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Um minuto de futebol e linguagem com Juca Kfouri

Ronald Augusto: Juca, o futebol é uma forma de arte? Não me refiro aqui ao lugar-comum controverso do “futebol-arte”. A pergunta pode parecer um tanto estapafúrdia, mas se observarmos o panorama da arte contemporânea, chegaremos à conclusão de que esta é uma ilusão possível. No belo filme Nós que aqui estamos por vós esperamos, de Marcelo Masagão, há uma sequência onde Fred Astaire e Garrincha parecem dançar ao som de uma mesma melodia.

Juca Kfouri: Nenhuma dúvida. Se Pelé, se Mané, se Diego, não são artistas, o que é um artista?

RA: Por que Garrincha é “o” mito e Pelé o mito, sem aspas?

JK: Porque Garrincha fazia rir e Pelé deixava as pessoas perplexas. Um é Chaplin, o outro é Spielberg.

RA: A mpb moderna e contemporânea, num certo sentido, é uma invenção da televisão. Um amigo meu, temeroso da violência nos estádios, disse que o Pay Per View é a solução, que ele consegue ver tudo em detalhes, e que ele “se sente dentro do estádio”. Mas a televisão, na presunção realista de arremessar a partida de futebol no meio da sala do caro telespectador, acaba por cortá-la em mil fragmentos que jamais se unirão. O futebol também é uma invenção da televisão ou esta está mais para o seu túmulo?

JK: O torcedor do sofá jamais sentirá a emoção que se sente no estádio. A tendência do estádio virar estúdio tem, é claro, a ver com as dificuldades da vida moderna nos grandes centros urbanos e com a violência. Mas futebol no estádio é outra coisa.

RA: Como você avalia expressões que tratam os jogadores por “peças de reposição”? Como avalia a narrativa dos jogos pela tv e pelo rádio? Não lhe parece que Osmar Santos e outros mais antigos (Fiori Gigliotti – “fecham-se as cortinas e se encerra o espetáculo”) eram mais inovadores do que os atuais narradores, inclusive de tv? Qual a relação entre a narração e o objeto narrado?

JK: Hoje em dia tudo é menos poético, mais pão, pão, queijo, queijo. O futebol é fenômeno central da indústria do entretenimento, o jogador virou pop star, o realismo ganhou do romantismo.

RA: As pessoas ligadas ao teatro dizem que uma apresentação teatral não cabe no vídeo, que perde quando é televisionada, que é uma cerimônia ritual, que cada espetáculo nunca se repete etc. Uma partida de futebol é também uma representação, uma encenação, um evento contínuo. Um rio que passa em nossas vidas. Como no teatro, no futebol também estão em causa o ensaio e o improviso. Mas por que só em relação ao futebol não é possível pensá-lo fora da linguagem televisiva?

JK: Possível pensá-lo é, perfeitamente. Não é possível mantê-lo sem televisão, porque custa muito e ela paga a maior parte.

RA: Quando vou ao estádio torcer pelo Internacional, constato o relativo silêncio dentro das quatro linhas, claro que ao redor há a algazarra das torcidas, tem a batucada etc. Mas em comparação, com a riqueza de sons captados e ofertados pelos equipamentos de transmissão, quer das rádios ou das televisões, quando estamos ali na arquibancada, e a certa distância, tudo em campo parece mais quieto e íntimo. No entanto, o rádio de pilha é uma extensão do torcedor insano que comparece nos estádios. Não é mais possível fruir o futebol sem essas mediações?

JK: Eu jamais entenderei quem leva rádio ao estádio. O cara precisa que alguém conte para ele o que ele está vendo. É um mistério.

RA: Há crítica de futebol hoje? Quem a faz? Crítica enquanto interpretação analítica.

JK: Para ficar num só exemplo, acho que Tostão faz.

RA: Plantel é coletivo de animais, no Brasil, num português mais gramatical. Por que a expressão é usada para designar elenco de jogadores? A ideia de plantel expressa a de submissão, de pastoreio, de controle. A de elenco, espetáculo. Neste sentido, com qual ficaria?

JK: Embora o plantel já esteja tão consagrado como bicampeonato, tri, tetra, sem serem consecutivos, fico com elenco.

RA: Você prefere “goleador” a “artilheiro” (expressão bélica) ou “matador” (idem)? Ou vice-versa?

JK: Goleador, sempre. Acho que a linguagem bélica tem sua parcela de culpa na violência das torcidas.

RA: Por que a mídia esportiva se autodesigna “crônica”. “Crônica” é, em literatura, um gênero aberto e menor, e remete à polícia. “Crônica” soa como crônica, coisa ou pessoa paralisada, estagnada.  Por que não se definir como “crítica” ou “reportagem”?

JK: Esta é uma bobagem tão grande que as associações de jornalistas esportivos pelo país afora são chamadas de associação de cronistas. E não há nenhum cronista nelas…

RA: O futebol é expressão da cultura popular brasileira. Se isso é verdade, só mesmo a tradição oral, o anedotário dos boleiros, o gol mítico que perdura no boca-a-boca etc, dariam conta de representá-lo satisfatoriamente?

JK: Satisfatoriamente, não plenamente…

RA: O poeta William Carlos Williams (1883-1963) no poema “No jogo de beisebol”, escreve: “No jogo de beisebol a multidão/ é identicamente animada// por um espírito de inutilidade/ que a delicia — // todo detalhe emocionante/ da perseguição// e da evasão, o erro// o lampejo de gênio —// tudo sem outro fim que não a beleza/ o eterno […]”. Juca, isso é papo de poeta, mesmo? No futebol-commodity é besteira falar em “beleza” ou no “eterno”?

JK: Eis aí o segredo. A dialética da poesia. No dia em que a beleza e o eterno desaparecerem do futebol, por mais coisificado que ele esteja, o futebol também desaparecerá. E é por isso que o futebol é eterno, porque sempre haverá beleza nele.

RA: O que representa para você Nelson Rodrigues?

JK: Um gênio revolucionário nas artes e detestável reacionário na política, castigado por ver o próprio filho torturado por quem ele apoiou. Nada, aliás, mais rodriguiano.

RA: A propósito, que obras literárias brasileiras você poderia citar que de alguma maneira representam o futebol de modo inventivo? Acho que são tão poucas, que eu me contentaria com trechos, passagens. Estudos, reportagens, biografias e congêneres não valem.

JK: Então pegue O gol é necessário de Paulo Mendes Campos (Civilização Brasileira), vá à página 49 e leia “Vai da valsa”. Ou melhor: reproduza para seus leitores.


VAI DA VALSA

Versos ingênuos, mas sinceros, que um jogador envia, por nosso intermédio, aos dirigentes de futebol que obrigam os profissionais a disputar as partidas mais sérias do campeonato num calor selvagem.

Domingo,

no jogo,

que cansa,

na dança,

do fogo,

ficaste

de longe,

bebendo

gelado,

sorvendo

sorvete,

jogado

no tapete

moderno,

defronte

a tele

visão;

mas eu

no inferno,

na chama

da grama,

o craque,

basbaque,

driblava,

suava,

corria,

sofria,

mais que

uma cão.

 

Quem dera

que sintas

as dores,

calores

que nunca

sentiste!

Quem dera

que sintas!

Não negues,

não mintas…

­– Fugiste!

 

Te digo

que luto,

que chuto,

que passo,

que faço,

que esbaldo

me esqueço

me escaldo;

te digo

que brigo

sem brisa,

sem bicho,

disputo

capricho

só por

amor;

mas queres

que finto,

requebre,

requinte,

me bata,

rebata,

que marque,

que volte,

que corte,

que chute,

dispute

com este

calor!?

 

Quem dera

que sintas

as dores,

calores,

que nunca

sentiste.

Quem dera

que sintas!

Não negues,

não mintas

– Fugiste!

 

Queria,

cartola,

te ver

sem tevê,

na chama,

na grama,

batendo

na bola,

correndo,

gemendo,

suando,

gritando,

de espanto

com tanto

calor!

Um só

minuto

que fosse,

se tanto,

queria

te ver!

Ah pobre

cartola,

rebola

no fogo

do jogo

da bola!

Eu juro

que logo

suado,

cansado,

gritavas

por tua

mamã:

quem dera

que jogues

fumando

charuto

só esse

minuto

no Maracanã!

 


Juca Kfouri é formado em ciências sociais pela usp. Foi diretor das revistas Placar (1979-1995) e Playboy (1991-1994), colunista de O Globo (1989-1991), da Folha de S. Paulo (1995-1999) e do Lance! (1999-2005), retornando em 2005 para a Folha.

Foi comentarista esportivo do SBT (1984-1987) e da Rede Globo (1988-1994). Apresentou o programa de entrevistas Juca Kfouri ao Vivo, na rede CNT (1996-1999). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura (1995-2000). Foi apresentador do Bola na Rede, na RedeTV (2000-2002). Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005.

Recentemente foi contratado pela ESPN-Brasil para participar do programa Linha de Passe. É apresentador, desde 2000, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio.