CATARINA COSTA
Tragi-Historieta
Embora sendo história de género clássico, só uns quantos a relatam. Seus aspectos mais banais impedem que se torne lenda na aldeia e nos círculos cinéfilos, onde os personagens se narram sob o signo de uma eloquência programática. E nos livros requere-se densidade. Ora, a história configura-se nesta época em modo de reportagem inacabada, assenta na mundaneidade que constitui nosso fardo. Simultaneamente, remonta ao tempo em que era preciso subir a encosta. (…) Dele perdeu-se o rasto, dela sabemos que pereceu com várias estocadas. Subiam juntos a encosta, a fadiga dissolvendo-se pela marcação do passo. Uma subtileza não assimilada, reduzida ao fio periclitante, entranhava-se neles sem alcançar o subentendimento de como avança a terra. Previam só intimamente a obstrução. À primeira estocada fechou-se o horizonte até ao jugo da matéria. A encosta de frente. A irrelevante batalha de a subir, ter recompensa, ser punido. À terceira estocada, já não contou a agudeza do fio nem a gravidade premonitória. Em vão o vago e o exacto.
(depois das aulas)
Ela olhava-nos e insistia já não durmo há um ano, deixei de dormir desde que (...). Não acreditámos. Nessa altura a realidade começava a tornar-se a evidência antes da jogada. Uma prova infame já costumeira. Descobríamos que as funções vitais não se reinventam e que a insónia não poderia ser demasiado longa. Com certeza ela dormia tão pouco desde há tanto tempo que achava estar em vigília permanente. Não sentimos pena nem alcançámos compaixão. Só desconfiança, desentendimento por aquela que persistia em relatar-nos a perda das capacidades essenciais. Pressentíamos essa pobreza, essa falta de classe e de rigor de quem atemoriza em desabafos. De quem augura desafiando leis que basta aprender com alguma boa vontade. Mentirosa, pensei. Demasiado tarde ou demasiado cedo para que pudesse acreditar em noites infindas. Sabia do impraticável. Não levei em conta que também ela teria sua consciência do impossível.


