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Home Hotel Kafka

O vira da Bacorinha

A história da bacorinha que, certa feita, atracou-se a um português

 

Desmaiados cabelos, papadinha,

Jeito carioca, esperta e malandrinha,

Postulava talentos que não tinha

E não tomava banho, a bacorinha!

 

Certa feita atracou-se a um português

Inda zonzo do voo, no aeroporto,

Arrastou-o, deixou-o quase morto:

Quis fazê-lo da xota ser freguês.

 

De bafo de onça,

Barriga de vaca,

Olhinhos ceguetas,

Nariz de bugio,

De dente amarelo,

De bunda em coador,

Cercou no check-out,

Levou pro barzinho,

Beijou na calçada,

Buliu no portão,

Despiu junto à cama

Da suja pensão.

 

Ao portuga, porém, a fedentina

Despertou do torpor – e ele berrou:

“Ó mulher, toma um duche ou lhe não dou

Motivo pra alegrar essa sentina!”

 

Mas ela revidou, doida e fogosa:

“Banho não tomo! Bicha almofadinha!

Nem jamais lavarei a gaforinha!

É o odor natural que a faz gostosa!”

 

Sentindo já nas fuças o perigo,

Foge o portuga, fechando o cuecão,

Em grande carreira, como um cabrão,

Gritando, com o cinto sobre o umbigo:

“Ai ondas, ai ondas, do mar de Vigo!”

 

Voa na escada,

Destrambelhado,

Nem se segura

No corrimão.

Entra num táxi,

Desarvorado,

Corre ao aeroporto,

Compra a passagem.

Sempre lembrando

Da gaforinha

Foge de volta

Para a terrinha.

 

Que dó do coitado,

Como saiu mal!

Mas algo aprendeu levando o quinau:

“No Brasil, enfrentar um bacalhau

É mais arriscado

Do que em Portugal!”

 

Por fim, consolado,

A si mesmo diz:

“Melhor, em Lisboa,

Chuçar com a broa

No velho ensopado!

Cada pé só vai bem com seu sapato!

A quem o tem lhe dói o carrapato!

O que eu mais prezo em mim é o meu nariz!”