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Censorship in Brazil: A CALCINHA DA GISELE E O DESPUDOR DO GOVERNO FEDERAL


O governo federal, através da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), que foi criada no governo Lula, tem status de ministério e é comandada pela ministra Iriny Lopes, acaba de se destacar no noticiário nacional, talvez pela primeira vez em sua curta e até onde se sabe pouco relevante história, por um ato de censura. Não chega a ser surpreendente que o governo, desde de 2003, desejoso de implantar o “controle social da mídia”, tente praticar ou pratique a censura, como neste caso. Não chega a surpreender, mas basta para ofender. Ofender a cidadania, que deve ser defendida inclusive e principalmente do Estado. A liberdade de expressão é um dos principais direitos e um das maiores garantias dessa mesma cidadania. Portanto, praticar a censura é, como dito, ofender a cidadania – ato pelo qual um governo deveria ser judicialmente acionado.

A ironia, neste caso, é que a censura recém-perpetrada pela Secretaria de Políticas para as Mulheres o foi em nome de proteger de uma ofensa parte importante da cidadania. O absurdo burocrático-kafkiano então se manifesta, pois se trata, para começar, de defender um gênero, as mulheres. Mas defender tal gênero, que no limite é uma abstração, não de qualquer crime que tenha, por exemplo, um perfil estatístico de gênero, ou coisa do gênero, mas de uma peça de publicidade de lingerie. A alegação da Secretaria de Políticas para as Mulheres foi a de ter recebido “reclamações de indignação” a respeito da tal peça (de publicidade, não de roupa). Ato contínuo, o órgão (do Estado, não da modelo) saiu a campo para “enviar ofícios ao Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar), pedindo a suspensão da propaganda, e também à empresa, manifestando seu repúdio à campanha” (cf. Marili Ribeiro, “Deixem a Gisele Bündchen em paz!”, http://blogs.estadao.com.br/marili-ribeiro/deixem-a-gisele-bundchen-em-paz/). Portanto, basta algumas “reclamações” e outras tantas “indignações” para um órgão da administração federal cometer o despudor obsceno de rasgar em público a Constituição Federal, e se lançar rápida e gozosamente em um ato de afronta explícita à liberdade de expressão, em nome de uma visão -- autoritária -- do politicamente-correto, que é já autoritário por si mesmo. O que, em todo caso, com certeza se sabe, é que burocratas e indignados da pequena moralidade púbica (sic) não têm senso de humor.

Além da infâmia de o Estado se entregar com prontidão e facilidade a um gesto obsceno de censura explícita, soma-se a este caso o ridículo, pois se trata de levar a sério, em todos os sentidos, peças pautadas pelo humor. E o humor, as pessoas cerebradas bem o sabem desde os primeiros filósofos gregos, é uma linguagem cuja recepção é diferente da linguagem habitual. A burrice, no entanto, não é defesa para a obscenidade de um gesto de censura.

As ditas peças de propaganda se baseiam na ideia de vender peças de lingerie a partir de um tripé. Esse tripé é constituído  pelas duas longas e belas pernas de Gisele Bündchen e pela situação cômico-absurda em torno do qual giram as ditas peças (de propaganda e de lingerie). Em suma, a campanha explora situações-clichê, em que a mulher tem de dar ao marido notícias desagradáveis, do tipo “bati seu carro”, “estourei o cartão” e “mamãe vem nos visitar”. Numa concepção no limite singela, pelo simplismo da situação humorística, as peças adotam o conhecido expediente de levar ao pé da letra possibilidades comumente imaginadas (não por caso, em anedotas e piadas) e jamais realizadas. Neste caso, trata-se de dar tais notícias, não em roupas habituais, sequer em roupas quaisquer, mas vestida apenas de calcinha e sutiã. De preferência da marca em questão. Pois assim a sedução da mensageira anularia o incômodo da mensagem. As indignadas de plantão e a secretaria em questão julgaram (e condenaram) tal campanha como sendo machista, degradante com o gênero feminino, estimulante de situação vexatória para a mulher ou coisa que o valha. Mas a verdade é que, para ser de fato eficiente, a situação retratada deve ser reproduzida fielmente. Assim, além de lingerie de tal marca, deve-se também contar com um corpo igual ou semelhante ao de Gisele. Pois a situação, por definição, não funcionaria se o corpo assim exposto fosse ainda mais visualmente incômodo do que a notícia assim dada.

Gisele Bündchen tem um corpo fenomenal, para cunhar uma frase, e uma voz irritantemente infantil e desafinada, traindo imaturidade, pequeneza intelectual e histeria. Nas peças em questão, tanto o corpo fenomenal quanto a voz disfuncional são igualmente expostas e utilizadas. O corpão, em contraste com a vozinha, a evidencia, o que em tal contexto serve somente para marcar o viés não-sério de tudo isso.

O que há então de sério em todo o episódio é somente a estupidez burocrática que leva a sério o que não pode sê-lo, aliada à perigosa avidez do governo em censurar, não importa em nome de qual boa intenção politicamente correta seja. Nada mais perigoso do que as boas intenções do Estado. O Estado deve cumprir suas funções legais com eficiência e correição, e nada mais. Entre essas funções, está a de garantir e proteger a liberdade de expressão, e não a de cerceá-la. Mesmo porque, um governo que tem um enorme sistema de esgoto a céu aberto de corrupção poluindo todo o país, cujas comportas são comandas alegremente por ratos bigodudos naturais do sertão, e é, portanto, responsável por grande parte da feiúra nacional, deveria deixar as Giseles, suas calcinhas e seus sutiãs completamente em paz. E inteiramente à vontade. Pois ao fim e ao cabo, trata-se de tentar controlar a vida privada dos cidadãos, decidindo o que eles podem ver ou não (mesmo porque, o próprio CONAR nada teve a declarar contra as ditas peças), enquanto se faz do país uma imensa latrina que exibe seus dejetos despudoradamente.

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