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O GRANDE AVATAR DA CONTRACULTURA



1. O filme

Maior orçamento da história da indústria cinematográfica, maior bilheteria e reinaugurador do cinema 3D, Avatar (2009), de James Cameron, foi o grande acontecimento do cinema mundial em anos recentes. Seu caráter de fantasia futurista e sua pletora de efeitos especiais ofuscariam a compreensão mais detida ou aprofundada de sua narrativa. Normalmente, isso seria irrelevante: nesse tipo de filme, a narrativa costuma ser o que de fato menos importa. Não é, porém, o caso de Avatar. Há mais coisas por trás de seus efeitos espetaculares do que supõe as filas na bilheteria.

Num futuro indeterminado, um ex-fuzileiro paraplégico é enviado a um planeta distante. Esse planeta, porém, é habitado. Além de uma fauna e uma flora exuberantes, vive ali uma raça humanóide. Essa raça nativa se revela um empecilho para a exploração mineral do planeta, motivo da presença de humanos.  Pois a exploração destruirá seu hábitat e, portanto, seu modo de vida.  Os nativos resistem. O ex-fuzileiro será então usado em um experimento pelo qual assume a forma física de um nativo, a fim de interagir com eles e fazê-los desistir de resistir, ou, caso contrário, encontrar seus pontos fracos. Ele, porém, se envolve. E acaba por liderar a resistência.
Se esse é o resumo do enredo, seu significado é bastante diferente.


2. As razões do enredo

O planeta, Pandora – nome grego que significa “todos os dons” – é uma super Floresta Amazônica, tanto em dimensões quanto em características. Suas árvores são maiores, seus animais mais exuberantes, suas plantas mais exóticas, seus meandros mais surpreendentes. Isto inclui clareiras celestialmente luminosas, mágicas montanhas flutuantes e um supermineral ao mesmo tempo muito forte e muito leve, capaz de literalmente levitar, e que se torna o alvo da cobiça dos brancos.

A superfloresta é habitada por super-índios: todos enormemente altos, todos enormemente fortes, todos enormemente ágeis, todos enormemente elegantes, belos e magros. Não há nativos baixos, gordos ou doentes, e mesmo os velhos o são muito moderadamente. Mas além de se parecerem com uma assembleia de semideuses ascéticos, vivendo sua superioridade na rusticidade espiritualizada de uma vida “natural”, também são super-índios em termos culturais.

São dois os mecanismos usados em Avatar para transformar os nativos de Pandora em uma supercultura indígena. Primeiro, tudo o que era doxa e mythos, isto é, discurso e mito, numa palavra, reivindicação, torna-se fato. Segundo, tudo o que era uma conquista exclusiva da cultura ocidental ganha um equivalente nativo e “natural”.

A mítica interconexão dos povos indígenas com a mata, os animais e os “espíritos” se torna então uma realidade física, gráfica. No exemplo mais cabal, seus cabelos são órgãos neuronais com terminações expostas, que lhes permitem uma conexão física com órgãos equivalentes dos animais, estabelecendo uma perfeita simbiose mental e, portanto, comportamental: homem e animal tornam-se, de fato, um. Além disso, sua aldeia fica no interior de uma árvore: os nativos vivem, literalmente, dentro da mata.

Do lado da “natureza”, as “filhas” da Grande Árvore, ou seja, suas sementes, são uma mistura de águas-vivas com anjos que, imaculadamente brancas, descem em câmera lenta e se movem em bando, em movimentos fluidos, para eventualmente pousar sobre um nativo, envolvendo-o delicadamente (como de fato fazem com o herói, ungindo-o e o apontando como um “eleito”). A própria Grande Árvore guarda os espíritos de todos os ancestrais, e possui igualmente terminações sensíveis (além de luminosas...), pelas quais se pode falar a ela e dela ouvir sussurros distantes desses espíritos. Por fim, a terra em si mesma está, literalmente, viva, e lança pequenos tentáculos que se conectam ao corpo do herói moribundo, na cena final, restituindo-lhe a vida (além de torná-lo, física e espiritualmente, também um super-índio).

A principal característica morfológica dos seres de Pandora, incluindo animais, vegetais e a própria terra viva são, portanto, as estruturas tentaculares de vários tipos e tamanhos, todas devidamente sensíveis e interconectáveis, traduzindo em termos literais a reivindicação dos povos da floresta de conexão com o entorno natural.

Em segundo lugar, tudo o que a cultura ocidental conquistou pela tecnologia, ou seja, a velocidade, a capacidade de voo e uma grande força mecânica, tem seu equivalente nativo, anulando assim qualquer possível “vantagem comparativa”. A velocidade dos nativos vem de supercavalos de seis patas. Sua capacidade de voo, de uma espécie de pterodáctilo colorido e capilarmente interconectável, que se revela mais manobrável e confiável do que qualquer caça ocidental. Além disso, também permite aos nativos prazer e beleza naturais em doses estratosféricas. Sua força mecânica vem de um enorme e feroz animal, mistura de rinoceronte com triceratops, tornado manso pela Grande Mãe a fim de ser cavalgado pela super-índia, e a ela interconectado capilarmente, marchar resoluto para enfrentar, e equiparar, um gigantesco exoesqueleto robótico, que torna os humanos ainda maiores e mais fortes do que os super-índios (além de muito mais malvados, obviamente), verdadeira besta mecânica à qual está conectado, por sua vez, o supervilão.

Nesse embate final se sintetizam, então, as caracterizações culturais do filme. A cultura ocidental moderna é, ao mesmo tempo, masculina, branca, cobiçosa, tecnológica, belicista e ambientalmente incorreta, e envolve o homem branco em uma simbiose homem-máquina instrumental, robótica, desespiritualizada e desespiritualizadora. A cultura nativa é feminina, colorida, comunitária, orgânica, pacífica e ambientalmente correta, e conecta a super-índia em uma simbiose mulher-natureza harmônica, transcendente, espiritual e espiritualizadora.


3. Para além da técnica

Se as principais conquistas técnicas da modernidade ocidental são assim emuladas, e portanto anuladas enquanto conquistas, por equivalentes nativos naturais, isso também vale para as conquistas comportamentais.

Afora o mito das amazonas, e casos excepcionais envolvendo o conjunto de uma população seminômade em batalha, como na luta dos icenos do leste da Inglaterra contra as tropas invasoras romanas comandadas por Suetônio, historicamente, não existem mulheres guerreiras, porque não existe igualdade de oportunidades entre os sexos, sendo todas as culturas, até prova em contrário, patriarcais. Entre os verdadeiros nativos da Amazônia, mulheres não apenas não caçam como não participam das assembleias que tomam as decisões importantes. Em compensação, a partir dos 12 anos, podem ser dadas em casamento a qualquer guerreiro a que seu pai queira entregá-la, em troca de algo de valor como a carcaça de um pequeno macaco recém-abatido.

Mas se é assim na Amazônia real, na super-Amazônia que é Pandora as mulheres atingiram uma igualdade com os homens que torna pálidas e anêmicas todas as conquistas femininas ocidentais modernas. Enquanto no lado branco há apenas uma mulher militar de destaque, exímia piloto de helicóptero, que não é porém loira nem anglo-saxã, mas morena e latina, ou seja, corretamente étnica, e que por ser mulher e não-branca acaba desertando das tropas e da cultura ocidentais, reaparecendo na batalha final pintada para a guerra com o azul dos nativos, no lado destes, todas as mulheres fazem tudo o que fazem os homens, incluindo atirar suas superflechas de seus superarcos, cavalgar os supercavalos de seis patas, voar nos pterodáctilos coloridos e praticar sexo antes do casamento com um parceiro de sua livre escolha, como na idílica cena de amor em uma clareira fosforescente entre o herói branco e a super-índia principal.

As nativas de Pandora, portanto, além de guerrear, também caçam. Mais do que isso enfrentam, como Hércules contra o leão de Nemeia, as feras da superfloresta com as próprias mãos, como na aparição heroica em que a super-índia salva o inepto homem branco de ser devorado por um bando de vorazes lobos pandorianos.

Mas se são, assim, supermulheres, realizando à perfeição o sonho das feministas mais radicais, são também supersensíveis, superespiritualizadas e superconectadas com a “natureza”. No momento mais explícito de um filme que não se caracteriza por deixar as coisas implícitas, em uma mistura de budismo hollywoodiano com mitologia naturista culturalmente correta, ela quase chora ao matar um dos lobos pandorianos – além de pedir perdão ao cadáver e recomendar seu espírito à Grande Mãe. A coisa se repete em uma cena de caça. Na dura realidade da verdadeira floresta, no entanto, índios cautelosos, silenciosos e cansados marcham à espreita pela mata por dias, e quando conseguem alvejar alguma presa, cumprimentam-se, riem e gritam de satisfação. Apenas budistas de butique acreditam que eles conversam com a comida.


4. Brancos muito negros

Se os nativos de Pandora são a mais completa realização do super-índio, levando o mito do “bom selvagem” criado por Rousseau, e depois adotado por geração após geração de antimodernistas ocidentais, ao seu mais extremo limite, os brancos de Avatar são a mais perfeita tradução do antiamericanismo mais caricato.

Um executivo tomado pela “febre do ouro”, ou que nome tenha o supermetal pandoriano, parece sempre a um passo de soltar gargalhadas de vilão de história em quadrinhos, enquanto faz planos para desalojar belicamente os super-índios de sua superaldeia entre narcísicas jogadas de golfe de salão. Os demais brancos são militares norte-americanos tornados literalmente mercenários a serviço da empresa do executivo febril.

Mais mecânicos do que a infinidade de máquinas que os cerca, não andam, marcham, e tem os cérebros inteiramente tomados pela ideia fixa e obsessiva de destruir os super-índios e sua floresta encantada. E eles de fato o fazem, ou quase. Ao menos, destroem a superaldeia incrustada na superárvore. Quando esta cai, bombardeada e em chamas, numa queda de dimensões ao mesmo tempo trágicas e míticas, tudo o que o comandante com cara e jeito de boneco de militar norte-americano se revela capaz de manifestar é o seu desejo de voltar a tempo para o jantar, juntando à brutalidade e à indiferença o cinismo.

Os únicos brancos não-maus são um pequeno grupo de antropólogos hightec, naturalmente liderados por uma mulher. Obviamente, eles não se comportam como antropólogos, ou seja, como cientistas, pois neste caso não poderiam ser não-maus. Na verdade, mal se contêm na ânsia de compartilhar dos “segredos” transcendentais dos super-índios. Verdade que não há mesmo nada a pesquisar nem nada a interpretar, porque não há mitos, narrativas, metáforas, pois na supercultura dos super-índios pandorianos tudo é factual e tudo é explícito, da liberdade feminina às interconexões neuronais-espirituais homem-animal, passando por uma Grande Mãe que fala através dos luminosos tentáculos sussurrantes da Grande Árvore. Sua líder, afinal, quase consegue atingir seu objetivo inconfessado, que não é estudar os nativos, pois não possui nenhuma gota de arrogância ocidental, mas sim tornar-se um deles, ao ser depositada moribunda aos pés da Grande Árvore e ser envolvida-conectada por finos tentáculos (eles de novo) emergindo do solo.

Mas fora tarde: ela ainda era, apesar de tudo, ocidental demais, racional demais. Somente ao outsider ocidental, o antropólogo que não é antropólogo, e apenas substitui o irmão gêmeo morto, o militar que não é militar, porque tornado paraplégico pela guerra, o solitário sem família, sem profissão e sem futuro, atomizado, alienado e aleijado por uma cultura racionalista e utilitária, que mais nada lhe pode tirar e nada mais lhe pode oferecer, será dada a chance de redenção.

Numa superação final das capacidades tecnológicas ocidentais pela supercultura nativa, enquanto no lado branco existe a possibilidade de ele recuperar o movimento das pernas através de uma cirurgia que é, porém, mercantilistamente cara e inacessível ao pobre ex-combatente, do lado nativo ele afinal não apenas recuperará o movimento das pernas como ganhará todo um supercorpo novo, o que implica em um novo espírito superconectado com as potências naturais pandorianas. Sua salvação, portanto, implica no completo abandono de sua condição original: não apenas a cultura e o racionalismo ocidentais, como seu próprio corpo de homem branco. Salvar-se, para um ocidental, só é possível pela morte ou pela transmutação mais absoluta. Pois na condenada, em todos os sentidos, condição ocidental não existe nenhuma possibilidade de salvação.


5. A conclusão

Unidos numa vasta coalizão de vontades audazes, coragem resoluta, senso cristalino de justiça e profundo sentido de comunidade, as tribos pandorianas revelam afinal toda a sua força, da qual a parte principal é, naturalmente, a Grande Mãe, que põe os animais a integrar a coalizão. Um grande exército popular de dimensões bíblicas e condição edênica coloca-se então heroicamente em marcha, contra as frankensteinianas forças mecanizadas e mecanicistas dos homens brancos ocidentais, pequenos parasitas belicosos dentro dos enormes corpos robóticos de suas máquinas de guerra.

A Grande Mãe vence a Grande Máquina, para alívio das plateias politicamente corretas com suas lentes mentais ideologicamente ajustadas pelo antimodernismo, o antitecnicismo e o antirracionalismo, enquanto seus olhos se revestem da mais moderna tecnologia de óculos 3D.

A cena final será igualmente a consumação final da superioridade indígena, com a inclusão do âmbito moral. Pois a possível raiva contra os agressores de sua terra e assassinos de muitos dos seus e a pertinente vontade de humilhação dos arrogantes inimigos vencidos são devidamente substituídas por uma serena tolerância altiva. Os nocivos homens brancos ocidentais serão obviamente expulsos de volta para o seu degradado e degradante pequeno mundo, onde, segundo as palavras do herói outsider, “eles mataram sua Grande Mãe”. Porém esses deicidas e matricidas não são humilhados nem ofendidos em sua retirada, atentamente observada e devidamente controlada pelos nativos, a fim de garantir a completa limpeza de seu planeta. Não porque não o mereçam. Mas porque os nativos são incapazes de qualquer baixeza, a despeito de todas as baixezas de que são capazes os homens brancos ocidentais.

Avatar é a apoteose tardia e esquizofrênica da contracultura, em que a máquina financeira da grande indústria cinematográfica norte-americana e sua mais poderosa tecnologia são postas a serviço da má consciência ocidental, para através de seu uso masoquista e da mais espetacular mitomania, acreditar poder se redimir por ser o que é (porque acredita profundamente dever disso se redimir) pela encenação de uma transformação ideologicamente correta dos não-ocidentais naquilo que não são: “bons selvagens” ideais que a história, a razão e a técnica não expulsaram de seu éden natural.