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POEMS by Brazilian poet Mario Faustino

 

From The Anthology LIES ABOUT THE TRUTH, 2000, Edited by Régis Bonvicino

Life all language

Life all language 
always perfect phrase, maybe verse, 
generally without any adjective 
column without ornament, generally divided. 
Life all language, 
meanwhile a verb, always a verb, and a name 
here, there, assuring the eternal 
perfection of the period, maybe verse, 
maybe interjectional, verse, verse. 
Life all language, 
fetus sucking in compassionate language 
the blood that child will scatter – oh active metaphor! 
milk spurt in adolescent fountain, 
semen of mature men, verb, verb. 
Life all language 
how well it knows the old who repeat, 
against black windows, scintillating images 
which star them turbulent trajectories. 
Life all language — 
as we all know 
to conjugate these verbs, to name  
these names: 
to love, to make, to destroy 
man, woman, and beast, devil and angel 
and god maybe, and nothing. 
Life all language,  
life always perfect, 
imperfect only the dead words 
with which a young man, in the terraces of winter, against the rain, 
tries to make it eternal, as if he lacked 
some other, immortal syntax 
to life which is perfect 
eternal 
language.

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

 


Vida toda linguagem

Vida toda linguagem, 
frase perfeita sempre, talvez verso, 
geralmente sem qualquer adjetivo, 
coluna sem ornamento, geralmente partida. 
Vida toda linguagem, 
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome 
aqui, ali, assegurando a perfeição 
eterna do período, talvez verso, 
talvez interjetivo, verso, verso. 
Vida toda linguagem, 
feto sugando em língua compassiva 
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa! 
leite jorrado em fonte adolescente, 
sêmen de homens maduros, verbo, verbo. 
Vida toda linguagem, 
bem o conhecem velhos que repetem, 
contra negras janelas, cintilantes images/stories 
que lhes estrelam turvas trajetórias. 
Vida toda linguagem – 
como todos sabemos 
conjugar esses verbos, nomear 
esses nomes: 
amar, fazer, destruir, 
homem, mulher e besta, diabo e anjo 
e deus talvez, e nada. 
Vida toda linguagem, 
vida sempre perfeita, 
imperfeitos somente os vocábulos mortos 
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, contra a chuva, 
tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse 
outra, imortal sintaxe 
à vida que é perfeita 
língua 
eterna.

(Poesia de Mário Faustino, 1966)



Sinto que o mês presente me assassina

Sinto que o mês presente me assassina, 
As aves atuais nasceram mudas 
E o tempo na verdade tem domínio 
Sobre homens nus ao sul de luas curvas. 
Sinto que o mês presente me assassina, 
Corro despido atrás de um cristo preso, 
Cavalheiro gentil que me abomina 
E atrai-me ao despudor da luz esquerda 
Ao beco de agonia onde me espreita 
A morte espacial que me ilumina. 
Sinto que o mês presente me assassina 
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas 
De apóstolos marujos que me arrastam 
Ao longo da corrente onde blásfemas 
Gaivotas provam peixes de milagre. 
Sinto que o mês presente me assassina, 
Há luto nas rosáceas desta aurora, 
Há sinos de ironia em cada hora 
(Na libra escorpiões pesam-me a sina) 
Há panos de imprimir a dura face 
À força de suor, de sangue e chaga. 
Sinto que o mês presente me assassina, 
Os derradeiros astros nascem tortos 
E o tempo na verdade tem domínio 
Sobre o morto que enterra os próprios mortos. 
O tempo na verdade tem domínio, 
Âmen, âmen vos digo, tem domínio 
E ri do que desfere verbos, dardos 
De falso eterno que retornam para 
Assassinar-nos num mês assassino.

(O Homem e sua Hora, 1955)

 

Marginal poema 15

Item: 
as estações 
o que delas nos deixa capricórnio 
rios cercando a folha 
a nuca, a testa oblíqua sobre a folha 
rios formam baía 
rios param;

pinho, pasta, papel: creme de luz, luz creme 
e tinta e noite e letra 
o vácuo 
é luminoso e flui 
(é vago) 
o negro é quem ocorre 
e existe (exato) 
obscuro

e obscuro igual a vago; 
e da mesma maneira:

“deleitoso este livro neste inverno”; 
neste, inverno, que mais 
é primavera mais outono ou menos 
o que em tudo persiste de verão 
de luz sobre as baías: de ar molhado 
sem peixes, com gramados 
e automóveis fluindo 
e da mesma maneira:

“onde estou eu?” 
ela pergunta (no filme) 
e dessa mesma 
maneira as estações; 
ou o que nos deixa o bode com seus cornos 
em riste arremessando contra a própria 
folha final (impressa) 
corroída de espaço 
e tempo 
(“encontro-te em tal rua, às tantas horas”) 
e da mesma maneira:

– a moça atleta deixa 
cair mangas douradas em seu curso; 
– as praias afinal completaram seu cerco 
do maroceano, 
jornais enrolam périplos, viagens 
detidas nas manchetes –

em torno de seu fel o cálice endurece;  
– este passando fome; 
– aquele injustiçado; 
– esta prostituída; 
– aquela analfabeta 
– estes desempregados, aquelas 
aquelas abortando 
nós, vós, eles 
ameaçados, engambelados –

e as pálpebras se fixam: nas palmeiras, 
cocos de sal vergando cílios duros: 
o relógio, a baía, mastros, números 
e da mesma maneira: 
a folha mais a folha mais a folha 
(papel, papel impresso) 
parada de estações 
retângulo de ser 
e estar 
item de preto igual a sono escuro

a tormenta soprava leste-oeste; 
ou de ontem para hoje? 
ou do norte para 
amanhã? 
ou do sul para sempre?

Ou do sul para sempre; 
e da mesma maneira o dia: creme 
salpicado de noite e nome: 
aqui.

(Poesia de Mário Faustino, 1966)