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NINGUÉM FALA PORTUGUÊS
Entrevista com Eliot Weinberger

TRÊS POEMAS
Raoul Sentenat

TRÊS FRAGMENTOS DE LECTURES IN AMERICA
Gertrude Stein

 

SIBILA 2
ANO 2 – 2002

 

ENSAIOS E TRABALHOS DE MÁRIO FAUSTINO E TORQUATO NETO

Leia:
ELIOT WEINBERGER: "NINGUÉM FALA PORTUGUÊS"
OU O ECLIPSE DA POESIA BRASILEIRA

Entrevista com Eliot Weinberger

Leia:
TRÊS POEMAS
Raoul Sentenat / Tradução: Odile Cisneros e Régis Bonvicino

Leia:
TRÊS FRAGMENTOS DE LECTURES IN AMERICA
Gertrude Stein

POEMAS DE CÉSAR VALLEJO, GERTRUDE STEIN, CLAUDE ROYET-JOURNOUD, CLAUDIA ROQUETE-PINTO, ANTONIO CARLOS SECCHIN E RÉGIS BONVICINO

POESIA PORTUGUESA DE INOVAÇÃO: VALTER HUGO MÃE, JORGE REIS-SÁ, CÉLIA GONÇALVES E EMILIANA CRUZ

ROBERTO BURLE MARX

 

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NINGUÉM FALA PORTUGUÊS
Entrevista com Eliot Weinberger

 

Eliot Weinberger, que reside em Nova York, é um dos principais ensaístas de literatura nos EUA, sem vinculação com qualquer universidade, o que hoje é raro em seu país. Escreve também sobre política e questões sociais. Seus ensaios estão reunidos nos livros Works on Paper (1986), Outside Stories (1992) e Karmic Traces (2000), todos publicados pela New Directions. É ele também autor de um estudo central sobre a tradução de poesia chinesa para o inglês, francês e espanhol, 19 Ways of Looking at Wang Wei (1987). Em 1993, editou uma antologia sem precedentes: American Poetry Since 1950: Innovators & Outsiders, que inclui William Carlos Williams, Ezra Pound, H.D., Langstone Hughes, Lorine Niedcker, Louis Zukofsky, George Oppen, Charles Olson, Robert Duncan, Jack Spicer, Robert Creeley, Allen Ginsberg, Frank O'Hara, John Ashbery, Amiri Baraka e Michael Palmer, entre outros.

É o principal tradutor da poesia de Octavio Paz no universo anglo-americano e talvez no mundo todo, com o volume Octavio Paz: Collected Poems 1957-1987 (1987). Traduziu e editou igualmente Jorge Luis Borges (Selected Non-Fictions, 1999), Vicente Huidobro (Altazor, 1988), Xavier Villarrutia (Nostalgia for Death, 1992) e o chinês Bei Dao (Unlock, 2000). Ou seja, vários dos melhores poetas de língua espanhola da América Latina do século 20 e o maior poeta chinês vivo.

Weinberger é um crítico independente, com profundos liames com a cultura mexicana e assídua presença em revistas tais como Vuelta e Letras Libres. Em maio de 2000, foi o primeiro escritor a receber do governo mexicano a condecoração Ordem Mexicana del Águila Azteca, insígnia que reconhece estrangeiros que prestaram serviços proeminentes à humanidade. Eis um pouco do que pensa, em entrevista realizada em janeiro de 2002.

Odile Cisneros

 

SIBILA: Qual é, na sua opinião, a imagem da cultura brasileira e do Brasil nos EUA?

EW: Falando da imagem do Brasil nos Estados Unidos, existem dois fatores a serem pensados. Primeiro, o Brasil, diversamente de muitos países da América Latina, nunca teve uma presença considerável aqui em termos de imigração. (Nem Portugal, excluindo-se algumas antigas comunidades de pescadores na Nova Inglaterra e no sul da Califórnia). Assim, a cultura brasileira simplesmente não existe como um elemento – em termos dos hábitos das pessoas entre nós – na vida americana.

Segundo, é o fato que o principal produto cultural brasileiro de exportação, durante a maior parte do século 20, foi a música. Como todo mundo sabe, a música brasileira é uma das maravilhas do mundo e transformou a música em todos os lugares do planeta. Assim, naturalmente, eclipsou o resto da cultura brasileira. Os poetas podem não gostar disto, mas é inevitável: o Brasil, no exterior, é quase inteiramente imaginado através de sua música.

 

SIBILA: As tradições poéticas dos Estados Unidos e do Brasil (e por extensão da América Latina), até a primeira metade do século 20, parecem ter tido só poucos pontos de contato. Você concorda com isso? Qual é a razão pela qual isto aconteceu com o Brasil e a língua portuguesa, diversamente, por exemplo, do que ocorreu com o espanhol?

EW: Uma pergunta complicada.Com exceção de uns quantos romances, não havia traduções importantes de literatura latino-americana nos Estados Unidos até 1960. Depois, com Borges e Paz, começou o dilúvio. Durante os anos 60 e 70, coexistiam, de um lado, a extraordinária popularidade dos romancistas do "boom", e do outro lado, uma surpreendente gama de poetas americanos de todos os campos de combate da poesia, traduzindo muitos poetas latino-americanos.

Esta situação acabou mais ou menos nos anos 70, quando os poetas retiraram-se para carreiras acadêmicas, na explosão das escolas de "escrita criativa". Antes de 1970, era difícil encontrar um poeta americano que não tivesse traduzido nada. Depois de 1970, é difícil encontrar mais de uns poucos que traduzem – e quase todos os que o fazem são veteranos do boom da tradução dos anos 60. Há uns 8000 poetas que figuram no Directory of American Poets, mas apenas quatro ou cinco deles, com 50 anos ou menos, que têm reputações individuais como poetas, de fato, traduzem.

Em direção oposta, acho desastroso que um sentimento anti-imperialista manteve os poetas latino-americanos afastados dos poetas americanos [1] durante a maior parte do século 20. Com poucas exceções, como Paz, por exemplo, nunca ocorreu-lhes que a poesia americana foi escrita apesar do Estado Americano e não em virtude dele. Assim, os poetas tenderam a buscar inspiração estrangeira na Europa.

Felizmente, isso começou a mudar nos últimos dez anos. No México, o país que conheço melhor, finalmente descobriu-se a poesia norte-americana e começou-se a perceber que é preciso traduzir tudo, inclusive, os pioneiros modernistas. Caso curioso: há poetas novos na América Latina que escrevem sob a influência dos poetas americanos dos anos 60, que, por seu turno, foram influenciados pela poesia norte-americana. A poesia sempre funciona desta maneira: um vaivém baseado em leituras solitárias e diálogos internacionais, que nada têm a ver com governos, organizações, instituições, conferências ou intercâmbios financiados.

Em relação ao Brasil: a leitura da poesia brasileira nos Estados Unidos tem uma história muito breve. Houve algumas traduções acadêmicas, mas essencialmente, só há dois livros que qualquer pessoa interessada leria: a antologia da Elizabeth Bishop, de 1972, traduzida por uma dúzia de poetas extremamente conhecidos [2] e a tradução de Drummond feita por Mark Strand [3], da mesma época. A outra antologia de importância veio 25 anos depois, Nothing the sun could not explain, em 1997 [4].

O motivo para a ignorância em relação à poesia brasileira [5] é bastante simples. Quase ninguém fala português. Como já disse, o português n˜åo tem uma presença na vida americana e os americanos são incrivelmente ignorantes – e em épocas recentes ainda mais – em matéria de línguas estrangeiras. Apenas 8% dos estudantes universitários fazem um curso de alguma língua estrangeira. Pode ser que exista, mas não conheço um só poeta americano que fale português.

 

SIBILA: Qual é sua opinião sobre a poesia da Bishop [6]? Além disso, sua permanência no Brasil é vista, pelos mesmos que a consideram uma poeta limitada, como acidental: ela poderia ter ido para qualquer país da América Latina –; sua permanência, segundo esta linha, foi mais o resultado de sua incapacidade para se assumir como lésbica e alcoólatra na sociedade americana do que escolha deliberada. O grupo concretista afirmava que suas atividades internacionais, a partir dos anos 50, teriam intensificado o intercâmbio entre Brasil e os EUA [7]. Você acha que esta atividade do grupo concretista teve algum efeito no mundo da poesia nos Estados Unidos?

EW: Eu estou na minoria, no que respeita à Bishop. As reputações sobem e descem e, nos últimos dez anos, antigos pilares do establishment, como Lowell e Berryman e Jarrell, começam a desaparecer na névoa, enquanto Bishop foi "canonizada" no sentido do Vaticano e também no de Bloom. Muitos a consideram a grande poeta da América da pós-guerra. Não consigo entender isso. Para mim, ela é a mais perfeita poeta do tipo New Yorker, uma criadora de artefatos inócuos, bem construídos.

Não sei muito da vida dela. Por isso não poderia opinar sobre os motivos que a levaram para o Brasil, mas com certeza não teria precisado escapar por ter sido lésbica ou alcoólatra. Em sua época era possível viver – tão feliz ou infelizmente – sendo lésbica e alcoólatra tanto em Nova York quanto em Key West (onde também morou). Todos os poetas de sua geração foram alcoólatras, e sua contemporânea – uma poeta infinitamente mais interessante – Muriel Rukeyser, também viveu como lésbica em Nova York toda sua vida e n˜åo foi censurada pelo Taleban cristão. Nova York não é Oklahoma.

Quanto à poesia concreta, peço desculpas, mas – além de alguns mínimos aficionados – nunca despertou interesse nos Estados Unidos. Duas razões: no início do século 20 (com Mallarmé, é claro, como precursor) houve uma explosão de poemas visualmente organizados, através da Europa continental e na nova União Soviética. Em 1930, e até mais cedo em alguns lugares, esta tendência estava morta e a poesia voltou a se alinhar na margem esquerda, até o movimento da poesia concreta nos anos 50, que foi em si só uma prática minoritária. Fora do movimento, e fora dos Estads Unidos, só conheço um poeta importante no período da pós-guerra que se preocupou com o aspecto físico do poema na página: Octavio Paz.

Nos Estados Unidos, no entanto, embora houvesse caligramas etc., foram pouco freqüentes os arranjos visuais do poema, que se tornou uma constante, de um outro modo, nas poesias de Pound e de Williams, passando por cummings e Zkofsky, por Olson e Duncan e pelo "field composition" – da Black Mountain –, chegando a contemporâneos como Susan Howe (entre outros). Assim, digamos, elementos "concretos" sempre estiveram presentes, diluindo a necessidade de uma poesia concreta pura.

Além disso, os Estados Unidos são uma sociedade saturada por anúncios publicitários e desenho gráfico de palavras. Para que escrever poemas concretos quando as estradas estão cheias de billboards com poemas concretos?

A repercussão da poesia concreta no Brasil sempre me pareceu – e nada posso dizer com caráter afirmativo – uma reação à predominância da música na cultura brasileira. De um modo geral, para além do concretismo dos anos 50, numa cultura que prefere nitidamente a música popular à organização rítmica da fala ou da palavra escrita, creio que uma forma de os poetas delimitarem seu território foi produzir uma poesia completamente muda.

 

SIBILA: O que pensa a respeito do trabalho de e. e. cummings e Robert Creeley, dois poetas norte-americanos que, este nos anos 90, para Régis Bonvicino, e aquele nos anos 50/60, para o concretismo, foram tomados interlocutores?

EW: cummings é um caso curioso. Embora seja ainda muito amado no exterior, faz já muito tempo que ninguém nos Estados Unidos o leva a sério. Pode ser que ele seja o único poeta americano conhecido, que não tem aqui um defensor. Ao meu ver é porque parece sentimental demais e seu tipo de linguagem exuberante e trocadilhesca foi melhor realizada por Williams, Zukofsky ou Stein. Também vale a pena apontar que cummings foi o único poeta americano que continuou publicando poemas anti-semitas depois da guerra e depois da publicação de fotografias dos campos de concentração. Os outros, apesar das opiniões que pudessem ter, pelo menos mantiveram-se calados a este respeito.

Creeley, é claro, tem uma presença relevante na poesia americana. Mas também é curioso que tenha tantos leitores fora dos Estados Unidos e que seja ao mesmo tempo o menos internacional dos poetas americanos: ele é o único poeta importante de sua geração que nunca traduziu nada e que nunca demonstrou entusiasmo público por qualquer poeta estrangeiro.

Vocês saberiam melhor do que eu porque os brasileiros sentiram-se atraídos por cummings e Creeley em particular. Do ponto de vista de minha ignorância, acho que a poesia brasileira, especialmente em contraste com muita poesia hispano-americana, tendeu a eliminar os excessos retóricos, obter o máximo com o mínimo de palavras, para usar as conhecidas polaridades americanas do século 19: a poesia hispano-americana é Whitman, a poesia brasileira é Dickinson. (É claro que há exceções). E de novo, eu atribuiria isso a uma reação à exuberância da música popular brasileira.

 

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TRÊS POEMAS
Raoul Sentenat
Tradução: Odile Cisneros e Régis Bonvicino

Raoul Sentenat nasceu em Havana, Cuba. Reside nos Estados Unidos desde 1961. Estudou Belas Artes no Miami Dade Jr. College. Formou-se em fotografia no Fort Lauderdale Art Institute. Na década de 1970, começou a escrever poesia e colaborou no grupo de cinema e vídeo Young Filmakers do Lower East Side e também em produções teatrais em Intar e, especificamente como poeta, no Nuyorican Poets Café. Em 1980, foi um dos coordenadores do Festival Anual das Artes de Cooper Sq. Em 1991, criou o movimento de arte das ruas “STREET MUSEUM”, em Miami Beach. Sua obra foi exibida em galerias do Soho, do East Village, de Puerto Rico e de Miami. Seus trabalhos como poeta e artista visual foram publicados e analisados em: I.D magazine, The New York Times; Zona Franca, Caracas, Venezuela; Cover Magazine, N.Y; Rizoma, Buenos Aires, Argentina; Escolios, California State University, Los Angeles, CA.; The Miami Herald; New York Soho Arts Magazine; Hybrido, Graduate School and University Center of the City of New York; Home planet news, N.Y, entre outros. Atualmente, mora em New York e é membro fundador do conselho editorial da revista VAVEL. Em breve, publicará seu primeiro livro de poesia, no qual reunirá toda sua produção desde 1973 até agora. (Odile Cisneros)

 

EX-PRESIÓN

Ex-presión ur vana-NULLORC-KINo COOLture
Fore da sub CULT tour and all sow for da
high lee institutionalized inn da…da corporATE
ID entity err ban HIGHrogliphics-gRAPh E.T en
la CALLe is da ultiMATE MASTer pISs-that’s right!
no calle-yeh yeh-I mean…you pee yuppie yo!
eYES peak sPAN itch-juice peek in gLITch-oui
sPEAK (spangl)lTCH-sWITCH haBIT at-MID evil Lie BRAry-
FOrE da inn sane? Legal gaME inn the same vein-so
Kane city zen vain-vava-veve-vovo-vovel-vavel-va’vel’-
bull va- babblelonia-vavialonia-cat-aló-knee-a cock tail
at the Ansonia bar and-thrILL on the grill-the hole bottle heir-Poe it maud it Charles been
jammin’ Walter’s err atTIC aura-LITter, it’s liteRATEs-
El mismo B.S. * de siempre-ENTERtain!!! ENTERtain!!!
con (clave) (su)ave-enter taint MEANt...tumba-timba-timbero-raPERO-
son eros-Ala la é lá lá-Lala LEE a los leídos y escriBIDos-¡esCRIBí dos! (con) form bored?
bORDERR line reader-LEE • Jean-sure LEE-leiSURE FLANÉUR- and the war whole-and
the trance(a)gressive LOAfer –vagando-des-cargando-¡so-ñando por la acera, acere!-
The multitudes and the platitudes of the wit man-rap sODA- who said-eye too walk the
streets of man hat and I land-y por su puesto-también list butt-not last hype per reel vision
donde el HUDson se emBORRAcha con aceite del agente de la gente que vacila
insomne—recién salida de un naufragio de sangre con la mente aturdida en el lugar donde
los hombres no mueren sino que se derrumban y en post guardia van de rumba apestando
a los Phillie’s teens del quarter POUNDerr for ever.

¿QUÉ? VOILÀ!

EX-PRESSÃO

Ex-pressão ur vãNA-NULAYOR-KINo COOLtura
Fore da sub CULT tour and all sou for da
high lee institutionalized inn da…da corpoRATE
ID entidade err ban HIGHrogliphics-gRAPh E.T na
a VIa is da ultiMATE MASter MIJO-that’s right!
não (ou)via-yeh yeh-I mean…you pi yuppie euoueuwell!
AlôYEH falo ExPAN itch-sug(c)o pique in gLITch-oui
pHALO (espaninglich)lTCH-sWITCH haBIT at-MID evil Lie BRAry-
FOrE da inn sano? Legal GAME inn the same vein-so
Kane city zen vain-vavá-vevé-vovó-vovel-vavel-va’vel’-
bull va- babelônia-vavialônia-cat-alô-knee-a cock tail
at the Ansonia bar and-thrILHO on the grill-the hole bottle heir-Poe it maud it Charles been
jammin’ Walter’s err atTIC aura-LITter(TAC), it’s liteRATEs-
O mesmo B.S. * de sempre-ENTERtem!!! ENTERtain!!!
com (clave) (su)ave-enter taint MENtE...tumba-timba-timbero-raPeirovaz-
som eros-Ala la é lá lá-Lala LEE aos lidos y escrevIDOS-¡esCRAVi dões! (con) form bored?
bORDERR line reader-LEE • Jean-sure LEE-leiSURE FLANÉUR- and the war whole-and
the trance(a)gressive LOAfer –vagando-des-carregando-¡so-nhando pelo chão, ão!-
The multitudes and the platitudes of the wit man-rap sODA- who as(i)d-eye too walk
the streets of man hat and I land-y é claro-também list butt-not last hype per reel vision
onde o HUDson fica bêBADo com óleo do agente da gente que vacila insone—recém saída
do um naufrágio de sangue com a cabeça aturdida no lugar onde os homens não morrem
e sim caem e em post guarda vão de rumba pesteando os Phillie’s teenos del quarter
POUNDerr for ever.

O QUE? VOILÀ!

ENCUENTRO CON BORGES
(Aeropuerto de Miami, enero 1977)

Lo vi sentado
en una silla de ruedas
y me le acerqué
en medio del tumulto
sus ojos muertos me miraron
intercambiamos unas cuantas palabras
(le dije que era cubano
que lo leía)
me dio un fuerte
apretón de manos
me acercó a su cara
y se despidió diciendo
¡Saludos a Martí!

 

ENCONTRO COM BORGES
(Aeroporto de Miami, janeiro 1977)

Estava sentado
numa cadeira de rodas
e me aproximei dele
no meio da multidão
seus olhos mortos miraram-me
trocamos apenas umas palavras
(eu lhe disse que era cubano
que o lia)
deu-me um forte
aperto de mão
inclinou seu rosto
para se despedir:
saudações a Martí!

 

NÚMERO DOS

Es viernes por la noche. El azar me ha traído a Tampa, ciudad a la que no creí
tener que regresar. Acabo de leer Junkie de William Burroughs, en vez de varios
autos sacramentales de Calderón, sobre los que voy a ser examinado la semana que
viene. Estoy aburrido, así que para entretenerme, me pongo a repasar nombres en
el gavetero desordenado de la memoria, y saltan a la mente: Fellini-Rosellini-
Mussolini-Kundalini-Pasolini-Paganini-Arnolfini-Leonor Fini-Albert Finney-
Albertini-Albertina-Nana Nini-Nana Nina-Felina-Roselina-Pasolina-Paganina-
Arnolfina-Leonor Fina-Albert Fino-Kundalino-Al Martino-Martini y Rossi-rosa-cosa
-casa-pasa-Dionisio-orificio-Platón-Platero-Sinatra-siniestro-Fronesis-kinesis
-Foción-ficción-Osley-Oswald-Caligari-cagalera-tremenda frikeadera-novelist-navelist
-Dada-dado-dedo-pedo y cedo la palabra a Antonini mejor dicho Antonioni-Vito
Corleone-Ignazio Silone-Al Capone-llega y pone que aquí me pongo yo dentro del
torbellino de las palabras. Significado-significante, música asonante, palabras
más palabras, punto y aparte.

 

NÚMERO DOIS

Sexta-feira à noite!. O acaso me trouxe a Tampa, um lugar para onde nunca pensei
em voltar. Acabo de ler Junkie de William Burroughs em vez de vários autos sacramentais de Calderón, sobre o que serei interpelado semana que vem. Entediado,
então, pra me divertir, começo a repassar nomes na gaveta desordenada da memória,
e me vêm à tona: Fellini-Rosellini-Mussolini-Kundalini-Pasolini-Paganini-Arnolfini
-Leonor Fini-Albert Finney-Albertini-Albertina-Nana Nini-Nana Nina-Felina-Roselina
-Pasolina-Paganina-Arnolfina-Leonor Fina-Albert Fino-Kundalino-Al Martino-Martini
y Rossi-rosa-coisa-casa-passa-Dionísio-orifício-Platão-Prateiro-e-eu-Sinatra-
siniestro-Fronesis-kinesis-Foção-ficção-Osley-Oswald-Caligari caganeira-tremenda
frikeadeira-novelist-navelist-Dada-dado-dedo-peço e cedo a palavra ao Antonini
ou ainda melhor ao Antonioni-Vito Corleone-Ignazio Silone-Al Capone-chega e
coloca que aqui me coloco eu no turbilhão das palavras. Significado-significante,
música assonante, palavras e mais palavras, ponto e à parte.

 

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TRÊS FRAGMENTOS DE LECTURES IN AMERICA
Gertrude Stein
Tradução: A.S. Bessa

* Traduzir Gertrude Stein para o português é uma tarefa para Síssifo. O tradutor (Síssifo) carrega esta pedra—Stein—nas costas ladeira acima apenas para constatar que a pedra ainda está lá em baixo. Isto tudo porque Stein é a falsa falsa bahiana — críticos reclamam que a prosa dela só fica parada, não canta não samba, não bole nem nada, não sabe deixar a mocidade louca. Mas na verdade Stein rocks. Síssifo (o tradutor) tem que entender que uma pedra é uma pedra, é uma pedra. E Stein é uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho da literatura. (Drummond viu esta pedra, Cabral viu esta pedra—a educação pela pedra). Embora difícil, traduzir Stein para o português é necessário. Stein tem muito o que nos ensinar — how writing is written. Uma vez devidamente antropofagizado, notaremos que o projeto Stein é gêmeo dos melhores momentos brasileiros — grande ambição somada aos mais modestos meios, a “coisa simples” de que nos fala Drummond.

 

Existem pontos que são interessantes e existem pontos que não são. Vamos partir daqueles que não são. Destes o primeiro o mais completo e o mais desinteresante é o ponto de interrogação. O ponto de interrogação é legal quando só quando usado como marca de gado ou quando usado como decoracão mas com respeito ao texto é completamente inteiramente completamente desinteressante. É evidente que quando interrogamos interrogamos e qualquer um que sabe ler sabe quando uma interrogação é uma interrogação quando escrita num texto. Então interrogo então onde deve-se usar o ponto de interrogação. Sua forma não se integra à gráfica ordinária e daí não apraz nem ao olho nem à oiça e daí é como um substantivo, um nome desnecessário de algo. Uma interrogação é uma interrogação, qualquer um pode ver que uma interrogação é uma interrogação então para que somar ponto de interrogação quando lá já está quando a interrogação lá já está no texto. Por isto nunca me permiti usar um ponto de interrogação, sempre o achei positivamente revoltante, e agora poucos o usam. Pontos de exclamação tem o mesmo problema e também aspas, são desnecessárias, são feias, estragam a linha escrita ou gráfica e daí de que servem, se não se sabe que uma interrogação é uma interrogação qual a razão de ser uma interrogação. O mesmo é válido para exclamação. E o mesmo é válido para aspas. Quando começei a escrever achei simplesmente impossível usar pontos de interrogação e aspas e exclamações e agora qualquer um vê assim. Talvez algum dia se verá de outra maneira mas agora qualquer um pode e vê assim.

Quando começei a escrever, senti que o texto deveria ir em frente, ainda sinto que o texto deve ir em frente mas quando começei a escrever eu estava completamente possuída pela necessidade de que o texto deveria ir em frente e se o texto deveria ir em frente o que que dois pontos e ponto e vírgulas tinham a ver com isto, o que que vírgulas tinham a ver com isto, o que que pontos finais tinham a ver com isto e o que que letras maiúsculas e minúsculas tinham a ver com isto a ver com o texto ir em frente que naquele tempo era a necessidade mais profunda que eu tinha em relação ao texto. O que que dois pontos e ponto e vírgulas tinham a ver com isto o que que vírgulas tinham a ver com isto o que que pontos finais tinham a ver com isto.

O que que pontos finais tinham a ver com isto. Inevitavelmente não importa quão completamente eu tinha que forçar o texto p’ra frente, fisicamente eu teria que parar às vezes e se eu teria que parar de vez em quando então pontos finais tinham que existir. Alem do mais eu sempre gostei do visual dos pontos finais e do que eles faziam. Parar às vezes na realidade não previa ninguem de ir em frente, não era nada que interferisse, era apenas algo que acontecia, e como acontecia como um perfeito acontecimento natural, eu acreditei em pontos finais e os usei. Na verdade nunca parei de usa-los.

Pontos finais têm vida própria necessidade própria sensibilidade própria tempo próprio. E aquela sensibilidade aquela vida aquela necessidade aquele tempo pode se exprimir em uma infinita variedade que é a razão pela qual eu sempre permaneci fiel aos pontos finais tanto que recentemente senti que se poderia necessitá-los mais do que jamais se necessitou.

 

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