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REPONDO O CAPITALISMO EM XEQUE


1. Uma oligarquia catastrófica

Com o colapso da URSS e o fim do “socialismo real”, certo refluxo perplexo da crítica ao sistema capitalista foi seguido pela desorientação generalizada da esquerda mundial. A crítica ao sistema tomaria então, a partir dos anos 1990, dois rumos principais: o primeiro, que atacava não mais o sistema em si, porém sua face mais evidente, a globalização, expresso no movimento conhecido como altermundialismo e centrado nos Fóruns Sociais, com seu slogan “Outro mundo é possível” – mas sem que tenha sido possível descrever esse mundo; o segundo, mais pragmático e pontual, centrado na questão ambiental, denunciando extinções, desmatamentos e poluições, sugerindo dimuição de emissões, reciclagem e o uso de energia limpa, e afinal ganhando densidade na questão do aquecimento global – porém na situação paradoxal de ver tudo encampado pelos governos, o que afinal resultou em cúpulas internacionais e impasses idem. O que fazer, afinal, se o sistema alternativo morreu, e se o sistema sobrevivente parece levar diretamente para a catástrofe?

Sim, catástrofe. Pois baseado nos melhores dados disponíveis, uma das hipóteses possíveis ou prováveis é que todo o problema ambiental contemporâneo convirja para a desertificação do centro do planeta:

A maior parte da superfície do globo será transformada em deserto. Os sobreviventes se agruparão em torno do Ártico. Mas não haverá lugar para todo mundo, o que gerará guerras, populações enfurecidas, senhores da guerra. Não é a Terra que está ameaçada, mas a civilização.

Quem o diz é James Lovelock, criador da conhecida hipótese Gaia. Lovelock é um cientista sério, e como tal reconhecido por seus pares. Não é portanto culpa sua se a metáfora da Terra como um organismo, formulada por ele décadas atrás, visando transmitir uma visão da interdependência dos sistemas biológicos quando isto ainda era novidade, foi depois transformada pelos miolos moles de plantão em “Terra viva”, versão new age da mais antiga das divindades, a Mãe Terra – que, na verdade, está mais para madrasta. Uma madrasta totalmente indiferente, incapaz de lançar uma lágrima pela morte provável de milhões de seus filhos mais ousados. Mesmo porque, estará seca.

O que fazer, então? Recomeçar do começo: pelo diagnóstico. Pois sem ele, nenhuma ação efetiva pode ser sequer esboçada. Eis o objetivo do conhecido escritor e jornalista ambiental francês Hervé Kempf em Como os ricos destroem o planeta, recém lançado no Brasil depois de respeitável carreira internacional (São Paulo, Globo, 2010), e no qual aparece a declaração de Lovelock (p. 10).

A hipótese de partida de Kempf pode ser expressa em poucas palavras: a crise ambiental é ainda mais grave, e portanto ainda mais urgente, do que se costuma reconhecer; ela não pode ser equacionada, ou seja, compreendida e muito menos resolvida, sem levar em conta sua causa central: o consumismo como ideologia, e a oligarquia mundial (sic) que o impõe, defende e sustenta.

Daí o livro denunciar, inclusive, o próprio “desenvolvimento sustentável”: “A única função real do ‘desenvolvimento sustentável’ é manter os lucros e evitar mudanças de hábito, apenas alterando um pouco o curso. Mas são justamente os lucros e os hábitos que nos impedem de mudar o curso” (p. 44).

Kempf, portanto, articula de forma direta e sintética a questão ambiental à questão sociopolíticoeconômica, apontando para a saída do impasse tanto do ambientalismo como do altermundialismo. O primeiro é insuficiente, apesar de tudo, ao se centrar nas consequências do sistema; o segundo é impotente ao criticar ideologicamente o sistema, sem conseguir apontar onde, por que e como ele é hoje tão perigosamente deletério. Em suma: sem a crítica social, o ambientalismo é manco; sem a urgência ambiental, o altermundialismo é cego. A tarefa revela-se ainda mais difícil. Por isso, e porque o fracasso implica no próprio fim da civilização (e não do meio ambiente), ainda mais urgente.

Kempf chega então à sua colocação central. Revisitando o clássico esquecido do final do século XIX, a Teoria da classe ociosa, de Thorstein Veblen, propõe uma interpretação e uma mudança do capitalismo de consumo contemporâneo que faz Marx parecer quase moderado (e o “socialismo real” ser tão questionável em seu produtivismo de Estado quanto o próprio capitalismo com seu produtivismo privado). Há uma oligarquia mundial (ou “nomenklatura capitalista”) isolada socialmente e hiperconsumista materialmente, mas principalmente criadora do modelo seguido pela longa cadeia de emulações que move as classes sociais a partir do momento em que suas necessidades fundamentais estão satisfeitas (se a miséria, a falta do necessário, não se relativiza, a pobreza, a falta do desejável, é sempre relativa a algum modelo do que seja a não-pobreza; de fato, seus parâmetros mudam de país para país). Como sintetiza o título de um dos capítulos, “A classe superior define o modo de vida de sua época”. Daí seu corolário: “A oligarquia incrementa a crise ambiental”. Pois esta é, fundamental e diretamente, resultado da produção, ou seja, do uso e da transformação dos recursos naturais. Kempf advoga então uma mudança brutal de paradigma, sintetizada em outro título: “Não é preciso aumentar a produção”.

A existência de uma casta de oligarcas, de uma camada social de hiper-ricos, não é, teoricamente, um problema. Pudemos observar, no passado, que a detenção do poder caminhava junto com a apropriação de grandes riquezas. [Porém] estamos em um momento muito específico da história, o século XXI, que coloca um desafio radicalmente novo para a espécie humana: pela primeira vez desde o início de sua expansão, há mais de 1 milhão de anos, ela se defronta com os limites biosféricos de seu prodigioso dinamismo. Viver este momento significa que devemos encontrar, coletivamente, os caminhos pelos quais guiar toda essa energia de forma diferente. Trata-se de um desafio magnífico, mas difícil. Ora, essa classe dirigente predadora e ávida, desperdiçando suas sinecuras, fazendo mau uso do poder, ergue-se como um obstáculo nesses caminhos. Ela não traz consigo nenhum projeto, não é levada por nenhum ideal, não emite nenhum discurso. A aristocracia da Idade Média era uma casta exploradora, mas não apenas isso: ela sonhava em construir uma ordem transcendente, de que são testemunhas as esplendorosas catedrais góticas. A burguesia do século XIX, que Marx qualificava de classe revolucionária, explorava o proletariado, mas tinha também o sentimento de estar difundindo o progresso e os ideais humanistas. As classes dirigentes da Guerra Fria eram levadas pela vontade de defender as liberdades democráticas diante de um contramodelo totalitarista. Mas hoje, depois de triunfar sobre o comunismo soviético, a ideologia capitalista não sabe fazer outra coisa que não festejar a si mesma. Todos os círculos de poder e de formação de opinião estão engolidos pelo seu pseudorrealismo, que considera impossível haver alternativas e que a única meta a ser perseguida para interferir na fatalidade da injustiça é aumentar cada vez mais a riqueza. Esse suposto realismo não é só sinistro, mas também cego. Cego diante do potencial explosivo da injustiça exposta. E cego diante do envenenamento da biosfera provocado pelo crescimento da riqueza material, envenenamento que significa a deterioração das condições da vida humana e a dilapidação das oportunidades que estarão à disposição das próximas gerações (pp. 97-8).

O desenvolvimentismo e o produtivismo são postos em cheque: pois se o título do último capítulo afirma não ser preciso aumentar a produção, seu texto argumenta que é imperativo diminuí-la. Taxas de crescimento devem ser lidas como aproximações à catástrofe, e substituídas por taxas de decrescimento.

2. Decrescimento econômico

Parece absurdo, à primeira vista. Mas apenas porque os paradigmas dominantes se transformam em ideologia, no sentido de crença política “naturalizada”. Neste caso, o crescimento indefinido da produção, sintetizado no crescimento do PIB, parece natural, entre outras coisas, porque a própria população não para de crescer. E também porque parece associado ao desenvolvimento qualitativo da civilização, evidente, por exemplo, nas conquistas tecnocientíficas, incluindo as médicas.

Começando pelo fim, tais conquistas nada têm a ver com a produção industrial. São o resultado de esforços pontuais de grupos de especialistas. Enquanto o aumento da população pode ser controlado. Isto já é verdade para a maior parte dos países ricos, em alguns dos quais a população na verdade diminui. E mesmo no Terceiro Mundo, o fim do crescimento só não é hoje maior por questões culturais. Por exemplo, entre a população muçulmana, que chega a um quinto da população mundial, com mais de 1 bilhão de indivíduos, a contracepção vai contra os princípios religiosos e as tradições sociais de grandes famílias patriarcais.

Mas talvez o maior obstáculo à aceitabilidade, antes ainda da aceitação, de tal contraparadigma decrescionista seja o fato de parecer apontar para a pobreza. Pois se a produção decresce, no limite, chegará a zero. Isto, porém, tampouco é verdade. Porque a parada do crescimento da produção e do consumo, e sua subsequente diminuição, devem ser acompanhadas de medidas de contenção de desperdício e de melhoria geral dos padrões de consumo, ou seja, de sua racionalização. Um artigo recente de Marina Silva coloca a questão de forma clara e pontual, tratando objetivamente da problemática hidrelétrica de Belo Monte:

Estão mais do que evidentes a complexidade e os riscos envolvidos na construção da usina hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, no Pará. [...] Vê-se o direcionamento de todos os instrumentos de políticas públicas para viabilizar um projeto estrategicamente ruim, caro e de altíssimo risco socioambiental. Enquanto isso, pouco se faz para reduzir perdas da ordem de 15% em energia no país, o equivalente a três vezes a capacidade média de Belo Monte. E o processo em curso aponta mais desperdício: Belo Monte terá uma produção energética efetiva bem menor do que sua capacidade total -4.428 MW, em função do regime hídrico do rio e da configuração do projeto, e não os 11.223 MW anunciados.
Surpreendem também as condições à disposição dos interessados em comercializar a energia gerada pelo rio Xingu. Tem-se R$ 13,5 bilhões em crédito subsidiado pelo BNDES, com prazo de 30 anos para pagamento, a juros de 4% ao ano. Isenção de impostos sobre os lucros, o comprometimento do capital de empresas estatais e de fundos de pensão e, de quebra, o absurdo comprometimento de licenciamento ambiental com prazo preestabelecido para a obra começar já em setembro. [...] Imaginem se todas essas condições excepcionais fossem para melhorias da eficiência do sistema elétrico e para redução da demanda por energia?
A política energética em curso é manca: apoia-se apenas no aumento da oferta sem investir na diversificação, na conservação e na gestão do mercado. Temos um sistema com elevadas perdas por desvio, manutenção precária e pouco incentivo para o uso de técnicas construtivas de maior eficiência energética (“Represa de erros”, Folha de S. Paulo, 29/04/2010) [grifos nossos].

É verdade que o final do artigo fala em “aumento da oferta de energia”, mas não, necessariamente, em aumento puro e simples de sua produção a qualquer custo: “Definitivamente precisamos expandir a oferta de energia, mas não necessitamos, para isso, manter a cultura do desperdício e comprometer o patrimônio ambiental e os recursos do país, quando temos alternativas de geração”.

Na realidade, a parada do crescimento e sua diminuição ameaçam apenas a lógica do lucro. Pois não há lucro crescente sem produção e consumo igualmente crescentes. Sem voltar às velhas estigmatizações religioso-medievais da usura, é impossível, hoje, equacionar a questão ambiental sem chegar aos fundamentos do problema, que não é mais tão somente a poluição desse ou daquele tipo de produção ou de produto, mas a produção em si, cujo móvel primeiro é o lucro. Mais exatamente, o crescimento indefinido do lucro – que não pode ser obtido sem um aumento da produção (mais ainda que o da produtividade), pois é esse aumento que gera mais produtos a partir do capital investido, ou imobilizado, produtos cuja comercialização aumentará então o retorno desse capital. Os produtos novos, impondo sua substituição, completam o quadro.

Além disso, há o fato de que toda a contabilidade capitalista é falseada. Ela é falseada porque não incorpora entre seus custos os custos ambientais. Se estes são computados, e também computadas todas as ações públicas relacionadas diretamente ao consumismo, como a coleta de lixo e sua destinação, além de outras incontáveis iniciativas, como a oferta crescente de água etc., o que se constata é, de um lado, um involuntário “subsídio” pelo meio ambiente natural, e de outro, um subsídio estatal generalizado indireto de toda a atividade econômica. E como o meio ambiente natural é patrimônio comum, e como o dinheiro do Estado é dinheiro da população concentrado via impostos, a própria população subsidia parte importante dos lucros. E se parte dos lucros é por ela subsidiada, essa mesma população tem o direito de questionar tal subsídio, logo, tal escala ou tipo de lucratividade.

3. Capitalismo verde

Isto de fato já está sendo feito, principalmente na Europa. O resultado em relação à produção e ao consumo responde pelo nome de empresa verde, objeto do importante livro homônimo de Élisabeth Laville (São Paulo, Õte, 2009). A empresa verde, o livro, é eventualmente ingênuo no estilo ocasionalmente entusiasmado da autora, mas a extensão de sua descrição do fenômeno, a quantidade e a qualidade de suas informações e o pragmatismo de seus exemplos tornam o livro imprescindível para a compreensão do caminho necessário (o que não implica em ser necessariamente implementado) para a reforma do capitalismo de consumo contemporâneo. No mínimo, empresários, administradores públicos, políticos, acadêmicos e intelectuais em geral têm a obrigação de lê-lo; trata-se, afinal, da questão mais fundamental da época.

A empresa verde nada tem a ver com a empresa “esverdeada”, que emprega o que o livro refere como greenwashing (ou “esverdeamento”), por semelhança com a “lavagem” de dinheiro do crime organizado. Se neste caso o dinheiro apenas parece “limpo”, no outro a empresa apenas parece “verde”, ao adotar um ou outro cuidado ou atividade compensatória que ao fim e ao cabe serve apenas para melhorar e modernizar sua imagem. A empresa verde verdadeira trabalha considerando a totalidade dos custos ambientais da cadeia produtiva envolvida em sua atividade, incluindo, verticalmente, da obtenção dos insumos primários até o fim do uso dos produtos, ou seja, o destino final de seus produtos quando descartados, e, horizontalmente, os custos ambientais das empresas cujos produtos e serviços integram sua cadeia de produção, distribuição, divulgação e comercialização. Em suma, todas as práticas da cadeia de produção e consumo têm de ser consideradas e reconsideradas (elucidativamente, o livro é dedicado, em sua maior parte, à descrição das atividades de empresas verdes pioneiras européias e norte-americanas, bem como ao difícil processo de mudança de algumas delas, que pressupõe, antes de mais nada, uma dificílima mudança de paradigma produtivo). A profunda reforma do capitalismo que isto implica inclui, no limite, que muitas atividades simplesmente não poderão ser reformadas.

Tive um insight a respeito com um disco de pizza. A aparente banalidade extrema do fato demonstra a capilaridade do problema, ao mesmo tempo em que serve para ocultar sua enormidade. Tratava-se de comprar os ingredientes prontos para montar uma pizza em casa: ela seria, portanto, feita de um disco de massa, de mussarela fatiada e de molho em lata. Deixando o molho de molho, o problema começou a tomar forma pela quantidade de plástico literalmente envolvida. Pois o disco de massa estava envolto por um plástico fino, por sua vez envolto por outro mais espesso e todo impresso a cores, com a marca da massa, suas qualidades, seus ingredientes, endereços de origem, valores nutricionais etc. Já o queijo, além de pré-fatiado, também era interfolheado, ou seja, tinha uma camada de plástico abaixo de cada fatia. Portanto, quanto ao queijo, o uso de uma fatia de poucos centímetros quadrados implicava na eliminação de um pedaço de plástico de igual tamanho, destinado automaticamente ao lixo. Tal pedaço de plástico, portanto, foi fabricado e acrescido ao meu lixo tão somente para eu não ter o trabalho de separar com meus dedos aquela fatia de queijo. O disco de pizza não era menos absurdo. Porque para ele chegar até minha cozinha foi necessário construir uma fábrica de massa e alimentá-la com água, energia e insumos diretos, como a farinha, transportada por caminhão, o que demanda a construção de vias de acesso e o consumo de petróleo. Além disso, sua embalagem implica na existência de uma fábrica de filmes plásticos e de outra de tintas, para imprimir esse filme plástico, com suas demandas por matérias-primas e energia e seus custos ambientais, e também no transporte do filme plástico para a impressora e da impressora para a fábrica de massas, bem como na fabricação e no transporte até ela das caixas de papelão, usadas apenas uma vez para transportar alguns poucos discos de pizza a um dado supermercado, onde a caixa será imediatamente aberta e transformada em lixo, por sua vez recolhido por caminhões específicos, destinados aos lixões. Em lixo também serão transformadas as duas embalagens plásticas abertas na minha cozinha para, afinal, expor um mero disco de massa, nada mais do que farinha, água e o pouco trabalho para misturá-las. Não por acaso, é justamente o que faz o pizzaiolo da esquina. Ou eu mesmo, se quiser. Mas se o produto que envolve toda essa enorme cadeia produtiva, um mais do que banal disco de massa, pode ser manufaturado sob demanda na própria localidade onde será consumido, e com pouquíssimo trabalho, não há reforma dessa cadeia produtiva que possa justificá-la, pois qualquer custo ambiental será excessivo, por desnecessário. No limite, a produção industrial de discos de massa deveria ser simplesmente proibida. Assim como, naturalmente, inúmeras outras atividades, devido à constatação de sua incontornável irracionalidade ambiental. O que por sua vez implicaria numa sociedade que votasse em partidos capazes de legislar pela proibição de inúmeras atividades produtivas (neste sentido, o arcaísmo ideológico de Lula, Dilma e cia., com seu tardodesenvolvimentismo conservador e pró-consumo, não pode ser exagerado: eles estão inteiramente aquém das principais questões da época, às quais são virtualmente cegos; o mesmo vale para a maior parte da esquerda, para não falar da direita – ambas se revelam então igualmente conservadoras).

Voltando a Lovelock e sua previsão da desertificação das regiões equatoriais do planeta como resultado possível ou provável da crise ambiental difusa e generalizada, com o consequente colapso da civilização, a questão que se coloca não é mais a mera diminuição dos impactos ambientais dessa ou daquela atividade, ou a adoção de medidas compensatórias. Por mais rica que a China se torne, seus 1,5 bilhão de habitantes não poderão montar pizzas pré-fabricadas em casa. Tampouco ter seus próprios carros na garagem, ou mesmo comer ovos todos os dias. Já foi acuradamente calculado que, para isso, a quantidade de milho necessária a fim de alimentar as respectivas galinhas demandaria toda a área agriculturável do planeta. Mas se o problema não se limita, portanto, às pizzas, tampouco se limita aos chineses. Ele é intrínseco ao consumismo, logo, ao produtivismo, da sociedade contemporânea. No limite, a opção será entre o fim do capitalismo de consumo e o fim da civilização. Os dois não poderão subsistir indefinidamente. Sequer por muito tempo.

4. Capitalismo racional

Somando a crítica de Kempf à lógica do consumo e do crescimento econômico à defesa de Laville da empresa verde, o resultado não chega, porém, a uma nova utopia, ou seja, a concepção teórica e ideológica de um novo sistema, o que levaria à constituição de grupos políticos com o objetivo de tomar o poder para implementá-lo, começando pela supressão ou superação do capitalismo contemporâneo. Tampouco se trata da defesa de qualquer primitivismo, a volta a uma vida artesanal e pré-industrial, com a consequente miserabilização de milhões. Mas se não se trata de socialismo ou outro ismo, porque não se preconiza a ditadura econômica do Estado ou de quem quer que seja, e se não é uma volta às cavernas, tudo resulta, afinal, em produção e na propriedade privada de seus meios, ou seja, em capitalismo. Porém um capitalismo em que a livre-iniciativa é muito menos livre. E não apenas pela proibição de várias atividades produtivas, como as pobres rodas de pizza, mas pela incorporação generalizada de procedimentos ambientalmente corretos obrigatórios.

A crítica liberal clássica a qualquer reforma radical nesse sentido afirma que, sem a liberdade do lucro, não há investimento, e sem investimento, não há produção. Mas isto é verdade apenas dentro dos parâmetros capitalistas tradicionais. E dos limites de um argumento circular: pois não há investimento sem garantia, não de lucro, mas da possibilidade de busca pelo lucro máximo, apenas quando o móvel do investimento é tão somente a busca maximizada do lucro. Porém a reforma radical aqui preconizada – reforma radical de fato, uma vez descartada a revolução, a mais radical das reformas – parte em primeiro lugar do questionamento da própria formação do lucro clássico, que se revela subsidiado pela ocultação do custo ambiental. E uma vez que a própria estrutura do lucro capitalista tradicional pode ser questionada com base na incorporação dos custos ambientais, não apenas o lucro está sob questão como o custo ambiental torna-se parte necessária da equação.

As consequências são enormes. Pois não se trata de simplesmente incorporar um novo custo ao cálculo do lucro líquido, mesmo porque não há gasto financeiro em si na geração de poluição ou na destruição de meios ambientes. Nem se pode simplesmente diminuir os impactos ambientais, como defendido pelo “crescimento sustentável”, porque diminuir os impactos de cada ação produtiva é na verdade apenas diminuir a aceleração da destruição ambiental gerada pelo crescimento econômico. Daí o próprio crescimento econômico ser questionado. O que implica na diminuição do consumo, que passa então por sua racionalização – o que por sua vez implica, entre outras coisas, no fim da publicidade como hoje praticada, baseada no estímulo irracional ao consumo.

Aqui se chega a uma formulação mais precisa: trata-se, ao fim e ao cabo, de uma racionalização radical do capitalismo, em tudo distinta da pseudorracionalidade capitalista atual, cuja racionalidade mercadológica se ergue sobre a base irracional da eficiência produtiva em si mesma e do crescimento indefinido.

O questionamento do capitalismo se deu classicamente pelo duplo caminho da reforma versus revolução. Enquanto esta redundou no capitalismo de Estado, em que os meios e modos de produção e o crescimento econômico são indistintos do capitalismo privado, aquela se dedicou a mitigar politicamente as consequências sociais da relação de força desequilibrada entre capital e trabalho. Jornada de trabalho, condições de trabalho, valor do salário, férias remuneradas, aposentadoria, participação nos lucros. Se isso foi capaz de transformar as condições dickensianas do capitalismo do final do século XIX no capitalismo socialmente mais justo do fim do século XX (ao menos nos países centrais), esgotou seu potencial de mudança pela própria vitória de sua pauta limitada de reformas essencialmente trabalhistas. Diminuir ainda mais a jornada de trabalho ou o tempo para a aposentadoria, aumentar a participação trabalhista nos lucros ou a representação na diretoria da empresa não mudará significativamente o capitalismo atual. E ele precisa ser significativamente mudado, pois se não há um sistema alternativo no horizonte histórico, tampouco sua manutenção é suportável.

Excluída a revolução e extinto o potencial reformista via relações capital-trabalho, é da relação capital-meio ambiente que um novo ciclo de reformas tem necessariamente de vir. Com a diferença de que seu potencial reformista é muitíssimo mais radical do que o reformismo social-democrático clássico. Pois o capitalismo racional (à falta de outro nome menos ruim), à diferença do capitalismo de consumo, é aquele em que não somente o lucro se torna um dos móveis, entre outros, da produção (além de ser condicionado a vários outros fatores), mas também aquele em que o crescimento não é uma meta em si.

Por que, então, alguém produziria? A empresa verde está repleto de exemplos de empreendimentos motivados por outros fatores além do lucro. Em todo caso, mesmo no capitalismo atual, o lucro não é sempre o único móvel. Ninguém abre uma fábrica de salsichas porque quer produzir salsichas, mas porque quer lucrar com a venda de salsichas – que poderiam, então, ser carros ou batatas fritas. No entanto, ninguém funda uma editora porque quer lucrar com a venda de livros, e sim porque quer produzir livros, sendo o lucro e a capacidade de investimento um dos meios de realização do negócio. No caso da produção industrial de salsichas, o lucro é o objetivo, e a produção de salsichas apenas o meio; inversamente, na produção de livros, a produção de livros é o próprio objetivo, e o lucro um estímulo a mais e um meio. O novo capitalismo inverteria a posição relativa dos dois empresários-tipo: enquanto hoje o produtor de salsichas é o modelo e o padrão, e o produtor de livros uma quase curiosa exceção, este se tornaria o padrão e o modelo, e aquele seria extinto (o empresário-salsicheiro, bem entendido, não as salsichas...).

Uma das inúmeras consequências de tais mudanças é a diminuição da oferta (tanto de tipos de produtos quanto da quantidade do que é produzido, pelos limites de uma produção ambientalmente correta), o que tradicionalmente leva ao aumento dos preços. Mas como se trata também da diminuição do consumo, fruto de uma mudança de comportamento, as consequências não são, na verdade, aquelas do capitalismo clássico.

A diminuição de consumo por mudança de comportamento é hoje um fato relativamente comum. A diferença é que isso se dá, fundamentalmente, por questões de saúde. É o caso da constante diminuição do consumo de tabaco no mundo ocidental, assim como do consumo direto de açúcar (apesar de anulado pelo incremento do consumo via alimentos industrializados).

O caso da indústria tabagista é exemplar (daí ser o tema da introdução do livro de Élisabeth Laville). Após décadas de resistência feroz da indústria, os malefícios do cigarro tornaram-se inquestionáveis, o que redundou em mudanças nos produtos, mudanças nas embalagens, mudanças na publicidade e mudanças nos padrões de consumo. Também redundou em aumento de preços e em diminuição dos lucros, inclusive pelo aumento de impostos, determinado não por razões mercadológicas, mas sanitárias, ou seja, desestimular o consumo e investir em saúde pública relacionada aos males do cigarro. E no entanto a indústria tabagista não morreu. Pois ainda há lucro suficiente, apesar de sua diminuição relativa.

A racionalização radical do capitalismo significa, de certo modo, transformar a situação de exceção da indústria do tabaco em regra. Sua generalização (e intensificação) resultará na mais profunda mudança na sociedade capitalista desde a Revolução Industrial. Pois assim como hoje se fuma menos (e melhor, pois algumas substâncias foram proibidas), e não mais do que antes, como resultaria da lógica do consumismo aplicada ao tabagismo, tudo seria menos consumido – e mais utilizado. Produtos mais duráveis supririam uma sociedade em que o ato de consumir, de ir às compras, de sacar o cartão de crédito, e principalmente, de desejar novos produtos e serviços (inclusive de “entretenimento”), não mais estaria no centro das ocupações e preocupações, tanto cotidianas quanto existenciais. Trata-se, ao fim e ao cabo, de uma verdadeira revolução cultural. Cujo advento não é impossível, mas bastante improvável. Tanto quanto, então, a sobrevivência do que chamamos de civilização.