PT: da cidadania ao “poder”
A história é mais do que conhecida, apesar de hoje negligenciada. O PT não surgiu como um projeto de poder, no sentido da busca do poder como um fim, mas como um projeto de cidadania. Ou seja, sua razão de ser era inverter a lógica da política brasileira, a busca do poder pelo poder, para assim apontar em direção da construção de uma sociedade mais justa e de uma democracia mais robusta. O nome do caminho era reformas. Pois sem reformar o que era ruim, uma sociedade exclusora, uma política privatizada por grupos de interesse, uma cidadania anêmica e uma democracia formal, o país não deixaria de ser uma eterna e eternamente adiada promessa de modernidade social, a fim de se tornar uma realidade de sociedade moderna.
Mas o PT mudou. Com isso, empobreceu enormemente o já bastante pobre quadro partidário brasileiro, pois em vez de ele ganhar um grande partido, ganhou mais uma organização política de busca e manutenção do poder.
O grande apoio popular a Lula depois de dois mandatos foi há pouco clarificado por um dos luminares do lulismo, o ex-porta-voz da Presidência André Singer: trata-se de uma consequência do tripé formado pelo aumento do salário mínimo, o Bolsa Família e o crédito consignado. Estes três ingredientes, e não um difuso aumento do PIB, ao incrementar parcamente o antes quase nulo poder de compra dos mais pobres, fizeram de Lula uma figura tão popular e “paternal” quanto Vargas.
Faz sentido. Porque nada mais houve no governo Lula que pudesse justificar sua aprovação popular. Depois de dois mandatos, nada foi feito para melhorar a educação pública. O mesmo vale para a reforma fiscal, fazendo com que os mesmos mais pobres paguem relativamente mais do que os mais ricos. Igualmente quanto à reforma política, porque não interessava ao lulismo: o tardoestalinista Aldo Rebelo, por exemplo, do velho PC do B, e aliado figadal do “Grande Companheiro”, foi reeleito com as “sobras” de Tiririca. As reformas não-feitas da previdência, do judiciário e da polícia (com a eliminação da aberração que é haver duas delas, uma militar e outra civil, e ambas igualmente ineptas) completam a lista.
Além disso, como se tornou uma “verdade” goebbelsiana que Lula criou o Brasil, é preciso sempre relembrar ter sido o governo FHC o verdadeiro modernizador recente da economia brasileira. A economia inepta, estatizada, fechada e hiperinflacionária transformou-se numa economia produtiva, privatizada, aberta e de inflação controlada antes do governo Lula. O resto foram ajustes sobre a manutenção dos grandes marcos criados por FHC. Isto inclui o principal programa de transferência de renda, pois o Bolsa Família é tão somente a fusão do Bolsa Alimentação e do Bolsa Escola, criados no “governo anterior”. A única criação verdadeiramente original de Lula, o outrora famoso Fome Zero, deu em nada.
Lula, na verdade, fez muito pouco. Mas sobre as enormes e históricas carências econômicas e sociais da maioria da população, esse pouco, ou seja, o aumento do poder de compra determinado pelo tripé Bolsa Família-aumento do salário mínimo-crédito consignado, foi suficiente para satisfazer por ora essa maioria, apesar de tudo o que o governo do PT não fez, ou seja, reformar minimamente uma sociedade que se moderniza pontual e espasmodicamente (do que é exemplo o próprio aumento de consumo) sobre a manutenção de todas suas graves, negras e históricas carências e atrasos.
A recente polêmica sobre a defesa ou não da descriminalização do aborto é, nesse contexto histórico, apenas a última gota d´água da débâcle programática e ética do PT. Historicamente favoráveis à descriminalização, entre outros motivos por ser uma postura racional, moderna e feminista, o PT e sua candidata boneco-de-ventríloquo, por interesse eleitoreiro explícito, de repente se tornam, às vésperas do segundo turno presidencial, contra a descriminalização do aborto, adotando uma postura obscurantista, retrógrada e conservadora, além de medicamente indefensável, a fim de garantir os votos dos religiosos.
Porque o partido e seus membros não reconhecem mais nenhum valor além da busca e da manutenção do poder.
É pelo mesmo motivo que a candidata fantoche do lulismo de repente acorda ambientalista, depois de haver sido a vida inteira tardo-desenvolvimentista, além de a responsável direta pela saída de Marina Silva do ministério do Meio Ambiente.
Ninguém sabe, na verdade, quem é, o que pensa ou o que pretende Dilma Rousseff, cuja falsa familiaridade atual é apenas um truque de marketing político. Mas é impossível não saber o que querem o PT, Lula e o lulismo: a manutenção do poder, a fim de garantir a manutenção do poder. Tudo o mais é negociável. Trata-se, em suma, da mais deprimente trajetória política da história brasileira contemporânea, a de um partido que nasceu para ser o contrário daquilo em que afinal se transformou.


