POEsIA TRADUZIDA
Poemas de RadOVAN Ivsic
Tradução de Eclair Almeida Filho.
Radovan Ivsic, nascido em Zagreb (Croácia) em 1921, é poeta, dramaturgo e crítico. Publicou seu primeiro livro, Mavena, 1941. Depois veio Narciso (1942), livro que foi proibido e confiscado pelo regime Titista na então Iugoslávia sob a alegação de “ser um produto de uma arte decadente”. De 1943 é sua peça teatral mais famosa Le roi Gordogan. Impedido pelo regime titista e seus jdanovistas de escrever, Ivsic se dedica à tradução de autores como Shakespeare e Jean-Jacques Rousseau.
Em 1954, o poeta parte em definitivo para Paris, onde se torna amigo e parceiro dos poetas surrealistas Benjamin Péret e André Breton. Após a morte de Breton em 1966, Ivsic assume a direção das Edições Maintenant.
Suas obras completas encontram-se publicadas em 3 volumes pela editora Gallimard: Poèmes (2004), Théâtre définitif (2005) e Cascades (ensaios, 2006)
Em toda sua obra poética, teatral e crítica, Ivsic busca atingir os limites da expressão verbal, através de imagens relacionadas à liberdade, ao sonho, à natureza e à magia.
Eclair Antonio Almeida Filho (1974) é crítico literário e tradutor, Doutor em literatura francesa pela USP (05-2006), com a tese intitulada Jacques Prévert e a poética do movimento.
METEOROS
1
Sombria, ela está no vazio. Seu dedo desperta, hesita, depois torna-se peixe. Todo seu corpo se alumia. É o nevoeiro, diz para si mesma.
2
Pesada, no turbilhão, ela é apenas uma ferida. Um grito entreabre sua boca mas os dedos de seus pés são borboletas e alçam vôo. É o relâmpago, diz para si mesma.
3
Vermelha, ela se assusta: não são mais as escamas que recobrem seu corpo mas os lábios tão pequenos, inumeráveis. Ela se envolve num lençol branco. É a neve, diz para si mesma.
4
Trêmula, ela avança em direção ao abismo embora ela gostaria de fugir. Não é um abismo, é um abutre que se precipita em direção à ponta nua de seu seio. É a miragem, diz para si mesma.
5
Citadina, ela tem o segredo para abrir as jaulas. Com o primeiro tigre, ela desce no metrô. Em pouco tempo, estão no deserto. As ampolas se apagam mas no escuro dois olhos verdes não tardarão a se iluminar. É o eclipse, diz para si mesma.
6
Ofegante, ela atingiu o cume da mais alta falésia. De repente, atrás de um rochedo, ela percebe um olho e depois um outro: milhares de pupilas ávidas fixam-se sobre ela. Rápida, ela começa a se despir. Nua enfim, ela avança em direção à encosta abrupta, ervosa, e desce até a planície fazendo a roda. É o ciclone, diz para si mesma.
7
Noturna, no musgo ela descobre as estrelas, os traços de um cervo e enfim uma fonte. Um arminho em fuga se esconde em sua axila. É o cometa, diz para si mesma.
8
Invejosa, ela vê o dorso de um desconhecido que se observa no espelho. Sob o travesseiro, ela pega um machado e o lança em direção à fria superfície para aniquilar sua profundidade enganosa. O desconhecido se desvia e a desfigura para ver sua nova imagem, talvez. Não. É o terremoto, diz para si mesma.
MÉTÉORES
1
Sombre, elle est dans le vide. Son doigt s’éveille, hésite, puis devient poisson. Tout son corps s’éclaire. C’est le brouillard, se dit-elle.
2
Lourde, dans le tourbillon, elle n’est qu’une plaie. Un cri entrouvre sa bouche mais ses orteils sont des papillons et ils s’envolent. C’est l’éclair, se dit-elle.
3
Rouge, elle s’étonne : ce ne sont plus les écailles qui recouvrent son corps mais les lèvres toutes petites, innombrables. Elle s’enveloppe dans un drap blanc. C’est la neige, se dit-elle.
4
Tremblante, elle avance vers le gouffre alors qu’elle voudrait s’enfuir. Ce n’est pas un gouffre, c’est un vautour qui se précipite vers la pointe nue de son sein. C’est le mirage, se dit-elle.
5
Citadine, elle a le secret d’ouvrir les cages. Avec le premier tigre, elle descend dans le métro. Bientôt, ils sont dans le désert. Les ampoules s’éteignent mais dans le noir deux yeux verts ne tarderont pas à s’illuminer. C’est l’éclipse, se dit-elle.
6
Haletante, elle a atteint le sommet de la plus haute falaise. Soudain, derrière un rocher, elle aperçoit un oeil et puis un autre: des milliers de prunelles avides sont fixées sur elle. Vite, elle commence à se déshabiller. Nue enfin, elle avance vers la pente abrupte, herbeuse, et descend vers la plaine en faisant la roue. C’est le cyclone, se dit-elle.
7
Nocturne, dans la mousse elle découvre les étoiles, les traces d’un cerf et enfin une source. Une hermine en fuite se cache sous son aisselle. C’est la comète, se dit-elle.
8
Jalouse, elle voit le dos d’un inconnu qui s’observe dans le miroir. Sous l’oreiller, elle prend une hache et la lance vers froide surface pour anéantir sa profondeur trompeuse. L’inconnu se détourne et la dévisage pour voir sa nouvelle image, peut-être. Non. C’est le tremblement de terre, se dit-elle.
AVENTURA SKURJENI
A rede
das rotas
espreita
o viajante
na saída
da grota
A montanha : Para me A zebra : Os itinerários ? A
deslocar, não preciso de rigor, façam-me deles um
ferradura. manto.
A jaula : Como esse O dragão : Nenhum
boêmio que teve medo barro das estradas sobre
e virou cantoneiro. meus calcannhares de ouro.
A vertigem : A mim o machado A cereja : Eu não me
para cortar o polvo perco. Entro. Rirei
dos caminhos. mais tarde.
12 de abril de 1961
AVENTURE SKURJENI
Le rets
des routes
guette
le voyageur
au sortir
de la grotte
La montagne : Pour me Le zèbre : Les itinéraires ? À
déplacer, je n’ai pas besoin la rigueur, faites-m’en un
de fer à cheval. manteau
La cage : Comme ce Le dragon : Aucune
bohémien qui eut peur boue des sentiers sur
et se fit cantonnier. mes talons d’or.
Le vertige : À moi la hache La cerise : Je ne me
pour trancher la pieuvre perds pas. J’entre. Je rirai
des chemins. plus tard.
A ÁRVORE
E depois a árvore cresce cresce cresce
por toda parte de galho em galho
por toda parte de caule em caule
por toda parte de pássaro em pássaro
hou hou hou, hou hou hou
É com certeza a primavera.
E depois a árvore cresce cresce cresce
brotam os brotos
brilham as gotas d’água
riem as sinetas
hou hou hou, hou hou hou, hou hou hou
É com certeza o vento leve.
E depois a árvore cresce cresce cresce
até o sol
E o sol explode de rir
em cascatas
para assustar os peixes
com suas escamas-centelhas
E os peixes têm medo,
oh pequenos peixes !
oh queridos peixes !
Pobres pequenos peixes
que entram nas raízes
que nadam nas raízes
e nadam nadam
e nadam na árvore
e nadam nadam
e nadam nos galhos
e nadam nadam
e ali estão a olhar através dos brotos
suas nadadeiras brilham
eles saltam através dos brotos
hou hou hou, hou hou hou,
e ali estão a se tornar folhas,
e folhas e folhas.
Como elas são transparentes!
Como elas são reluzentes!
São com certeza peixes.
E depois a árvore cresce cresce cresce
todos os pássaros se escondem
as nuvens chamam o vento.
Giram os turbilhões
Girogiram as folhas secas:
o jovem vendaval viaja.
Os cervos jorram das cascatas
com gotículas nos galhos.
O granizo. . .
O granizo em guizos. . .
O granizo. . .
O granizo em guizos. . .
vendaval vendaval vendaval
guizos guizos guizos
o granizo em guizos
o granizo em guizos
vendaval vendaval
vendaval vendaval
o granizo. .
guizos guizos guizos. .
o granizo. .
guizos guizos guizos. .
vendaval. .
granizo
vendaval. .
granizo
guizos. .
guizos. .
Como o céu está azul!
Como o ar está claro!
É com certeza o vendaval passou.
E depois a árvore cresce cresce cresce
E as borboletas se perguntam bem baixinho
se deveriam primeiro pousar nos seixos
ou talvez nas cachoeiras
ou talvez nos esquilos.
E então levemente se mexem,
se agitam, passeiam, se sentam,
se balançam, se balançam, se balançam. . .
Como são tantas!
Uma verdadeira nuvem de flores!
São com certeza as borboletas sentadas nos galhos.
E depois a árvore cresce cresce cresce
e depois vem a noite
e depois vem o dia
e depois vem a noite
e depois vem o dia
e a noite e o dia.
e depois vem o outono
e depois os frutos caem.
Como são deliciosos!
e depois vem o inverno.
Como o inverno é branco!
É com certeza a neve.
e depois o que vem depois?
É com certeza a primavera.
E depois a árvore cresce cresce cresce.
(1944)
L’ARBRE
Et puis l’arbre pousse pousse pousse
partout de branche en branche
partout de tige en tige
partout d’oiseau en oiseau
hou hou hou, hou hou hou
C’est bien sûr le printemps.
Et puis l’arbre pousse pousse pousse
bourgeonnent les bourgeons
brillent les gouttes d’eau
rient les clochettes
hou hou hou, hou hou hou, hou hou hou
C’est bien sûr le vent léger.
Et puis l’arbre pousse pousse pousse
vers le soleil
Et le soleil éclate de rire
en cascades
pour effrayer les poissons
avec leurs écailles-étincelles
Et les poissons ont peur,
oh petits poissons !
oh chers poissons !
Pauvres petits poissons
qui entrent dans les racines
qui nagent dans les racines
et nagent nagent
et nagent dans l’arbre
et nagent nagent
et nagent dans les branches
et nagent nagent
les voilà qui regardent à travers les bourgeons
leurs nageoires brillent
ils sautent à travers les bourgeons
hou hou hou, hou hou hou,
les voilà qui deviennent des feuilles,
et des feuilles et des feuilles.
Qu’elles sont transparentes !
Qu’elles sont luisantes !
C’est bien des poissons.
Et puis l’arbre pousse pousse pousse
tous les oiseaux se cachent
les nuages appellent le vent.
Tournent les tourbillons
tournoient les feuilles sèches :
le jeune orage voyage.
Les cerfs jaillissent des cascades
avec des gouttelettes dans les ramures.
La grêle. . .
la grêle en grelots. . .
la grêle. . .
la grêle en grelots. . .
orage orage orage
grelots grelots grelots
la grêle en grelots
la grêle en grelots
orage orage
orage orage
la grêle. .
grelots grelots grelots. .
la grêle. .
grelots grelots grelots. .
orage. .
grêle
orage. .
grêle
grelots. .
grelots. .
Comme le ciel est bleu !
Comme l’air est clair !
C’est bien sûr que l’orage est passé.
Et puis l’arbre pousse pousse pousse
et les papillons se demandent tout bas
s’ils devraient d’abord se poser sur les cailloux
ou peut-être sur les chutes d’eau
ou peut-être sur les écureuils.
Et alors légèrement ils bougent,
s’agitent, se promènent, s’assoient,
se balancent, se balancent, se balancent. . .
Combien il y en a !
Un vrai nuage de fleurs !
C’est bien sûr les papilons assis sur les branches.
Et puis l’arbre pousse pousse pousse
et puis vient la nuit
et puis vient le jour
et puis vient la nuit
et puis vient le jour
et la nuit et le jour
et puis vient l’automne
et puis les fruits tombent.
Comme ils sont délicieux !
Et puis vient l’hiver.
Comme l’hiver est blanc !
C’est bien sûr la neige.
Et puis qu’est-ce qui vient après ?
C’est bien sûr le printemps.
Et puis l’arbre pousse pousse pousse.
(1944)
BRIONI
Para Annie
Os cervos são borboletas
as borboletas são peixes
os peixes são claridade
a claridade é morte
a morte é laranja
a laranja é vulcão
o vulcão é feno
o feno é elefante
o elefante é afogamento
o afogamento é riso
o riso é montanha
a montanha é anel
o anel é solidão
a solidão é areia
a areia é roda
a roda é terremoto
o terremoto é cílios
os cílios são cascata
a cascata é bigorna
a bigorna é lembranças
as lembranças são vermelho
o vermelho é chicote
o chicote é fim
o fim é mel
o mel é nuvem
a nuvem é o infinito
o infinito é infinito
BRIONI
Pour Annie
Les cerfs sont papillons
les papillons sont poissons
les poissons sont clarté
la clarté est mort
la mort est orange
l’orange est volcan
le volcan est foin
le foin est éléphant
l’éléphant est noyade
la noyade est rire
le rire est montagne
la montagne est anneau
l’anneau est solitude
la solitude est sable
le sable est roue
la roue est tremblement de terre
le tremblement de terre est cils
les cils sont cascade
la cascade est enclume
l’enclume est souvenirs
les souvenirs sont rouge
le rouge est fouet
le fouet est fin
la fin est miel
le miel est nuage
le nuage est l’infini
l’infini est infini
ÉCHO DE BRIONI
Para Annie ainda
O carvão como a aurora
a aurora como o turbilhão
a turbilhão como o fogo
o fogo como a lágrima
a lágrima como o crescimento
o crescimento como a areia
a areia como a velocidade
a velocidade como a ferida
a ferida como a luz
a luz como o grito
o grito como o camaleão
o camaleão como a dor
a dor como o ar
o ar como o ouro
o ouro como a pedra
a pedra como o pensamento
o pensamento como o abismo
o abismo como o garrote
o garrote como o ovo
o ovo como a corrida
a corrida como a montanha
a montanha como o nado
o nado como o coração
o coração como o silêncio
o silêncio como o silêncio.
ÉCHO DE BRIONI
Pour Annie encore
Le charbon comme l’aube
l’aube comme le tourbillon
le tourbillon comme le feu
le feu comme la larme
la larme comme la pousse
la pousse comme le sable
le sable comme la vitesse
la vitesse comme la blessure
la blessure comme la lumière
la lumière comme le cri
le cri comme le lézard
le lézard comme la douleur
la douleur comme l’air
l’air comme l’or
l’or comme la pierre
la pierre comme la pensée
la pensée comme le gouffre
le gouffre comme le garrot
le garrot comme l’oeuf
l’oeuf comme la course
la course comme la montagne
la montagne comme la nage
la nage comme le coeur
le coeur comme le silence
le silence comme le silence.
NARCISO
a folha
da água
sobre o sonho da relva
enterrando a areia
no vento
tranqüilo
escutando
o medo
nos abismos arrebatados
sonhando
sobre as mãos frágeis
narciso
do galho úmido
ao pássaro
preto
da marcha
dos caniços
às trevas dos arrecifes
do frêmito
recôndito
das fontes novas
às pradarias
amarelas
das suaves colinas
narciso avança
sob os galhos
obscuros
e enquanto caminha
sem ruído
pelas florestas
a água nem a água
lhe toma hesitante
a escuridão
o vento verde
nas avencas
vermelhas
tais os sonolentos
calhaus
sonoros
seja que
as pedras dos montes
obscuros
para rebentar-se
sobre os galhos
imóveis
então narciso
pára
sombrio
a casca do sonho
mexeu-se
um pouco
e quando a noite
inundou
os rochedos
as pradarias
abriram
e esconderam as vagas
que a relva
sono dos juncos
na areia
narciso
lentamente
afastou os galhos
as florestas
escutaram
a relva começou a escorrer
só
na baía
das trevas sonhadas
a água
subia
no rumor da areia
ele olhava
esgazeado
raro
um galho negro
se despedaçou
nas ramagens
se perdendo
longo tempo
nas obscuridades sonoras
as folhagens
atrás dele
se fechavam de novo em silêncio
quando
o vento
chocou-se levemente
sobre as raízes
sobre o granito
dos entalhes
e enquanto ele caminha
sem ruído
pelas florestas
á água nem a água
lhe toma hesitante
a escuridão
enterrando a areia
no vento
frágil
sonhando
sobre mãos
tranqüilas
se ela vai
se ela vai
quando ela vai
se ela vai
quando ela vai
por trás dele
e
que ela
vai avançar
e
que ela
vai parar
quando
ele
parar
sobre a nítida
montanha
azul
transparente
de mãos
sombrias
pela curva
suave
da pradaria
até à cor
leve
da dormideira
ela veio
há pouco
e escutou
por trás da noite
úmida
arrepiante
que
sozinha
lá longe
quando
tornada
rápida
sob as árvores
será
nova
assim
ela partiu
pelas florestas
lisa
sobre as folhas
e acariciada alhures
com os sonhos
que ela ama
na borda da noite
pedras na mão
que lhe são
maravilhas
galhos
surgiram fáceis
e cresceram sobre a areia
e de repente
o vento passou
pelos dedos
e todas as rochas
uivavam
e verde
quando ela
o olhou
um pouco
se ela vai
se ela vai
quando ela vai
se ela vai
quando ela vai
por trás dele
e
que ela
vai avançar
e
que ela
vai parar
quando
ele
parar
narciso então
se virou
para ela
ela se aproximou
um pouco
dele
ele desejava
então
que pelos precipícios
que pelas clareiras
até à relva
até à pedra
e assim
ele ia
pelas folhagens
que tão inteiro
através da floresta
ele se pôs a rir
que está
que está
pelas mãos
lá onde as mãos
descaminhadoras
o sonho
e
as trevas
com o outro lado
pela montanha
inquietante
em segredo
narciso
sonhava
tranqüilo
sobre a noite
vazia
dura
sobre as pedras
longínquas
claras
folhas negras
germinavam
os rochedos
as vagas
estavam
por toda parte sob os dedos
a mão
soçobrou
as avencas ondejavam
jovem
revestido
de seixos loiros
o pavor
retine
através dos densos abismos
narciso de súbito
estremece
em seu sonho
ele olhava
então
de novo
o vento estava
só
nas algas
narciso caminhava
vestido
de rochas
e escutava
o nascimento
das pedras
ele escutava
e depois
se virou
ele escutava
escutava
se ela vai
transparente
pela noite
pálida
quando ela penetra
em
seu sonho
amontoando
a vivaz
enquanto ela vai
nacarada
onde estás
a floresta partiu
para acima da pequena
espádua
descendo
aos caniços frágeis
sem cor
os galhos navegavam
ao lado
das abruptas nadadeiras
mas quando
as folhagens escorreram
para acima dos seixos
as moitas germinavam
jocosamente
sobre a palma
tanto a folhagem
vibrava
pelo sonho
o mato rasteiro estava
na vertigem
dos olhos
desaparecia
pela beira das cascatas
negras
de toda parte
azuis e pequenas as conchas
chegavam
lá embaixo sobre as folhas
e só
no sonho
narciso
lá onde o ruído
que a noite
quando os camaleões
desde a relva
da hera
negra
eco ela
pelos rochedos
longínquos
esquecidos
sobre
as folhagens
sombrias
folha-se
azul
o vento novo
as árvores
taciturnas
inaudíveis
a louca
abundância
dos antros
das ansas
lisas
adormecidas
às dobras
das raízes
desvairadas
sonhava
se inclinava
sobre os espinheiros
perdidos
muito antigos
e onde ainda
pela leve
marcha
da areia
ela
esflorava
silenciosamente
a mata se projetava
sobre os abismos
profundos
e costeava
estranhamente
o silêncio
no segredo
do refolhar
exaltado
se há
algo
pequeno
por trás
das pálpebras
sombrias
é a folhagem
rápida
dos salgueiros
onde
por entre as pedras
escondida nos eflúvios
só pelo sonho
e tocada
pelas florestas
cheia de temor
afogada
até às mãos
narciso
seus passos
caem
de seus joelhos solitários
narciso
são os dedos
sonolentos
em torno do caule
lá onde as mãos
murmurantes
quebram sobre as folhas
envolvem
a casca
úmida
até à flor
se distanciando
sob a palma
narciso
é o ornamento
arenoso
da concha
onde as folhações
sombrias
sobrevêm
quando a escuridão
se separa
e se afasta
ela
o sentiu
na hora
narciso
olhava
sobre ela
de sua fronte
até à seiva
dos longes
ele se abria
lentamente
à noite
respirava
com clareiras
imperceptíveis
ela ria
do alto dos galhos
selvagens
ia até
às pedras arrepiando-se
em folhas
as mãos barulhavam
os seixos
respiravam
reviradas as folhas
olhavam
cresciam
os escolhos fugazes
mergulhavam
através dos sonhos
e floresciam
com pequenos
tentáculos
conchas
da noite
através da ruidosa mata
nos calhaus
rápidos
vívidos
os rochedos
se afastavam
lentamente
em sombria ganga
longe
em indiferentes rachaduras
assim
ela
morreu
a folha da noite
sobre o sonho
da casca
enterrando a areia
no vento
tranqüilo
escutando
o medo
nos abismos arrebatados
sonhando
sobre as mãos frágeis
narciso
do galho úmido
ao pássaro
preto
da marcha
dos caniços
às trevas dos arrecifes
do frêmito
encolhido
dos pequenos tentáculos
às pradarias
transparentes
das suaves colinas
narciso avança
sob os galhos
obscuros
e enquanto caminha
sem ruído
pelas florestas
o vento verde
nas avencas
vermelhas
tais os sonolentos
calhaus
sonoros
seja que
as pedras dos montes
obscuros
para rebentar-se
sobre os galhos
imóveis
lá narciso olha
esgazeado
raro
por trás dele
levemente
os galhos se fecham de novo
com as dobras do sonho
nas trevas
ruidosas
através da areia
azul
transparente
os dedos
partem
para o estranho caule
abandonado
silencioso
folheado
pelas raízes
a noite
se engolfa nos rochedos
um após o outro
os seixos
começam a se mexer
do ar
da pálpebra
às distantes avencas noturnas
do murmúrio afogado
das florestas
à espádua lisa da relva
os caniços da fronte
desaparecem
entre as pedras pálidas
entre as folhas da mão
selvagens
manantes
onde a floresta dos sonhos
impele
os aluviões da sombra
apavora as grutas
com o asfódelo tenro
penetra
pelas falésias sinistras
levando
as moitas surdas
desde o matagal
até o coração rarefeito
do caracol
pelas imensidões das trevas
sobre as rajadas negras
do pavor
engolindo
mais profundamente
os troncos perdidos
com o terrível estrondo
do esmagamento
dos galhos
com o uivar
das ilhas cortantes
até às falésias
em sonho
e noturno
dos desertos sinistros
do movimento
imenso
dos escolhos vivos
até o vento
pelo susto
e olhos dos seixos
com as pedras
arrebentando
sobre as dunas sombrias
e de longe
pelos matos rasteiros
quando os golpes da escuridão
partem
pelas folhagens
até os túrbidos abismos
devolvem às mãos
o estrondo
das montanhas
as folhas
fogem
diante dos joelhos dele
se viram
sobre a fronte
desdobrada
onde junto aos sonhos
azula
sobre o crepitar dos rochedos
o pequeno medo
da marcha inaudível
da relva
os precipícios
afluem ainda
nas profundezas movediças
refluem
sobre os abismos
noturnos
narciso já
está longe
das folhagens negras
carregado pela
silenciosa casca
da areia
do outro lado da floresta
os galhos
se desenrolam
às paragens
cada vez mais longínquas
das liliáceas tempestuosas
aos abalos
dos caules
emaranhados
os desertos
acorrem
sobre as árvores adormecidas
o vento
entenebrece
onde acima
realmente a noite
agarrada à pequena
espádua
e para narciso
tanto
vai o prodígio
que pelo vento
todos
os seus cabelos
trêmula
no ornamento
dos caniços agitados
a água
nos passos furtivos
da areia
narciso estremece
noturno
perto das ramagens
por trás das dobras
esfumadas
da surpreendente superfície
no pavor
abismal
ele se esconde pelas florestas
no silêncio azul
da areia
da baía
os galhos dos sonhos
algazarram
sobre sua fronte
em torno
da haste negra
das raízes
as folhagens
afluem
sobre o rumor das árvores
de folha em folha
carregam
ameaçam
surdamente
dos picos recuados
até as plantas apavoradas
narciso
se desvia
das florestas profundas
e dentre a folhagem
novo transparente
olha
só
com cascalho adormecido
no silêncio
a água
perto da calma partida das ondas
narciso levado
ofegante
coberto de sombra
pela floresta
e
seus joelhos
próximos aos caniços
frágeis
suas mãos delicadas suas mãos sonhadas
aos golfos
arenosos
onde
furtiva
sobre as mil
pedras redondas
a água
perto da suave sombra das ilhas
caule
após caule
se desabrocha verde
para fechar
as pálpebras
a toda escapada
e límpido
esse amor
ir a ti
agora
até mesmo os caules subterrâneos
resistem a ele
agitam
as plantas
tenebrosas
e baralham
esses joelhos
inesperados
os imensos
nenúfares
o tocam de toda parte
perdido
na noite
ao lado dos turbilhões sem fundo
as folhagens
o erguem
de seus passos
e o carregam
cada vez mais rápido
para a obscuridade estrondante
para quê
essas mãos essas silenciosas
essas sonhadas
levadas
na noite
pelas ramagens densas
ah
jamais
diz ele
e
se vira
obscuro
e eis que
perto dele
vinda pelas vagas
a água
timidamente
afaga-lhe a mão
depois transborda
a perder de vista
seguindo a areia fugitiva
alvorecida
e aos poucos
ele a acaricia
abandonado
à respiração
das vagas silenciosas
sobre a orla lisa
a haste
se mexe
torna-se
docemente
um estranho casco
a noite
abre
sobre o saibro silencioso
a água
a água
a água
as mãos
sonoras
avançam no sonho
e enquanto
ela lhe fala
pelos enxames de peixes
narciso
a cobre
medrosa com a noite
ao longe
algazarram
as florestas
as copas
se espalham
na fuga das folhas
e derivam
até as sombras
&nb |