Jingles de Dilma, Serra e Marina: mais do que mero marketing
1. O contexto
Os jingles dos principais candidatos à sucessão presidencial são peças importantes de sua propaganda eleitoral, pois servem ao menos a três propósitos: ser o fundo musical das peças de TV, o marco musical das peças de rádio e, principalmente, o microdiscurso político mnemônico da campanha, ou seja, a síntese verbal memorizável da candidatura. Isso é ainda mais verdadeiro no caso de Dilma Roussef, pois sua candidatura sofre do mal congênito de ter um caráter substitutivo. Para analisar seu jingle, portanto, é preciso antes analisar sua condição política particular.A restrição legal à reeleição ilimitada, garantindo a alternância democrática do poder, não torna necessariamente o candidato da situação um mero substituto. Pois não há, como regra, um indivíduo a substituir, uma vez que o ocupante de turno é apenas isto, o ocupante de turno do cargo. Cumpridos seus mandatos, ele dá naturalmente lugar ao sucessor, seja da situação ou da oposição. A candidatura Dilma Roussef é substituta somente porque o governo Lula sofreu um intenso processo de personalização “messiânica”, em detrimento de sua partidarização política. Essa personalização torna então o candidato da situação não um sucessor possível do atual presidente, mas seu substituto necessário, em função do impedimento legal de reeleição do “salvador da pátria” em si mesmo. Daí o jingle da campanha Dilma, como síntese verbal memorizável da candidatura, servir para marcar, e não ocultar, essa condição. Antes de se poder analisar o jingle é, então, ainda necessário fazer um pequeno resumo histórico-político do governo Lula. Pois o jingle de Dilma possui, na verdade, duas faces: marcar sua condição de substitua do “salvador da pátria” e reforçar, assim, o caráter de “salvador da pátria” do próprio Lula.
A grande conquista do governo Lula foi a melhoria do perfil macroeconômico do país, com a consequente melhoria da curva do PIB. Isto se deu, em primeiro lugar, não através de uma política particularmente original e/ou ousada, mas principalmente pela manutenção e pelo ajuste das principais mudanças monetárias, fiscais e financeiras introduzidas por FHC. O que não constitui nenhum demérito, ao contrário, pois não se reinventa um país a cada mudança de governo. Esta é tão somente a pretensão discursiva de Lula, de caráter personalista/populista, marcada pelo bordão “Nunca antes neste país...”. O que aponta para o altíssimo custo político de tal conquista. Pois ela se deu por dois grandes abandonos: o do petismo – reduzido ao lulismo – e do reformismo que era a razão de ser histórico-política do PT.
O Partido dos Trabalhadores foi criado, e construiu sua história política de duas décadas na oposição, não para ser mais um partido não-representativo da tradicional política encastelada do país, mas para revertê-la: um partido popular, de massa, cujo objetivo era realizar as eternamente adiadas reformas fundamentais, como a reforma do Estado, a reforma política (o Brasil não precisa ter necessariamente uma das piores classes políticas do mundo), a reforma fiscal e a reforma jurídica. Sem elas, a economia do país pode mesmo ir bem (mas ainda assim muito menos do que poderia, por exemplo, com a reforma fiscal), porém o país como estrutura sociopolítica segue tão mal como sempre foi, historicamente. Lula demonstrou-se incapaz de realizar qualquer das reformas fundamentais, e, no processo, em função de tal abandono dos marcos históricos do PT, somado a episódios de esvaziamento de quadros como o “mensalão”, “desconstruiu-o” como partido reformista de massa, reduzindo-o então a mais uma legenda dependente das alianças oportunistas com outras legendas, do aparelhamento da máquina e do dinheiro públicos, e do horário eleitoral. Sua única originalidade atual, dentro do quadro político-partidário brasileiro, é então contar com uma figura “messiânica”, a do próprio Lula, que soube, em todo esse processo, ungir sua própria pessoa tanto do conjunto das conquistas econômicas modernizantes dos governos pós-ditadura (é preciso lembrar, por exemplo, que foi Collor quem primeiro abriu a economia brasileira para o mercado internacional), quanto da “aura” de representatividade popular original do PT. Em síntese, sai de cena o PT-partido-de-massa-reformista, e entra em cena Lula-o-salvador-da-economia. Este é tanto o legado quanto o recorte político da sucessão presidencial pelo lado governista. E como a candidatura Dilma se reduz, assim, à sagração da substituta escolhida pelo “salvador econômico da pátria”, é disso, e tão somente disso, que trata seu jingle.
Antes de afinal analisá-lo, um parêntese: política e linguagem poética (cuja utilização não se restringe à poesia estrito senso, um uso muito particular dessa linguagem) não costumam se dar bem porque a política, como regra, submete a linguagem poética a suas certezas, suas frases-feitas, sua necessidade de convencimento e sua adequação ao registro mais mediano possível. Mas, em primeiro lugar, regras têm exceções (por exemplo, as letras da Marselhesa e da Internacional, que possuem qualidades retórico-emotivas – além de ideológicas – evidentes; ou o famoso slogan da campanha de Eisenhower e sua rima em eco – analisado por Jakobson –, I like Ike). Em segundo lugar, a má “poesia” habitual da política nem impede nem serve de argumento para impedir que se analisem casos específicos de particular mediocridade poética – e política. Por fim, uma postura crítica “olímpica”, de considerar jingles de campanha e semelhantes, objetos por natureza aquém de qualquer análise séria (afinal, são “apenas” jingles – e ainda que a seriedade da crítica não lhe elimine o humor inevitável, dado o que se trata), não é minimamente sustentável: além de toda uma tradição moderna de análise crítica da propaganda política, a propaganda política obrigatória, aliada ao voto idem, marcas evidentes da profunda imaturidade formal da muito relativa democracia brasileira, tornam a propaganda política um verdadeiro e impositivo “best-seller”.
2. O texto
Podemos, afinal, nos debruçar sobre o jingle da campanha Dilma. Não peço desculpas ao leitor por ele ser, ao fim e ao cabo, mais do que meramente medíocre, verdadeiramente constrangedor, porque, como diz o velho adágio, a janela não tem culpa pela paisagem (posso, outrossim, ser acusado por não resistir a apontar a desventura capenga dessa letra, marcada, como uma condenação, já no nome de seus autores: João Santana, João Andrade e Kapenga Ventura).DILMA BRASILEIRA
Meu Brasil querido
Vamos em frente
Sem voltar pra trás
Pra seguir mudando
Seguir crescendo
Ter muito mais
Meu Brasil novo
Brasil do povo
Que o Lula começou
Vai seguir com a Dilma
Com a nossa força
E com o nosso amor
Ela sabe bem o que faz
Ela já mostrou que é capaz
Ajudou o Lula a fazer pra gente um Brasil melhor
Lula tá com ela
Eu também tô
Veja como o Brasil já mudou
Mas a gente quer mais
Quer mais e melhor
É com a Dilma que eu vou
É a mulher e sua força verdadeira
Eu tô com Dilma
Uma grande brasileira
A primeira estrofe se destaca por introduzir o contexto discursivo populista que, na segunda, sofrerá um giro explicitamente personalista: “Meu Brasil querido / Vamos em frente / Sem voltar pra trás / Pra seguir mudando / Seguir crescendo / Ter muito mais.” “Meu Brasil querido”, ao transformar o país, de uma entidade geossociopolítica em um sujeito adorável, é a versão baixo-adocicada das palavras de ordem nacionalistas, do tipo “Brasil, ame-o ou deixei-o”. Não por acaso, o verso seguinte retoma o “Pra frente Brasil” da mesma época: “Vamos em frente”. Mas não só isto: vamos em frente “sem voltar pra trás”, numa redundância cuja desinteligência se explica apenas pela necessidade de tentar reduzir a candidatura Serra a mera retomada do governo FHC – quando, na verdade, é a candidatura Dilma que não passa de mera continuação do governo atual. Porque Serra, a despeito de qualquer crítica que lhe possa ser feita, tem voo político próprio, em função de sua longa história político-administrativo-eleitoral, enquanto Dilma não somente não conta com quadros e marcos políticos próprios, pois herda todos do lulismo, como jamais foi eleita sequer para síndica, como diz o dito popular. Após essa redundância semântica de razão mítico-propagandística, o quarto verso retoma então o sentido original do segundo para uma primeira modulação: [“Vamos em frente”] “Pra seguir mudando”, o que implica ter sido o governo Lula marcado pela mudança. Mas não qualquer mudança, pois há mudanças ruins; daí a próxima modulação, [“Pra seguir mudando”] “Pra seguir crescendo”. Este quinto verso tem mais importância do que parece à primeira vista, porque o governo atual (o nome de Lula ainda não apareceu) tem como marca principal suas conquistas macroeconômicas. Neste verso se introduz, portanto, a própria razão de ser da candidatura Dilma: “seguir crescendo” economicamente – já que não poderia se tratar, por exemplo, de seguir se modernizando social ou politicamente. Acontece que o crescimento econômico, em si, é ainda uma abstração político-econômica. Daí o verso seguinte, culminando e fechando a primeira estrofe com um apelo explícito ao consumismo individual, que, ao fim e ao cabo, é a que se reduz o apelo popular do governo Lula: “[Pra] ter muito mais”.
Uma vez caracterizado o governo atual como de crescimento econômico, que por um lado se traduz em “ter mais”, e por outro seria ameaçado pela “volta atrás”, a segunda estrofe pode, afinal, nomear o responsável: “Meu Brasil novo / Brasil do povo / Que o Lula começou / Vai seguir com a Dilma / Com a nossa força / E com o nosso amor”. Tal estrofe faz muito mais, porém, do que apenas nomear o responsável: também caracteriza histórica e politicamente a ação desse responsável. Se alguns versos da primeira estrofe remetem a frases do “milagre econômico” do governo militar, aqui a referência recua para o período Vargas: “Meu Brasil novo”, “Estado Novo”. Portanto, semelhantemente esse também é um “Brasil do povo”. Sua particularidade reside em ter sido criado divinamente por Lula. Divinamente criado, porque apenas a criação divina é a-histórica. Se esse é um “Brasil do povo / Que o Lula começou”, não teve qualquer começo anterior. Se não o teve, é radicalmente novo. Se o é, não tem história. Se não a tem, é criação divina. Esses versos, portanto, que introduzem e condensam fortemente o caráter demogógico-populista e personalista-messiânico do governo Lula, também o aproximam do discurso fascista, cuja característica principal é jamais recuar face a qualquer manipulação da verdade. Segue-se, ato contínuo, a descarga de todo esse conteúdo na pessoa do Messias-substituto, razão de ser do próprio jingle: “[Que o Lula começou] [e] Vai seguir com a Dilma”. Os dois versos finais servem, então, para marcar a única diferença possível entre o Messias original e o substituto: “Com a nossa força [Lula]” / Com o nosso amor [Dilma]”, em função, naturalmente, de o primeiro ser homem e a segunda, mulher (isso será portanto devidamente explicitado mais adiante).
A terceira estrofe, feita toda dos clichês eleitorais mais puros, pode agora ser utilizada para explicitar e reforçar o tema central, o messianismo salvador de Lula e sua substituição pelo salvacionismo messiânico de Dilma: “Ela sabe bem o que faz / Ela já mostrou que é capaz / Ajudou o Lula a fazer pra gente um Brasil melhor”. “Ajudou o Lula a fazer um Brasil melhor pra gente”, obviamente, retira do próprio “povo” acima nomeado qualquer protagonismo político, tornando-o politicamente passivo e recebedor feliz das conquistas do “Grande Líder” – o que não é espantoso, em se tratando de uma peça de propaganda política do PT, apenas porque, na verdade, não se trata mais de propaganda política do PT, mas do lulismo. Daí não haver qualquer referência ao partido em toda a letra. Daí haver, por outro lado, a repetição, o reforço e a reiteração do messianismo presente de um e do salvacionismo futuro da outra.
Segue, portanto, o jingle: “Lula tá com ela / Eu também tô / Veja como o Brasil já mudou / Mas a gente quer mais / Quer mais e melhor / É com a Dilma que eu vou”. Salvacionismo futuro, sim, mas devidamente restrito a um mesquinho “querer” que não oculta sua natureza de mero consumismo, tudo o que pode afinal oferecer uma política restringida e constrangida à economia (como se estivéssemos numa grande Suíça cujos problemas sociopolíticos fundamentais foram há muito resolvidos): “A gente quer mais”.
A quinta e última estrofe (desconsiderando sua repetição na versão cantada) abandona então pela primeira vez a aparição casada do original e da substituta, buscando afinal afirmar a própria: “É a mulher e sua força verdadeira / Eu tô com Dilma / Uma grande brasileira”. “Eu tô com Dilma”, portanto, porque ela representa a “verdadeira força da mulher”, o mais medíocre clichê do feminismo mais vulgar, e porque se trata, culminando tudo, de uma “grande brasileira”.
Resta apenas observar que além da ausência absoluta do PT, também há a ausência absoluta da própria política. Tudo se resume a “querer mais”, a “Lula fez por nós” e “Dilma também fará”, porque se trata não de um indivíduo com tal e qual dimensão e significado políticos, mas de uma “grande brasileira”. Tão grande que é a única capaz de seguir com a obra “salvadora” do atual “Grande Líder”.
Com seus terríveis clichês (“Vamos em frente”, “Brasil do povo”), seus não menos terríveis gerúndios (“Pra seguir mudando / Pra seguir crescendo”), suas rimas boçais (“Veja como o Brasil já mudou / É com a Dilma que eu vou”) e sua baixíssima chave retórico-discursiva, apoiada no tripé Brasil-amor/Lula-salvador/Dilma-Lula-de-saia, tudo articulado por construções frasais-pronominais que vão do ele-íntimo (“o Lula”, “a Dilma”) ao eu-envolvido (“Eu tô com Dilma”), o jingle da campanha de Dilma Roussef tem, porém, ao menos um grande mérito histórico-político: como um verdadeiro ato falho, ele ajuda enormemente a esclarecer a natureza do governo Lula. Tanto pelo que comporta quanto, principalmente, pelo que omite, o jingle é a mais perfeita síntese, em que pese seu caráter popularesco, daquilo que sempre disseram muitos de seus críticos, eu incluído: que a “era Lula”, dentro da trágica tradição história brasileira da modernização conservadora (mudar somente o necessário para manter todo o resto essencialmente intocado), reduziu-se afinal ao fortalecimento dos marcos macroeconômicos em um país cujos problemas principais e fundamentais há muito não radicam de fato na economia (pois há muito o Brasil é uma das maiores economias do mundo), mas na política transformada em mecanismo de sequestro de qualquer resquício de poder popular, em uma democracia formal que nega e afinal serve para negar a própria razão de ser da democracia liberal, servir de modo de acomodação, composição e compromisso entre o poder econômico e a cidadania através do exercício do poder político.
3. O outro texto
Para efeito de comparação, faço agora uma rápida análise do jingle de José Serra.EU QUERO SERRA
Serra porque é bom
Serra porque faz
Serra porque sabe
Como avançar mais
Serra porque é
Correto e boa gente
Serra porque é
O mais competente
Agora é Serra
Pra cuidar dessa nação
Agora é Serra
Pra cuidar da gente
Eu quero Serra
Não tem comparação
Eu quero Serra
Nosso presidente
Serra porque é
O mais preparado
Serra porque tem
Um caminho pro futuro
Serra porque sempre
Teve do meu lado
Serra porque eu quero
O melhor e mais seguro
Quero, eu quero...
Eu quero Serra
Em primeiro lugar, há uma evidente diferença de registro poético-gramatical. Quanto aos aspectos formais propriamente ditos, são aqui mais elaborados, em termos relativos, do que no jingle da campanha Dilma. Os versos são perfeitamente metrificados (em 5 sílabas na primeira estrofe, 4 e 6 na segunda, e outra vez em 5 na terceira), as rimas são menos pobres (faz/mais, tem/sempre), há a presença de enjambements (“Serra porque sabe / Como avançar mais”, “Serra porque sempre / Teve do meu lado”). Em termos gramaticais, e também semânticos, a letra não é mitificadora como a de Lula/Dilma, adotando então um tom mais neutro, simples e direto. E afinal absolutamente anódino. Pois o que esta peça de propaganda de Serra comunga afinal com a de Dilma é a radical despolitização, substituída pela personalização. Daí a letra ser estruturada sobre a repetição de seu nome transformado em anáfora: Serra porque isso, Serra porque aquilo, Serra porque aquiloutro. Sem poder ou querer, no entanto, apelar para o populismo messiânico, tal personalização acaba então por transformá-lo num produto bom, confiável, mas não exatamente especial, uma espécie de Bombril eleitoral: “Serra porque é bom”, “Serra porque sabe”, “Serra porque tem’’ mil e uma boas qualidades, sem, porém, que o resultado seja maior do que a soma das partes. Mas se isso o livra de ser populista e messiânico, é insuficiente para lhe dar qualquer densidade política. Mesmo porque, se a política em Lula/Dilma se resume à economia e esta afinal ao consumismo, em Serra o país se reduz a uma empresa, para a qual ele é o administrador mais indicado: “O mais competente”, “O mais preparado”, “O melhor e mais seguro”. Daí, afinal, se explica outra diferença entre os jingles: se o de Lula/Dilma apela para um nacionalismo vulgar e brejeiro (“Brasil querido”), para poder alternar evocações a Lula e Dilma como os salvadores, respectivamente presente e futuro, da pátria querida, o de Serra se centra e concentra no próprio nome do candidato tão somente para torná-lo alvo de uma chuva de adjetivos positivos, mas jamais superlativos, porque afinal honestos e realistas, como deve ser o bom administrador.
Resta a questão fundamental de que o Brasil, que não foi criado por Lula, e portanto tem uma longa história, uma longa história de fracassos, misérias, erros, iniquidades, injustiças, malfeitos, inépcias, malversações e puros absurdos (que somados explicam a histórica mediocridade relativa do país no “concerto das nações”, apesar da grandeza de suas dimensões), nem pode ser “salvo” pelo mero aumento do PIB, ainda que aliado ao crescimento das exportações e ao controle da inflação etc., nem simplesmente “bem administrado”. A reforma pela social-democracia, aliada a várias instâncias modernizadoras, transformou a Europa do capitalismo dickensiano do século XIX na Europa contemporânea. O Brasil, em pleno século XXI, é uma mistura desequilibrada de capitalismo dickensiano e modernidade européia, com ampla vantagem para o primeiro. Boias-frias analfabetos de chinelo, facão e fósforos para produzir antemedievais queimadas ainda são parte importante da paisagem humana do interior, apesar de toda a edulcorada propaganda oficial do horário nobre (ao lado de crianças trabalhadoras e de trabalhadores escravizados), enquanto a paisagem urbana é dominada por trabalhadores amontoados em mais do que dickensianas favelas. Segurança, saúde e ensino públicos são infames, enquanto a justiça é criminosa, por virtualmente inexistente em sua inoperância olímpica, porém os impostos, que resultam então em apropriação indébita pelo Estado, estão entre os mais altos do mundo. Enfim, se o que falta de fundamental ao país pode ser reduzido a uma palavra, esta não é nem economia nem administração, mas cidadania. Algo que de fato nunca houve neste país antes de Lula, mas tampouco passou a existir depois de seus dois mandatos. Porque não é algo que possa ser “feito pra gente”, mas ao contrário, pois passa pela eliminação tanto do populismo personalista e salvacionista (e economicista) quanto do tecnocratismo administrativo, e pela apropriação da política e suas várias instâncias de poder por grupos tão organizados quanto representativos de parcelas significativas da população e de suas diferentes mas afinal complementares demandas sociais.
4. Um texto diferente
A candidatura que disso mais se aproxima é, inquestionavelmente, a de Marina Silva. A diferença, fundamental, começa pelo fato de que ela não fez da política mera profissão. O político profissional tem, como móvel primeiro e principal, manter o emprego. Como esse emprego depende de escrutínios periódicos via eleições, fará de tudo para ser reeleito (Dilma jamais foi eleita, é verdade, mas porque trilhou o caminho interno do poder, aquele dos “quadros” partidários). Exemplo exemplar: como regra, ministros no Brasil deixam os cargos ou por suspeitas de malfeitos, ou para concorrer em eleições. Marina Silva deixou o governo Lula por impossibilidade de fazer seu trabalho, implementar uma política ambiental decente ou robusta (conforme explicitou em carta aberta), por desinteresse de Lula (e pelos consequentes atritos com Dilma Roussef, então chefe da Casa Civil, e cuja sensibilidade ambiental é a de um stalinista dos anos 1950). Marina Silva faz política por necessidade: a de levar o Estado a se tornar o grande fiador da preservação ambiental (ou seja, reavaliar e modernizar os modos e critérios do desenvolvimento econômico e também social), o que não corresponde a um interesse pessoal seu, tampouco de qualquer grupo econômico, mas sim a certa compreensão da realidade, que, compartilhada por um número significativo de pessoas, torna-a politicamente representativa dessa compreensão e dos que a compartilham. Daí seu jingle de campanha – ao lado do inevitável personalismo e do incontornável popularismo de uma eleição majoritária – ser o único a referir e sintetizar uma visão política e, também, uma visão de cidadania.MARINA SILVA
(Jean e Paulo Garfunkel)
Eu sou brasileiro, eu sou marineiro, eu sou marineiro
Marina, morena, como a pele do Brasil
Marina, guerreira, que lutou e conseguiu
Ser grande, ser forte, como é forte o cidadão
Que faz a sua sorte e constrói esta nação
Mulher verdadeira no que faz e no que diz
É sábia, serena, brasileira na raiz
Não verga, não quebra, não se entrega e não se rende
A luta é sem trégua, mas a Marina é valente
Salve os campos, cidades, matas, mares e rios
Salve urgente, o sonho da gente, salve o Brasil
Salve o sonho da gente, salve o Brasil
Eu sou brasileiro, eu sou marineiro, eu sou marineiro
Não será por acaso que a frase “É forte o cidadão / Que faz a sua sorte” seja o perfeito oposto da frase de Dilma “[Ela] Ajudou o Lula a fazer pra gente um Brasil melhor”. Pois as duas frases afinal sintetizam seus respectivos projetos políticos, como bem pretendiam os autores dos jingles: a de Marina prega uma cidadania forte que, para poder sê-lo, “faz a sua sorte”, ou seja, toma seu destino politicamente nas mãos, enquanto a de Dilma, como já observado, é a mais pura expressão do político populista e messiânico, “que faz pra gente um Brasil melhor”. Ao lado dessa defesa de uma cidadania forte, a letra também sintetiza seu móvel político: “Salve os campos, cidades, matas, mares e rios / Salve urgente, o sonho da gente, salve o Brasil”. Em lugar do “a gente quer mais” economicista-consumista de Dilma, seu triplo oposto: sai o indivíduo e entra o país; sai o consumismo e entra o preservacionaismo; sai o político que representa, ao fim e ao cabo, seu próprio projeto de poder e de seu grupo, e entra o que representa um ideário e os que o compartilham.
Nesse sentido, o fato de Marina Silva em princípio não poder vencer as eleições não serve consistentemente de argumento para não votá-la, pois neste caso não se trata simplesmente de escolher o administrador de turno, seja da economia ou da “máquina” estatal, mas sim de eleger, antes de um mandatário, um projeto político, que transcende qualquer conjuntura eleitoral – o que não é o caso dos demais candidatos: Dilma, se perder, encerrará no berço sua carreira eletiva, enquanto Serra, se não ganhar, a enterrará na cova de uma carreira em seu final (o grande senão da candidatura de Marina Silva não é portanto político, em minha opinião, como o é para os demais candidatos, mas pessoal: a importância da separação entre Estado e Igreja não pode ser exagerada, logo, não me sinto particularmente à vontade com uma candidata religiosa praticante – o que é bastante diferente da eventual expressão de uma fé qualquer de cárater meramente privado).


