonho da relva

enterrando a areia
                             no vento
                                           tranqüilo

escutando
                o medo
                            nos abismos arrebatados

sonhando
               sobre as mãos frágeis
                                                  narciso

do galho úmido
                         ao pássaro
                                          preto
da marcha
                 dos caniços
                                   às trevas dos arrecifes
do frêmito
                 recôndito
                                das fontes novas
às pradarias
                   amarelas
                                  das suaves colinas

 

narciso avança
                        sob os galhos
                                              obscuros
e enquanto caminha
                                sem ruído
                                                pelas florestas
a água nem a água
                              lhe toma hesitante
                                                           a escuridão

o vento verde
                     nas avencas
                                        vermelhas


tais os sonolentos
                            calhaus 
                                       sonoros
seja que
            as pedras dos montes
                                              obscuros
para rebentar-se
                          sobre os galhos
                                                  imóveis

então narciso
                     pára
                            sombrio

a casca do sonho
                            mexeu-se
                                            um pouco
e quando a noite
                          inundou
                                       os rochedos
as pradarias
                  abriram
                               e esconderam as vagas
que a relva
                 sono dos juncos
                                          na areia


narciso
           lentamente
                            afastou os galhos
as florestas
                  escutaram
                                   a relva começou a escorrer

    na baía
                das trevas sonhadas
a água
          subia
                   no rumor da areia

ele olhava
                esgazeado
                                raro
um galho negro
                         se despedaçou
                                                 nas ramagens
se perdendo
                   longo tempo
                                       nas obscuridades sonoras

as folhagens
                    atrás dele
                                   se fechavam de novo em silêncio


quando
           o vento
                       chocou-se levemente
sobre as raízes
                       sobre o granito
                                              dos entalhes

e enquanto ele caminha
                                      sem ruído
                                                       pelas florestas
á água nem a água
                              lhe toma hesitante
                                                           a escuridão
enterrando a areia
                             no vento
                                           frágil
sonhando
              sobre mãos
                                tranqüilas


 

                       se ela vai

         se ela vai
                       quando ela vai
se ela vai
              quando ela vai
                                     por trás dele
e
  que ela
             vai avançar
e
  que ela
             vai parar
quando
           ele
                parar

 

sobre a nítida
                     montanha
                                    azul


transparente
 de mãos
     sombrias
pela curva
  suave
                           da pradaria
até à cor
    leve
                    da dormideira

ela veio
            há pouco
                           e escutou
por trás da noite
       úmida
       arrepiante
que
      sozinha 
         lá longe
quando
  tornada 
    rápida
sob as árvores
    será
  nova


assim
         ela partiu
     pelas florestas
lisa
     sobre as folhas 
e acariciada alhures
com os sonhos
              que ela ama
                                 na borda da noite
pedras na mão
                      que lhe são
                                        maravilhas

galhos 
          surgiram fáceis
                                   e cresceram sobre a areia
e de repente 
          o vento passou
     pelos dedos
e todas as rochas
        uivavam
   e verde
quando ela 
        o olhou
 um pouco


se ela vai

         se ela vai
                        quando ela vai
se ela vai
               quando ela vai
                                      por trás dele
e
  que ela
             vai avançar
e
  que ela
              vai parar
quando
            ele
                 parar

narciso então
                     se virou
                                 para ela
ela se aproximou
                           um pouco
                                           dele


ele desejava
                   então
                            que pelos precipícios
que pelas clareiras
                             até à relva
                                              até à pedra
e assim
            ele ia
                     pelas folhagens
que tão inteiro
                       através da floresta
                                                    ele se pôs a rir

 

que está
             que está
                           pelas mãos

lá onde as mãos
                         descaminhadoras
                                                    o sonho
e
  as trevas
                 com o outro lado
pela montanha
                       inquietante
                                         em segredo


narciso
  sonhava
      tranqüilo
sobre a noite
                    vazia
                             dura
sobre as pedras
     longínquas
                      claras

folhas negras
                     germinavam
                                         os rochedos
as vagas
             estavam
                           por toda parte sob os dedos
a mão
soçobrou
               as avencas ondejavam
jovem
          revestido
                       de seixos loiros
o pavor
            retine
                      através dos densos abismos


narciso de súbito
                           estremece
                                            em seu sonho
ele olhava
                então
                         de novo
o vento estava
                       só
                           nas algas

narciso caminhava
                              vestido
                                          de rochas
e escutava
                 o nascimento
                                      das pedras
ele escutava
                   e depois
                                se virou

ele escutava
                   escutava

 

                             se ela vai
transparente
                    pela noite
                                   pálida


quando ela penetra
                              em
                                    seu sonho
amontoando
                    a vivaz
enquanto ela vai

 

                        nacarada

 

                                      onde estás

a floresta partiu
                         para acima da pequena
                                                             espádua
descendo
               aos caniços frágeis
                                              sem cor
os galhos navegavam
                                  ao lado
                                              das abruptas nadadeiras
mas quando
                   as folhagens escorreram
                                                         para acima dos seixos


as moitas germinavam
                                    jocosamente
                                                        sobre a palma
tanto a folhagem
                           vibrava
                                       pelo sonho

o mato rasteiro estava
                                   na vertigem
                                                     dos olhos
desaparecia
                   pela beira das cascatas
                                                       negras
de toda parte
                    azuis e pequenas as conchas
                                                                 chegavam
lá embaixo sobre as folhas
                                          e só
                                                 no sonho

 

                                                                   narciso


lá onde o ruído
                        que a noite
                                          quando os camaleões
desde a relva
                     da hera
                                  negra

                                               eco ela

pelos rochedos
                        longínquos
    esquecidos     

sobre
        as folhagens
sombrias
folha-se
             azul
                    o vento novo
as árvores
                taciturnas
                                inaudíveis


a louca
           abundância
                             dos antros
das ansas
               lisas
                       adormecidas
                           
às dobras
              das raízes
                              desvairadas
sonhava
            se inclinava
                               sobre os espinheiros
perdidos
             muito antigos
                                   e onde ainda
pela leve
              marcha
                           da areia

ela
    esflorava
                   silenciosamente

a mata se projetava
                              sobre os abismos
                                                         profundos


e costeava
                  estranhamente
                                          o silêncio
no segredo
                 do refolhar
                exaltado

se há 
        algo
               pequeno
por trás
           das pálpebras
                                sombrias
é a folhagem
                     rápida
                               dos salgueiros
onde
        por entre as pedras
                                       escondida nos eflúvios
só pelo sonho
                      e tocada
                                   pelas florestas
cheia de temor
                        afogada
                                      até às mãos

                                                              narciso


seus passos
                  caem
                           de seus joelhos solitários

                                                                           narciso

são os dedos
                    sonolentos
                                    em torno do caule
lá onde as mãos
      murmurantes
                            quebram sobre as folhas
envolvem
               a casca
                            úmida
até à flor
              se distanciando
                                       sob a palma

        
                                                                           narciso


é o ornamento
                       arenoso
                                   da concha
onde as folhações
sombrias            
              sobrevêm
quando a escuridão
                               se separa
                                               e se afasta

ela
     o sentiu
                 na hora

narciso
            olhava
                       sobre ela
de sua fronte
                     até à seiva
                                      dos longes
ele se abria
                   lentamente
                                    à noite
respirava
               com clareiras
                                    imperceptíveis


ela ria
          do alto dos galhos
                                       selvagens
ia até
         às pedras arrepiando-se
                                               em folhas

as mãos barulhavam
                                os seixos
                                               respiravam
reviradas as folhas
                             olhavam
                                           cresciam
os escolhos fugazes
                               mergulhavam
                                                     através dos sonhos
e floresciam
                    com pequenos
                                          tentáculos
conchas
             da noite
                          através da ruidosa mata
nos calhaus
                   rápidos
                              vívidos
os rochedos
                   se afastavam
                                        lentamente


em sombria ganga
                             longe
                                      em indiferentes rachaduras

 

assim
         ela
     morreu

 

a folha da noite
                        sobre o sonho
                                              da casca

enterrando a areia
                             no vento
                                           tranqüilo
escutando
                o medo
                            nos abismos arrebatados
sonhando
               sobre as mãos frágeis
                                                  narciso


do galho úmido
                         ao pássaro
                                          preto
da marcha
                dos caniços
                                   às trevas dos arrecifes
do frêmito
                encolhido
                               dos pequenos tentáculos
às pradarias
                  transparentes
                                         das suaves colinas

narciso avança
                        sob os galhos
                                              obscuros
e enquanto caminha
    sem ruído       
                     pelas florestas

o vento verde
                      nas avencas
                                          vermelhas
tais os sonolentos
                            calhaus
                                        sonoros


seja que
            as pedras dos montes
                                               obscuros
para rebentar-se
                          sobre os galhos
                                                  imóveis

lá narciso olha
                       esgazeado
                                       raro

por trás dele
                    levemente
                                    os galhos se fecham de novo
com as dobras do sonho
                                      nas trevas
                                                      ruidosas
através da areia
                         azul
                               transparente
os dedos
             partem
                         para o estranho caule
abandonado
                   silencioso
                                   folheado


pelas raízes
                   a noite
                              se engolfa nos rochedos
um após o outro
                          os seixos
                                        começam a se mexer
do ar
         da pálpebra
                            às distantes avencas noturnas
do murmúrio afogado
                                  das florestas
                                                       à espádua lisa da relva
os caniços da fronte
                               desaparecem
      entre as pedras pálidas
entre as folhas da mão
                                   selvagens
                                                   manantes
onde a floresta dos sonhos
                                          impele
                                                      os aluviões da sombra
apavora as grutas
                            com o asfódelo tenro
                                                             penetra
pelas falésias sinistras                            
                                   levando
                                                as moitas surdas
desde o matagal
                          até o coração rarefeito
                                                              do caracol


pelas imensidões das trevas
                                            sobre as rajadas negras
                                                                                  do pavor
engolindo
                mais profundamente
                                                 os troncos perdidos
com o terrível estrondo
                                     do esmagamento
                                                                dos galhos
com o uivar
                   das ilhas cortantes
                                                até às falésias
em sonho
                e noturno
                               dos desertos sinistros
do movimento
                       imenso
                                  dos escolhos vivos
até o vento
                   pelo susto
                                   e olhos dos seixos
com as pedras
                       arrebentando
                                            sobre as dunas sombrias
e de longe
                pelos matos rasteiros
                                                  quando os golpes da escuridão
partem
           pelas folhagens
                                    até os túrbidos abismos


devolvem às mãos
                             o estrondo
                                              das montanhas
as folhas
             fogem
                        diante dos joelhos dele
se viram
             sobre a fronte
                                   desdobrada
onde junto aos sonhos
                                   azula
                                           sobre o crepitar dos rochedos
o pequeno medo
                          da marcha inaudível
                                                          da relva

os precipícios
                     afluem ainda
                                          nas profundezas movediças
refluem
            sobre os abismos
                                        noturnos
narciso já
               está longe
                               das folhagens negras
carregado pela
                       silenciosa casca
                                                  da areia


do outro lado da floresta
                                        os galhos
                                                      se desenrolam
às paragens
                   cada vez mais longínquas
                                                           das liliáceas tempestuosas
aos abalos
                dos caules
                                 emaranhados
os desertos
                   acorrem
                                sobre as árvores adormecidas
o vento
           entenebrece
                               onde acima
realmente a noite
                            agarrada à pequena
                                                          espádua

 

e para narciso
                      tanto
                              vai o prodígio
que pelo vento
                       todos
                               os seus cabelos


trêmula
            no ornamento
                                  dos caniços agitados
a água

 

         nos passos furtivos
                                        da areia

narciso estremece
                             noturno
                                         perto das ramagens
por trás das dobras
                              esfumadas
                                               da surpreendente superfície
no pavor
              abismal
                           ele se esconde pelas florestas
no silêncio azul
                         da areia
                                      da baía
os galhos dos sonhos
                                 algazarram
                                                   sobre sua fronte
em torno
              da haste negra
                                      das raízes


as folhagens
                    afluem
                               sobre o rumor das árvores
de folha em folha
                            carregam
                                           ameaçam
surdamente
                   dos picos recuados
                                                 até as plantas apavoradas

 

narciso
           se desvia
                          das florestas profundas
e dentre a folhagem
                               novo transparente
                                                            olha

 


    com  cascalho adormecido
                                               no silêncio
a água

 

         perto da calma partida das ondas


narciso levado
                       ofegante
                                      coberto de sombra
pela floresta
                    e
                      seus joelhos
próximos aos caniços
                                  frágeis
                                             suas mãos delicadas suas mãos sonhadas
aos golfos
                arenosos
                              onde
furtiva
          sobre as mil
                             pedras redondas
a água

 

         perto da suave sombra das ilhas

 

caule
        após caule
                         se desabrocha verde
para fechar
                  as pálpebras
                                      a toda escapada


e límpido
               esse amor

 

                            ir a ti

agora
         até mesmo os caules subterrâneos
                                                               resistem a ele
agitam
          as plantas
                           tenebrosas
e baralham
                  esses joelhos
  inesperados
os imensos
                 nenúfares
                                 o tocam de toda parte
perdido
            na noite
                         ao lado dos turbilhões sem fundo
as folhagens
                    o erguem
                                   de seus passos
e o carregam
                      cada vez mais rápido
                                                       para a obscuridade estrondante


para quê
             essas mãos essas silenciosas
                                                           essas sonhadas
levadas
           na noite
                        pelas ramagens densas
ah
    jamais
              diz ele
e
  se vira
            obscuro

 

e eis que
             perto dele
                             vinda pelas vagas
a água
          timidamente
                              afaga-lhe a mão
depois transborda
                            a perder de vista
                                                       seguindo a areia fugitiva

 

alvorecida


                      e aos poucos
                                          ele a acaricia
abandonado
                   à respiração
                                      das vagas silenciosas

sobre a orla lisa
                         a haste
                                    se mexe
torna-se
            docemente
                              um estranho casco
a noite
           abre
                  sobre o saibro silencioso
a água
           a água
                      a água
as mãos
            sonoras
                         avançam no sonho
e enquanto
        ela lhe fala
                          pelos enxames de peixes
narciso
           a cobre
                       medrosa com a noite


ao longe
              algazarram
                               as florestas
as copas
             se espalham
                                na fuga das folhas
e derivam
               até as sombras
&nb