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Sibila dedica este espaço a filmes, vídeos e gravações de leituras de poemas
e de textos em prosa.
II PARTE
A POESIA SONORA HOJE NO MUNDO
O MANIFESTO DA POLIPOESIA
Tentaremos, anos após sua primeira publicação (Valência, 1987) rediscutir aqui os pontos do Manifesto [32].
As motivações que nos levavam então a teorizar a performance da poesia sonora existem ainda hoje, intactas. Ninguém se havia preocupado – e hoje é a mesma coisa – de pôr alguma ordem nessa matéria que continua sendo praticada e difundida em encontros e festivais internacionais.
Infelizmente, apesar desse grande desenvolvimento, não se percebem novas gerações de poetas sonoros capazes de dar o seu testemunho, pois hoje parece que apenas a hiper-tecnologia mais arrojada e a violência contra o corpo, transfigurado através da manipulação genética, são as únicas pistas da pesquisa artística. Nossa hipótese baseava-se no pressuposto de que o performer de poesia sonora nem sempre tinha a consciência daquilo que estava praticando. E esta impressão permanece até hoje. Ter consciência, em poesia sonora, significa ter a capacidade de projetar e organizar em volta da voz, em volta do núcleo da experimentação sonora, uma série de intervenções que implicam outras mídias, sem por isso desbordar na performance da arte, no teatro experimental, na música concreta, ou cair na leitura de poesia. Precisava-se e precisa-se, em polipoesia, de um elevado teor de lucidez, uma presença consciente para orquestrar essa multiplicidade de intervenções.
1. “Apenas o desenvolvimento das novas tecnologias marcará o progresso da poesia sonora: as mídias eletrônicas e o computador são e serão os
verdadeiros protagonistas”.
Essa foi uma profecia fácil e bastante previsível. Enquanto para
a década de 1950 a real comercialização do gravador, pelo menos noâmbito do velho continente [33], fez com que se sentisse sua profunda influência na passagem da poesia fonética à poesia sonora, favorecendo uma transformação da típica abordagem letrista à dimensão mais espacial – eletromagnética – do som, a mesma coisa não pode ser dita depois da irrupção do computador na cena artística do fim
da década de 1980.
Os tempos de realização dos poemas encurtaram-se; é muito mais simples aplicar os efeitos, controlar as ondas sonoras. Mas o produto não sofreu mudanças bruscas seja do ponto de vista estrutural, seja do conteudístico.
Sentimos que o previsto e avassalador boom informático do fim do século não tenha provocado uma vaga correspondente de nova poesia sonora. Quem sempre usou a tecnologia a serviço do poema
continua usando-a de maneira mais sofisticada, veja-se Larry Wendt, Charles Amirkhanian, Sten Hanson. Neste contexto poder-se-ia citar de novo a extrema coerência tecnológica de um Henri Chopin que, há pelo menos trinta anos, vem repropondo seus estilemas rarefeitos nos
limites extremos do rumorismo fonético. Outros poetas que antes não ousavam entrar nos estúdios de gravação hiper-eletrônicos, criaram coragem agora e deram de apertar o mouse para clicar a seleção da própria voz visualizada no vídeo.
Dando como estabelecido o aporte fundamental da tecnologia à causa da poesia sonora, estamos convencidos que essa é a arma ganhadora em nome da qual o poeta sonoro tem o dever absoluto
não apenas de não se deixar encontrar despreparado diante da rápida evolução tecnológica, mas também de experimentar o novo meio em função do poema; de conceber a sua criação em função da sugestão tecnológica e de seu novo aporte. Se tivéssemos que indicar um risco nesse irreversível processo de informatização que paira sobre nós e está em plena atuação não apenas na poesia, mas na inteira sociedade, aconselharíamos não ficar submisso aos softwares que outros inventaram e aperfeiçoaram.
Aconselharíamos evitar por todos os meios aquele clima de liberdade vigiada onde aparentemente podemos fazer tudo, mas na realidade nada fazemos, ou melhor, fazemos aquilo que os outros
nos permitem fazer.
Eis porque apreciamos aqueles poetas pesquisadores que criam ex novo seus softwares: Tibor Papp, Jacques Donguy, Eduardo Kac, Fabio Doctorovitch, ou aqueles que dobram as asperezas de um programa à sua vontade, aproveitando-o de modo original como fazem Mark Sutherland, Philadelpho Menezes, Takei Yoshimichi.
Finalmente, deve ser dita uma palavra quanto às vias virtuais da rede que, em nossa opinião, – e isso já foi escrito – ainda não são desfrutáveis num alto nível criativo para produzir poesia sonora. A Internet parece ser um sistema mais para difundir do que para criar. A nossa é uma tomada de posição a partir do interior, na medida em que somos um pouco otaku, pelo menos no sentido cyber da palavra [34].Encarniçados web-surfers e web-users, construímos e instalamos, entre os primeiros, o amplo site Archivio 3Vtre di Polipoesia [35], que no espaço de três anos (1997-2000) foi visitado mais de seis mil vezes. Nada se comparado aos poderosos sites comerciais, considerando-se, porém, o fato de que estamos difundindo e também defendendo um obscuro objeto, a nossa contínua visibilidade no circuito nos anima
e fortalece.
É urgente essa existência virtual, ou melhor, nós só existimos se existirmos na rede [36].
O mundo tornou-se pequeno de repente, ou quem sabe se alargou desmedidamente, até o ponto em que não conseguimos mais distinguir o que é real do que é virtual, e vice-versa. De fato, o local, que era nossa dimensão-base da cotidianidade, tornou-se de repente global, graças ao know-how tecnológico e a esse novo estado glocal que nos fascina, nos atrai inevitavelmente, nos deixa sem fôlego.
2. “O objeto ‘língua’ deve cada vez mais ser indagado em seus mínimos e máximos segmentos: a palavra, elemento base da comunicação sonora, assume os traços de multipalavra, penetrada em seu interior e recosturada no seu exterior. A palavra deve poder libertar suas sonoridades
polivalentes”.
Enfrentemos a velha questão do termo poesia, já proposta e – esperamos – definitivamente resolvida. Uma vez que o material básico é a língua, movemo-nos sempre aqui, por convenção, dentro da definição de poesia sonora. Não haveria nenhuma surpresa se o termo poesia
fosse fadado a desaparecer mesmo que – insistimos aqui – fosse uma pena se desaparecesse, devido à imediata conotação que ele implica (com certa ambigüidade, talvez, e alguma falsa expectativa, devido à difusão consolidada do termo). Abandonar-se, porém, ao mare magnum das artes significa gozar das vantagens indubitáveis de reconhecimento que a definição de arte comporta, em prejuízo de um
nítido rebaixamento do limiar de identidade setorial, a especificidade de ser poeta, para sermos exatos.
Sabemos que nossa missão deve ser realizada, sempre e de qualquer maneira, na linguagem transmitida pela voz, que tem a dupla acepção oral e vocal. Neste binômio é que se concentra toda a pesquisa da poesia sonora.
Um dialogismo que arrasta consigo outros enquanto significadosignificante, ou seja, a oralidade está para o significado assim como a vocalidade está para o significante. E ainda outra proporção: a oralidade está para a cadeia morfossintática assim como a vocalidade está para o rumorismo fonético.
Os traços da multipalavra adquirem valências fundamentais; pelo menos no nível estrutural tem-se uma verificação direta daquela genial intuição que foi a palavra-valise (portmanteau) introduzida na segunda metade do século XIX por Lewis Carroll e sucessivamente elaborada e empurrada até seus limites extremos de atuação pelo experimentalismo joyceano. Ambas as pistas, porém, ficavam confinadas ao leito da página escrita, enquanto o que torna logo reconhecível a multipalavra é sua explosão em chave vocoral, seu emprego na viva voz.
Por exemplo, depois das grandes estações do rumorismo da década de 1980, onde a linguagem era eviscerada vocalmente, chegou-se, no começo dos anos 1990, à recuperação da integralidade da palavra.Uma palavra vocoral capaz de liberar ainda aquela energia polivalente, reprimida no nível da escritura; energia que sai tanto sob a forma de fonema, principalmente através das técnicas da permutação ou do reducionismo, quanto sob a forma de seqüência assintática de palavras, mesmo que tratadas segundo sua dimensão tradicional.
(continua na edição impressa…)
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