O vira da Bacorinha
A história da bacorinha que, certa feita, atracou-se a um português
Desmaiados cabelos, papadinha,
Jeito carioca, esperta e malandrinha,
Postulava talentos que não tinha
E não tomava banho, a bacorinha!
Certa feita atracou-se a um português
Inda zonzo do voo, no aeroporto,
Arrastou-o, deixou-o quase morto:
Quis fazê-lo da xota ser freguês.
De bafo de onça,
Barriga de vaca,
Olhinhos ceguetas,
Nariz de bugio,
De dente amarelo,
De bunda em coador,
Cercou no check-out,
Levou pro barzinho,
Beijou na calçada,
Buliu no portão,
Despiu junto à cama
Da suja pensão.
Ao portuga, porém, a fedentina
Despertou do torpor – e ele berrou:
“Ó mulher, toma um duche ou lhe não dou
Motivo pra alegrar essa sentina!”
Mas ela revidou, doida e fogosa:
“Banho não tomo! Bicha almofadinha!
Nem jamais lavarei a gaforinha!
É o odor natural que a faz gostosa!”
Sentindo já nas fuças o perigo,
Foge o portuga, fechando o cuecão,
Em grande carreira, como um cabrão,
Gritando, com o cinto sobre o umbigo:
“Ai ondas, ai ondas, do mar de Vigo!”
Voa na escada,
Destrambelhado,
Nem se segura
No corrimão.
Entra num táxi,
Desarvorado,
Corre ao aeroporto,
Compra a passagem.
Sempre lembrando
Da gaforinha
Foge de volta
Para a terrinha.
Que dó do coitado,
Como saiu mal!
Mas algo aprendeu levando o quinau:
“No Brasil, enfrentar um bacalhau
É mais arriscado
Do que em Portugal!”
Por fim, consolado,
A si mesmo diz:
“Melhor, em Lisboa,
Chuçar com a broa
No velho ensopado!
Cada pé só vai bem com seu sapato!
A quem o tem lhe dói o carrapato!
O que eu mais prezo em mim é o meu nariz!”


