O QUE SIGNIFICA, AFINAL, SER JUDEU?
1. Mais um livro gobbelsiano
O ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, é o famoso e infame autor da máxima segundo a qual uma mentira, se repetida suficientemente, torna-se uma “verdade”. As aspas são importantes, pois se trata de cinismo fascista. Mas não só fascista: há muito tempo a esquerda é, como regra geral, adepta de tal prática, tendo sido seu mais notório praticante outro Joseph, o Stálin. A esquerda, igualmente como regra, crê-se a detentora de duas grandes verdades: a da história e a da justiça. O que é apenas propaganda ideológica, naturalmente: no limite, mito e mentira. Prova maior disso é o próprio stalinismo. Mas a esquerda, stalinistamente, não se intimida em editar o próprio passado, e passando ao largo de todas as infâmias históricas pelas quais é responsável, continua, em pleno século XXI, a se crer a detentora da verdade da história e da verdadeira justiça.
Após sua derrota histórica no fim da Guerra Fria, e depois da pulverização da URSS, a grande obra falida de Lênin e Stálin, a esquerda mergulha em sua grande confusão contemporânea, pondo a cabeça de fora da maré avassaladora do presente apenas para fazer episódicos vaticínios cegos de ideologia e oportunismo ideológico. Entre equivocados apoios a episódios infames como a retrovolução teocrática iraniana e equivocadas reiterações anuais, como um profeta do fim de mundo de esquina, sobre o fim dos EUA e do capitalismo, um de seus temas restantes é a questão palestina (trata-se de uma solidariedade seletiva e eletiva, e no limite, falsa: o povo curdo, os timorenses do leste durante o quarto de século sob ocupação indonésia, os chechenos hoje destruídos pela Rússia, a população de Darfur devastada pelo governo do Sudão etc., jamais receberam qualquer atenção da esquerda, apesar de mais um de seus mitos preferenciais, o de ser a grande solidária das gentes). Por conta (e risco) disso, surge episodicamente um artigo ou livro anti-israelense, como parte de uma campanha internacional para deslegitimar o estado de Israel, com vistas a cumprir o objetivo histórico das lideranças árabes desde que a ONU, em 1947, determinou em sua Resolução 181 a criação “de dois Estados, um judeu e um árabe”. O Estado árabe não foi então criado porque os árabes se recusaram a criar um Estado que não fosse a Grande Palestina (preferindo, portanto, tentar destruir o recém-criado estado de Israel em vez de declarar e construir seu próprio Estado conforme determinado pela ONU). O resto é história. E propaganda.
A mais recente peça de propaganda anti-israelense de origem ideológica é o recém lançado A invenção do povo judeu, de Shlomo Sand (São Paulo, Benvirá, 2011). Não perderei meu tempo ou o do leitor fazendo uma análise do livro. A Folha de S. Paulo de 27/08/2011 traz as informações suficientes. Sobre o autor:
Filho de judeus, nascido num campo de refugiados na Áustria, o autor lutou do lado israelense contra os árabes na Guerra dos Seis Dias, em 67, quando o país ocupou Cisjordânia e faixa de Gaza. Em seguida, virou militante de extrema esquerda (Fábio Victor, “Em campo minado”, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2708201109.htm).
O fato de ser um militante compromete, naturalmente, o fato de ser um historiador. Seu livro, portanto, pode ser assim resumido:
Como obra acadêmica, o livro de Sand soa panfletário. Mas, como panfleto, é acadêmico demais (Ariel Finguerman, “Obra é panfleto acadêmico com proposta radical”, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2708201111.htm).
Panfleto acadêmico ou trabalho acadêmico panfletário, o fato é que não está a serviço da pesquisa histórica, mas da propaganda política.
Somente nas últimas das quase 600 páginas de seu livro Sand revela o motivo de seu esforço intelectual: dar base acadêmica para a ideia de um Estado binacional israelense-palestino, que substituiria o Estado de Israel. É uma proposta radical, que não é exigida nem pela Autoridade Palestina nem pela Liga Árabe (idem).
Ser radical não é ruim em si. O problema, aqui, é que essa velha ideia é politicamente mentirosa, pois politicamente irrealizável. Ninguém, em sã consciência, imagina os israelenses votando pela destruição do próprio país para torná-lo um Estado binacional de maioria árabe-muçulmana. Trata-se, portanto, não de uma verdadeira ideia política, mas de propaganda ideológica travestida de ideia política, com o objetivo de fornecer argumentos para a perigosa tentativa de deslegitimar a existência de Israel, o que as lideranças árabes vem tentando fazer desde 1947, com palavras mas também com bombas. A esquerda a acompanha desde então, incluindo as bombas, por certo período, como no caso do grupo de extrema-esquerda alemão Baader-Meinhof, aliado de grupos terroristas palestinos nos anos 1970. A esquerda, desde então, abandonou as bombas contra alvos israelenses e judaicos, mas não abandonou a bomba teórica da mentira gobbelsiana. Esse livro é mais um atentado gobbelsiano-stalinista à história, em nome da “justiça” à gauche.
Não irei, por tudo isso, analisá-lo, pois ele é falso desde o título. É fácil demonstrá-lo: o trabalho do maior geneticista de populações da atualidade, Luigi Cavalli-Sforza, demonstrou que o povo judeu não é uma invenção histórica. Portanto, esse livro só pôde ser escrito negando, stalinistamente, a obra de Cavalli-Sforza. Faremos o contrário aqui, ao discutir o mesmo tema do livro de modo não-ideológico.
2. O separado das gentes
Um judeu, de certo modo, é como o tempo de Santo Agostinho: algo que todo mundo sabe o que é, quando não tem de defini-lo, mas não sabe, quando tem. E isso é ao mesmo tempo surpreendente e perigoso. Surpreendente, porque os judeus têm presença central na história ocidental desde o início. Perigoso, porque a ignorância alimenta os mitos, que alimentam o preconceito.
Em termos concretos, após um breve momento de recuo, em função do horror do Holocausto, seguido da revisão pela Igreja Católica de seu histórico e profundo antissemitismo, no Concílio Vaticano II (1965), o preconceito antijudaico volta a crescer em todo o mundo ocidental e médio-oriental. No Ocidente, com destaque para a Europa, mas sem excluir os EUA e mesmo o Brasil, o recente recrudescimento do antissemitismo tem três causas principais: o próprio antissemitismo histórico ocidental, sempre latente; o particular antissemitismo da esquerda, que identifica judaísmo com capitalismo e sionismo com colonialismo, e encontrou na condenação maniqueísta e radical de Israel uma forma de sintetizar e atualizar seu repúdio aos quatro; o novo antissemitismo árabe-muçulmano, que generaliza seu anti-israelismo em desconfiança ou ódio aos judeus em geral. No Brasil, os dois últimos ingredientes são particularmente observáveis no meio universitário. No Oriente Médio, é o terceiro que centraliza o fenômeno.
Tudo somado, a questão volta, infelizmente, a ter importância.
Porém ela é tão complexa que exige, em primeiro lugar, considerar se se trata de fato de uma questão. Pois para muitos, ser judeu é uma condição. Uma condição, digamos, natural, no sentido de ser parte da natureza dos que são, justamente, judeus. E se é uma condição, não é uma questão. Macieiras são macieiras, não cerejeiras. Mas aqui se trata de duas espécies distintas – e a humanidade é uma espécie única. Pode-se, então, concluir que a questão é verdadeira: pois ser judeu não é afinal uma condição natural.
O próprio mito de fundação do judaísmo o explicita. Abraão teve de ser apartado de seu povo de origem, da cidade de Ur, na Mesopotâmia, para se iniciar no caminho que o converteria no primeiro judeu. Ser judeu é, então, ao menos em parte, apartar-se. Separar-se. Primeiro, através de um Deus duplamente único (único porque solitário, e único porque distinto dos demais deuses – ao menos até o advento do cristianismo e do islã, ambos, não por acaso, tributários do judaísmo). Segundo, através da circuncisão, da Torá, do shabat, da comida kasher e da endogamia. Obviamente, só é necessário separar aquilo que de início está misturado.
3. Espécie, raça, tribo
Mas isso complica a questão e, surpreendentemente, devolve-a ao parágrafo sobre “macieiras” e “cerejeiras”. Pois hoje se sabe que o principal mecanismo de surgimento de novas espécies é, justamente, a separação.
Ao contrário do que acredita o senso comum, seguindo certa vulgarização do darwinismo clássico, não é o tempo, ao acumular infindáveis pequenas modificações, que costuma gerar novas espécies, mas sim o espaço, isto é, o isolamento geográfico (segundo o darwinismo contemporâneo). Os descendentes de um subgrupo separado de um grupo maior não têm mais seu pool genético “diluído” e homogeneizado com o resto do grupo original, fazendo com que as diferenças advindas das mutações aleatórias se concentrem. Além disso, elas são agora selecionadas numa direção particular, em função do novo hábitat. O resultado é que o pool genético do novo subgrupo logo se distancia daquele do grupo de origem. Assim, enquanto o grupo original tende a se manter relativamente inalterado, o subgrupo dele separado tende a se transformar rapidamente em uma nova espécie.
O problema é que isso não se aplica aos seres humanos. Por dois bons motivos. Primeiro, porque o “se transformar rapidamente” é relativo. E relativo ao tempo biológico, muitíssimo mais lento do que o histórico. Segundo, e aqui ainda mais determinante, porque grupos humanos dificilmente ficam totalmente isolados: os mesmos motivos e os mesmos caminhos que levaram um grupo a uma dada região cedo ou tarde levarão outro (o que não é verdade para outras espécies, que se dispersam menos e por menos razões). E quando porventura ficam afinal isolados, não é, por tudo isso, por períodos biologicamente significativos. Portanto, não houve tempo nem isolamento verdadeiro para subgrupos humanos se diferenciarem, desde que o Homo sapiens se isolou da espécie ancestral, o Homo erectus, no continente africano, há cerca de 150 mil anos (ao contrário, o Homo erectus teve tempo suficiente para que subgrupos separados evoluíssem separadamente: parte de sua população que saiu da África e chegou à Europa pelo Oriente Médio há cerca de um milhão de anos deu ali origem ao famoso Homem de Neandertal [Homo neanderthalensis]).
Mas eis que então se esforça por emergir o conceito de raça. Se não houve tempo nem isolamento ideal para fazer surgir uma nova espécie humana, desde que a nossa se tornou a única espécie humana no planeta (pela extinção, entre outros, do próprio Neandertal, há cerca de 30 mil anos), sendo a raça um estágio intermediário... Acontece que a raça não é um estágio intermediário. Por um único bom motivo: não existem raças. E não existem porque a espécie é a menor unidade da biologia. Raça é apenas um conceito popular. Dito de outro modo, o que diferencia um poodle de um pastor alemão, em termos genéticos, é nada. Daí ambos pertencerem à mesma espécie, o Canis lupus.
Para entender o que seja uma raça de cães (ou o que seria uma “raça” humana), basta olhar para os vizinhos à época de uma grande festa, quando, à família nuclear, se agregam mais parentes. A maioria desses familiares é parecida entre si. Se forem italianos, terão cara de italianos, se chineses, cara de chineses, se alemães, cara de alemães. E se por acaso houver um casal misto, por exemplo, um judeu de origem russa com uma japonesa de origem, bem, japonesa, sua filha se parecerá com a mistura de um judeu russo e uma japonesa. Sei disso por causa de um amigo. Do pai, ruivo, a filha herdou cabelos arruivados, além da altura. Mas os dele são encaracolados, e os dela, lisos como os da mãe. E seus olhos são amendoados: mais abertos que os da mãe, menos que os do pai.
O mesmo aconteceria se se cruzasse um são-bernardo e um pastor alemão: os filhotes teriam características de ambas as... famílias. Em suma, o que chamamos de “raças” caninas não passam de famílias ampliadas, cujos casamentos, ou cruzamentos, foram controlados para se manterem internos, a fim de preservar certas características de alguns antepassados, um dia isolados do grande grupo dos cães pelos criadores em função dessas mesmas características. A semelhança com o mito de Abraão não é mera coincidência.
Famílias humanas ampliadas, quando relativamente isoladas por certo tempo, a ponto de criarem uma cultura própria, são chamadas de tribos. “Raças” caninas, enfim, são o equivalente às tribos humanas: entre um pigmeu do Gabão de pele marrom-escuro e um gigante nórdico de pele leitosa há tanta distinção aparente quanto entre um pequeno poodle preto e um gigantesco dinamarquês branco, mas nem por isso “raças” caninas ou tribos humanas constituem espécies. Na verdade, a única diferença é que as “raças” caninas são produzidas pelos criadores, e as tribos humanas, por circunstâncias históricas.
4. Etnia, povo, estado, ventre
Um conjunto de tribos se chama etnia. Em grego, um ethnos é uma liga, uma coligação, um conjunto de tribos que habitam uma mesma região, e falam um mesmo dialeto: a etnia tem, assim, dimensão geográfica, histórica, cultural e linguística.
Mas eis que a coisa se complica outra vez. Pois se uma etnia é um conjunto de famílias ampliadas, ou tribos, ou seja, uma família de famílias, uma superfamília, isso ainda não esclarece o que seja um povo.
O moderno conceito de povo é, na verdade, tributário do moderno conceito de Estado. E este é a expressão geopolítica de um grupo de indivíduos que falam a mesma língua. Porque a língua sempre foi tomada como uma metonímia, a parte que representa o todo: se alguém fala uma dada língua, deve ter nascido no grupo dos que a falam. Portanto, se você fala grego, é um grego (e não um persa, um egípcio, um assírio etc.), não importa se dessa ou daquela tribo grega (ou dialeto grego). Parece simples.
Mas, mais uma vez, não é. Pois se uma etnia está para um dialeto assim como um povo para uma língua, ninguém sabe ao certo o que diferencia uma língua de um dialeto. Há os que afirmam, com muitas razões, que uma língua é um dialeto com exército e bandeira. E aqui voltamos ao Estado moderno. Como ele se pretendia a expressão geopolítica de um povo, idealmente deveriam fazer parte dele todas as pessoas que falassem uma mesma língua. Por exemplo, o italiano. O detalhe de não existir uma língua italiana, que não passa do conjunto de seus dialetos, não foi considerado um problema (ou melhor, foi: daí afinal se decretar que o dialeto florentino era a língua “italiana”). Assim como não existir uma língua francesa (basta pensar no bretão), ou espanhola (catalão, galego), ou chinesa (pequinês, cantonês etc.). Enfim, povo é um conceito fundamentalmente político, enquanto etnia é um conceito histórico-cultural. Além disso, a língua de um povo é, como regra, um conjunto de dialetos, enquanto a língua de uma etnia é, originalmente, um dialeto em si.
Os judeus são, afinal, não um povo, mas uma etnia. Uma etnia originária da região de Israel e falante do hebraico (um dos “dialetos” das antigas línguas semitas da região, como o aramaico, o moabita etc.), que no ano 70 d. C. foi dali expulsa e dispersa pelo Império Romano, no contexto de se acabar com dificuldades políticas imperiais na região.
Portanto, a resposta é, afinal de contas, fácil: ser judeu é nascer dentro de um grupo de judeus. Como, porém, ninguém nasce dentro de um grupo, mas sim dentro de um útero, na prática, ser judeu se transformou em ser filho de uma mãe judia. Caso encerrado. Ou talvez não.
Pois onde ficam os mitzvot, ou mandamentos? Porque um mandamento é, bem, um mandamento, uma obrigação. Sendo assim, é possível ser judeu sem circuncisão? Sem seguir a Torá? Sem observar o shabat? Muitos diriam que não. Neste caso, nascer de um ventre judeu se revela uma condição necessária, mas não suficiente. Um judeu, então, é feito de um nascimento judeu e de uma vida de respeito aos mandamentos judaicos.
Apoiados, porém, no próprio conceito de etnia, existem muitos que consideram a religião judaica apenas uma entre as muitas variáveis que definem a etnia judaica, e portanto, o pertencimento a ela. Eles ganharam um fortíssimo aliado no trabalho de Luigi Cavalli-Sforza.
5. Teoria da conversão versus narrativa rabínica
Até o trabalho definitivo de Cavalli-Sforza na segunda metade do século XX, era impossível resolver um antigo e crucial debate. Esse debate contrapunha, de forma irredutível e insanável, os adeptos da teoria da conversão e os seguidores da narrativa rabínica, todos devidamente judeus.
A narrativa rabínica (alvo do referido livro), defendida majoritariamente por judeus religiosos, afirma que os judeus, desde a saída de Israel no ano 70 e sua dispersão pelo Império Romano, ou seja, Europa, norte da África e Oriente Médio, mantiveram sua identidade étnica através dos casamentos dentro da comunidade, além de, assim, também manterem suas principais tradições, sua religião e sua memória histórica. Já a teoria da conversão, como regra adotada por judeus assimilados, e além disso “de esquerda” (base, naturalmente, do livro em questão), dizia que tudo isso não passava de um mito, pois aqueles judeus israelitas do primeiro século teriam “necessariamente” se diluído na vasta população gentia logo em seguida. Para explicar, então, a existência atual de judeus, os adeptos da teoria da conversão elaboraram uma série de... mitos alternativos, pois também faltos de comprovação.
O mais sensato afirmava que os que se dizem hoje judeus nada mais têm, etnicamente, de seus antepassados, sendo apenas os descendentes gentios que mantiveram as tradições familiares de algum muito remoto ancestral judeu. O mito menos sensato afirma que todos os judeus atuais são, na verdade, descendentes dos kazares, um semimítico povo medieval de certa região ao sul da Rússia, mas não eslavo (talvez de origem turca), que um belo dia, em torno do século X, se converteu em massa ao judaísmo, porque seu rei decidiu fazê-lo. A lenda dos kazares está hoje muito em voga entre os antissemitas em geral e entre os antissionistas em particular, que a usam como “argumento” para sua rejeição agressiva do estado de Israel. Portanto reaparece, não surpreendentemente (e goebbelsianamente), na discussão do citado livro:
Os judeus askhenazi (ocidentais) descendem dos kházaros, eslavos que habitavam o território ao longo dos rios Volga e Don (Rússia e Ucrânia) e migraram para a Polônia e territórios vizinhos, dando origem às numerosas comunidades judaicas (“Sand indica o caminho da paz na região”, Abdel Latif Hasan, Folha de S. Paulo, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2708201112.htm).
Luigi Cavalli-Sforza é um judeu assimilado, ou seja, não-religioso, e como tal, defendia a teoria da conversão. Para prová-la, elaborou e executou um grande protocolo científico em sua área de especialização, a genética de populações, a fim de demonstrar que os judeus são geneticamente indistinguíveis dos povos modernos em meio aos quais vivem. Porém seu trabalho, à sua revelia (mas não de sua honestidade intelectual), acabou provando o contrário.
Ele afinal demonstrou de forma cientificamente robusta que a narrativa rabínica estava espetacularmente certa. Os judeus mantiveram sua identidade étnica através de casamentos dentro da comunidade, e assim também preservaram suas principais tradições, sua religião e sua memória histórica: pois os judeus são todos mais próximos entre si do que de qualquer grupo de seu entorno, em todas as regiões do globo. Além disso, todos descendem de um mesmo grupo ancestral que viveu no Oriente Médio há cerca de 2000 anos. Em termos práticos, Cavalli-Sforza descobriu que um judeu europeu loiro de olhos azuis (ou ashkenazi) é mais próximo de um judeu oriental ou “árabe” de cabelos e olhos pretos (ou sefaradi) do que de um alemão loiro de olhos azuis (esta possibilidade é sustentada pelas complexidades e sutilezas da expressão genética, termo técnico que se refere aos modos como os genes se “expressam”, ou seja, geram as várias características corporais através da produção de proteínas, o que nada tem de simples ou linear, como crê o senso comum). Ao mesmo tempo, ele também descobriu que todos os judeus são próximos dos demais grupos semitas do Oriente Médio, como os árabes, e mais exatamente, de um grupo que habitava a região de Israel há cerca de dois milênios (isto é possível através do estudo da dispersão do DNA mitocondrial, de taxa de mutação constante e passado de geração a geração apenas pela mãe).
Se a genética o demonstra, a história o explica. Pois uma etnia é, fundamentalmente, a expressão de um passado comum que se estende até o presente. Daí poder-se mudar mesmo a língua, do hebraico para o iídiche ou para o ladino, por exemplo, e continuar pertencendo à tribo.
Mas se se pode mudar até a língua, por que não a religião?
6. A religião, enfim
A resposta simplesmente não existe no singular. Pois isso depende... da religião. Há, por exemplo, árabes cristãos. Na verdade, pode-se dizer, neste sentido, que há árabes muçulmanos. Porque o islã não é a religião original dos árabes (e sim o politeísmo tribal). Logo, todos os árabes, em termos religiosos, são convertidos. Nem por isso deixam de ser árabes. O mesmo vale para os cristãos, que em sua origem eram, e ainda são, gregos, italianos, germânicos, egípcios, árabes, chineses... A diferença é que, no caso judaico, não se trata de uma religião de convertidos, mas de uma que se confunde com a própria condição étnica (como, por exemplo, os antigos deuses egípcios, que eram, ora, egípcios, ou as atuais divindades indígenas, que são indígenas). Além disso, tanto em termos míticos quanto históricos, a adoção do monoteísmo parece ter sido a principal razão da separação de um grupo de tribos de uma pequena região do Oriente Médio das tribos de seu entorno. Logo, a religião foi o próprio fator de surgimento dos judeus como etnia (o mesmo não vale, por exemplo, para os japoneses em relação aos seus antepassados, comuns aos chineses, dos quais se separaram primeiro geograficamente, ao migrar para o arquipélago).
Acontece que um fator original é um fator original: ou seja, mesmo ele não esgota todos os fatores determinantes. Uma religião, por si, mesmo que étnica, não define uma etnia. Portanto, seguir os mandamentos judaicos não define a condição judaica.
Já sabemos disso, pois além dos mandamentos, deve haver também o ventre. Mas se o ventre, ou seja, a ascendência, traduz de fato uma história familiar comum, religião é cultura, ou seja, certo conjunto de crenças e práticas. Voltamos à questão da língua: se se pode trocar o hebraico pelo iídiche ou pelo português e continuar judeu, por que não se pode, do mesmo modo, trocar a religião judaica pelo protestantismo, por exemplo, e continuar judeu, como um árabe cristão continua a ser árabe?
A resposta verdadeira é, afinal, apenas uma: por convenção.
Indivíduos não fazem leis. Leis são feitas pela comunidade, para organizar e regular a própria vida em comunidade. Ser judeu, afinal, é um direito. Um direito reconhecido por um dado grupo a certos indivíduos, como todos os direitos (com exceção dos direitos humanos, que são ou devem ser universais, os demais são particulares).
Mas mesmo isso não responde tudo. Pois a comunidade judaica não é homogênea. Logo, as convenções judaicas, mesmo as mais básicas, não são igualmente aceitas por todos. E se é a própria comunidade que define, necessariamente, suas convenções, o fato de haver partes significativas da comunidade judaica que questionam certas convenções, por exemplo, as de pertencimento, torna esse questionamento respeitável.
Ser judeu, em suma, é ser reconhecido como judeu por outros judeus. E como a maioria, neste caso, adota contemporaneamente apenas a origem materna, dando menos importância ao respeito aos mitzvot, ser judeu é ser filho de mãe judia (segundo a lei israelense, é judeu quem for filho de mãe judia ou convertido à religião judaica; para muitos grupos ortodoxos, por outro lado, só é judeu quem, além de filho de uma judia, segue estritamente a religião).
Mas isso ainda não esclarece se se trata apenas de um direito ou também de um dever. Ou seja: o filho de uma mãe judia, além de poder se considerar judeu, pois pela maioria dos demais judeus assim considerado, tem a obrigação de fazê-lo? Em outras palavras: ele é necessariamente judeu, ou apenas possivelmente judeu, caso não mais assim se considere?
Ser judeu, enfim, é em parte um “alter-reconhecimento” (para cunhar um neologismo), e em parte um autorreconhecimento. As duas formas de reconhecimento são suficientes – e também necessárias.
7. Mestiçagem judaico-gentia
Além de uma importante e perene questão, toda essa discussão também esclarece uma questão aguda e relevante (ao menos para mim): o que é, então, o filho de um judeu e de uma não-judia?
Pois se o filho de uma judia é judeu, não importa a origem étnica ou mesmo religiosa do pai (ainda que, em termos religiosos judaicos, os casamentos mistos sejam todos igualmente condenáveis). Logo, se apenas o pai for judeu, seu filho não o será.
Portanto, minha filha não é judia. Mas isso não me satisfaz: minha filha tampouco é ianomâmi, chinesa ou esquimó. Dizer o que ela não é nada diz do que ela seja. Mas ela deve necessariamente ser algo, particularmente em relação à origem étnica de seu próprio pai.
Minha conclusão, na verdade, a conclusão lógica, é ela ser uma mestiça. Pois não é um mestiço o filho de um branco e de um negro? De um ocidental e de um oriental? De um europeu e de um índio? Se sou membro de uma etnia, à qual não pertence, porém, minha mulher, minha filha é e só pode ser mestiça. Então me dei conta de que isso deveria ser óbvio.
Pois a humanidade é dividida em quatro grandes grupos, bem, étnico-linguísticos. São eles os indo-europeus, os mongóis, os negros e os semitas. Os indo-europeus são um grande grupo formado pelos ocidentais e pelos indianos, que não têm origem oriental, apesar de a Índia ficar na Ásia, pois para lá migraram milhares de anos atrás, depois de se separar de seus primos europeus (daí os indianos não terem os olhos puxados dos demais orientais, mas terem narizes proeminentes e pelos no rosto, à semelhança dos ocidentais; daí, também, sua língua ancestral, o sânscrito, ser muito semelhante ao grego antigo). Os “mongóis”, aqui, são os povos amarelos em geral (e não os naturais da Mongólia apenas). Os negros são os africanos não-árabes. Os semitas são os judeus, os árabes e outros povos extintos do Oriente Médio, como os antigos mesopotâmios, os hititas etc. Portanto, a filha de um semita e de uma indo-europeia só poderia mesmo ser uma mestiça.
A mestiçagem já foi considerada, pelos racistas de todas as origens, longitudes e latitudes, uma forma de “degeneração”, pois traria para uma dada “raça”, que seria obviamente “superior”, as “inferioridades” de outra qualquer. Mas se não há raças a não ser na cabeça de um racista, não há nem superioridade nem inferioridade possíveis. Tampouco igualdade ideal: os seres humanos são, afinal, todos diferentes, todos individuais. Isto dito, são diferentes inclusive em suas diferenças.
8. Diferenças diferentes
Um de meus sobrinhos estava em dúvida quanto a fazer ou não o bar-mitzvá. Para a surpresa familiar, aconselhei-o a fazê-lo. A surpresa vinha de meu visceral ateísmo. Por que um ateu convicto diria para seu sobrinho “submeter-se” a uma cerimônia religiosa? E por que um garoto descrente deveria participar dela? Porque não se trata de uma cerimônia religiosa, ou não religiosa apenas. Como o judaísmo é uma religião “tribal”, ou étnica, fazer o bar-mitzvá também significa participar de uma cerimônia “tribal”. No caso de um garoto judeu com poucas ligações com sua história, seus mitos e sua língua ancestral (o bar-mitzvá implica na alfabetização em hebraico), é algo a se pensar. Foi o que eu disse, e ele afinal fez seu bar-mitzvá. Mas o que eu diria ou direi a minha filha nas mesmas circunstâncias? Para ela não fazer o bat-mitzvá (a versão feminina da cerimônia). Afinal, ela não é judia. Melhor dizendo, ela é uma mestiça.
Isso significa que não faz parte da comunidade judaica do mesmo modo que seu primo-irmão, filho de pai e principalmente mãe judeus, mesmo que dela ainda faça parte. Pois há pertencimentos parciais.
Na verdade, baseado no mesmo conceito de etnia, há quem defenda, como o escritor israelense A. B. Yehoshua, que o pertencimento à condição judaica de todos os judeus da diáspora é parcial. Pois assim como minha filha é menos judia do que seu primo-irmão, sem porém deixar de sê-lo inteiramente, seu primo-irmão, apesar de sua mãe judia, seria menos judeu do que um judeu israelense. Pois este agregaria mais elementos étnicos judaicos, por exemplo, a língua hebraica, as leis judaicas e a própria presença na terra ancestral de Israel, o que, junto à religião, resultariam em uma judaicidade mais completa (portanto, o único judeu por inteiro deve ser o grão-rabino de Jerusalém; eu mesmo, em todo caso, apesar da inteira ascendência judaica, por minha recusa ativa da religião e meu casamento misto, entre otras cositas más, não sou dos exemplos mais bem acabados).
Por outro lado, isso também significa que minha filha possui mais pertencimentos parciais do que seu primo (e do que os judeus israelenses), que além de culturalmente brasileiro, é etnicamente judeu, enquanto ela é culturalmente brasileira, parcialmente judia e parcialmente indo-europeia. Seu passado histórico, cultural e familiar é, portanto, maior. Além disso, ela deve estar mais a salvo dos sectarismos que voltam a assombrar a humanidade, depois da morte do racionalismo, do humanismo e das utopias universalistas de esquerda. Pertencer a um grupo não é, em si, ruim. Por isso mesmo, pertencer a mais de um é ainda melhor.


