SIBILA 1
ANO 1 – 2001
Leia:
CONTRA AS ROTINAS
Entrevista com Marjorie Perloff
ALGUMAS PALAVRAS SOBRE AS VANGUARDAS
Romulo V. Salvino
ENTRE O NOVO MUNDO E O INFERNO
Odile Cisneros
A RECUSA DO PORTUGUÊS EM MIA COUTO
Tida de Carvalho
MORADAS PROVISÓRIAS: QUEM CONTA NA POESIA BRASILEIRA?
Luis Dolhnokoff
POR QUE AINDA CAETANO? – UMA AUDIÇÃO DE NOITES DO NORTE
Marcelo Sandmann
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CONTRA AS ROTINAS
Entrevista com Marjorie Perloff
A norte-americana, de origem austríaca, Marjorie Perloff está, seguramente, entre os melhores ensaístas vivos de literatura e artes do mundo. No Brasil, tem, por ora, apenas um de seus livros publicados: "O Momento Futurista" (Edusp, 1993). Não há, neste caso, como se discordar do juízo de Augusto de Campos, na apresentação da edição brasileira: "Três livros de ensaios publicados entre 1983 e 1986 – The Dance of the Intellect: Studies in Poetry in Poundian Tradition, The Poetics of Indeterminacy: from Rimbaud to Cage e este The Futurist Moment – justificam que se considere Perloff a maior revelação da crítica literária norte-americana das últimas décadas".
Perloff, que reside em Pacific Palisades, na grande Los Angeles, estudou no Barnard College, de Columbia, Nova Iorque, e na Catholic University of America, de Washington. Ano retrasado, aposentou-se como Sadie Derham Patek Professor of Humanaties, da Universidade de Stanford, Califórnia, onde lecionou por uma década.
Estreou em 1970, com um estudo a respeito do irlandês William Butler Yeats, para voltar-se intensamente – após ensaios acerca da vanguarda européia, de William Carlos Williams, Ezra Pound, Wallace Stevens, Frank O'Hara, Robert Lowell – às questões da produção contemporânea, a ponto de, por exemplo, tornar-se interlocutora do movimento "Language Poetry", desencadeado na década de 80, nos EUA. Entre seus mais recentes volumes estão: Poetic License: Studies in Modernist and postmodernist Lyric (1990), Radical Artifice: Writing poetry in the Age of Media e Wittgenstein's Ladder: Poetic Language and Strangness of the Ordinary (1996). Neste, estuda o universo de Ludwig Wittgenstein em relação à obra de Gertrude Stein, Samuel Beckett e Robert Creeley, entre outros. Seu último trabalho intitula-se Poetry on & off the page (1999).
O que distingue seu olhar do dos demais, além da incomparável força teórica, é a disposição em compreender a arte que se produz agora, com independência na avaliação crítica. Em 1998, disse-me, numa entrevista que fiz com ela para a revista Cult (Ano II, n.17), quando estávamos em Florianópolis:
Toda forma de afirmação artística tem algo de político. Acredito haver uma relação próxima entre arte e política, mas isso não significa que essa relação deva pautar a arte. O multiculturalismo produziu efeitos terríveis em nossa poesia. Se não se pode criticar um poeta afro-americano ou latino, tampouco se pode criticar um poeta branco, e isso elimina a possibilidade de um debate consistente. Além disso, o multiculturalismo exacerbou o "multinacionalismo norte-americano": ou seja, nos Estados Unidos o interesse pela poesia de outros países é muito reduzido. Não se falam outras línguas e o termo "poesia estrangeira" é algo dúbio. Espero corrigir isso de alguma maneira.
Eis então Marjorie Perloff, membro do Conselho Editorial de Sibila, nesta nova entrevista, feita em parceria com Odile Cisneros, agora em julho de 2001 (Régis Bonvicino).
SIBILA: Como você avalia a qualidade da crítica de poesia hoje? Há bos trabalhos?
MP: Na verdade, as resenhas têm, nos últimos tempos, melhorado. A revista "Verso", editada por Brian Henry, oferece resenhas detalhadas e surpreendentes. Também a "Boston Review". Todavia, a maior parte dos ensaios e livros a respeito de poesia é espantosamente acrítica. Eles são, no mais das vezes, explicativos, com "críticos" louvando ou atacando os autores, sem diálogo real ou debate. Parte da responsabilidade deste fenômeno atribuo à existência de um número demasiado de poetas, que não corresponde a demandas de qualquer tipo, nos dias de hoje.
SIBILA: O que pode dizer da crítica publicada nos jornais para os leitores em geral? Ela forma opinião?
MP: Nos EUA a imprensa não registra poesia. O "New York Times Book Review" publica ocasionalmente artigos sobre poesia. Na revista "Time", Philip Roth foi, recentemente nomeado como o "melhor romancista", com Julia Roberts, no mesmo contexto, sendo eleita "a melhor atriz". E, até numa lista deste tipo, não se apontaram poetas! O "The New York Times", aos sábados, tem seção intitulada "Arts and Opinion", onde apareceu um artigo sobre Julia Kristeva, agora em julho ou junho. Era um artigo tolo. Então, eu diria que o "leitor" de jornais sabe muito pouco sobre poesia e crítica. No entanto, há leitores de poesia espalhados pelos EUA, formados, por assim dizer, pelas cultura das pequenas revistas.
SIBILA: O que pensa a respeito dos Estudos Culturais como método? A poesia está além dos propósitos deles?
MP: Os Estudos Culturais poderiam ser (e às vezes são) algo de excelente. Todavia, a maior parte do que se produz, infelizmente, sob este rótulo, refere-se às "políticas da identidade"; assim, aprendemos que a poeta X tem valor porque "ela" é marginalizada pelos brancos. Os Estudos Culturais podem oferecer perspectivas importantes, especialmente para se compreender o passado da literatura. Mas no caso da literatura contemporânea, a questão é, a meu ver, o que conta culturalmente? O que é cultura? Quais são as "culturas"? Tais respostas quase nunca são dadas, com a aplicação deste método, e seus resultados são pobres.
SIBILA: Qual é, então, o seu "método"?
MP: Tento combinar, da melhor maneira possível, estudo histórico com formalismo (estilo russo e não New Cristicism). Penso que, com essa combinação, pode-se situar as poéticas de agora em relação às do passado e ver o que elas, as de agora sobretudo, respondem. Há que ter base teórica. O crítico deve, por outro lado, ser capaz de dar e prestar contas de suas predileções. Nada substitui a contento, creio, a análise cerrada de qualquer aspecto do poema, da forma do verso às convenções poéticas, das convenções ao gênero. Com freqüência, percebo-me sem saber o que penso a respeito desse ou daquele texto. Então volto a ele e o leio exaustivamente.
SIBILA: Você é acusada de defender os Language Poets. Concorda com esta acusação?
MP: Defendi sim a Language Poetry em 1984 num ensaio agora republicado em "The Dance of the Intellect". Naquele tempo, queria explicar a um público ignorante o que os Languages estavam tentando fazer. De uns anos para cá, todavia, creio que o termo "language poetry" não mais se aplica a nada e os poetas do grupo não precisam mais de defesa. E o movimento – como todos – dissolveu-se: alguns se firmaram, outros desapareceram. "Language Poetry" permanece como um termo "sujo", para a maior parte do cenário "mainstream" norte-americano, o que não é bom. No entanto, os próprios poetas perpetuaram esta situação, por serem totalmente acríticos, entre eles mesmos. Qualquer novo livro de X ou Y que seja/fosse "membro do clube" é/era saudado com estupefação e o autor solicitado para leituras… Neste sentido, os opositores dizem: se isto é "Language Poetry", não gosto dela.
SIBILA: A poesia escrita hoje é pior do que a crítica, que lhe é ou não feita?
MP: Não. Não creio porque, de fato, não há quase crítica. Existe boa poesia sendo feita. E ela surge, geralmente, de lugares de onde não se espera.
SIBILA: Num ensaio sobre Duchamp você disse que ser "avant-garde" significa reconfigurar o material do passado, de um modo original, para que as gerações mais novas cheguem a uma avaliação da cultura por meio deste corpo novo de trabalho. Como a definição parece retrospectiva, é possível falar-se de vanguarda hoje?
MP: Vanguardas não se movimentam em linhas retas. Sim, existe uma poesia de vanguarda hoje, mas não está sendo inventada pelos estudantes dos Language Poets ou pelos alunos dos cursos de escrita criativa das universidades… Discípulos nunca são bons poetas. Você pode verificar isto estudando o Imagismo ou, no caso brasileiro, o primeiro momento do Concretismo. A nova poesia só pode aflorar de afrontas aos precursores, ou de "desvios", para, com "desvios", usar expressão de Harold Bloom. Por primeiro momento do Concretismo, já que falo para brasileiros, entendo o movimento original (anos 50). As invenções de Augusto de Campos, de Haroldo de Campos, de Gomringer e de Pignatari. Elas foram muito mais importantes do que algumas das imitações feitas na geração seguinte, onde a poesia visual tornou-se mera rotina.
SIBILA: Quais os poetas que lhe interessam nos EUA?
MP: Aprecio a produção de alguns membros do primeiro momento da Language Poetry como Bruce Andrews, Ray Armantrout, Charles Bernstein, Clarck Coolidge, Lyn Hejinian e Susan Howe. Todavia, falando da geração seguinte, aprecio o trabalho dos "Ubu Boys and Girls", do Canadá e Nova Iork: Darren Wershler Henry, Christian Bok, Kenneth Goldsmith, Brian Kim Stefans, Karen Mac Cormack e Lisa Robertson. Gosto de independentes como Mary Jo Bang e Peter Gizzi. É uma cena muito ativa. Valorizo também certas antologias como "From the other side of the century", de Messerli, mas elas se tornaram tão comuns, banais e indiscriminadas… acho que no mundo todo.
SIBILA: Como vê o papel da internet e das novas tecnologias em relação à experimentação e à inovação?
MP: A internet faz diferença pela descentralização da divulgação, por exemplo, através de UbuWeb e Choach House Press Web, e pela busca de novos públicos. Todavia, tem aspectos horríveis, como a linguagem superficial, usada pelos grupos de "bate-papo", e o "vale-tudo" que promove, inclusive, no que toca à poesia. Este fenômeno equivale ao da expansão, no plano da palavra escrita, das pequenas editoras: qualquer um pode publicar um livro e se intitular poeta. A que demanda isso corresponde? Não há, no fundo, leitores exigindo mudanças. Em lugar do antigo lema, "publique ou pereça", prevalece hoje o "publique e pereça".
SIBILA: O que pensa de John Ashbery e Robert Creeley?
MP: Considero-os os dois maiores poetas de sua geração (hoje pessoas com mais de 70 anos). Mas o "culto" a Derek Walcott e Seamus Heaney me confunde totalmente… Walcott e Heaney são muito convencionais e não "fizeram o novo" ("made it new"). Não compreendo igualmente o "culto" a Jorie Graham. Sua poesia é maneirista, confessional, ritmicamente feia, extremamente pretensiosa…
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