IRÃ: POLÍTICA ATÔMICA OU IDEOLOGIA NUCLEAR?
A alternância entre idealismo revolucionário e realismo político foi uma constante nessas três décadas [de regime] e torna difícil para os demais países saber como tratar com a República Islâmica. (El País)

Sabemos do que é feita a política: interesses. Todos os tipos de interesses, todas as dimensões de interesses, mas interesses. A única delimitação é serem todos interesses políticos. Isto parece um truísmo, ou um argumento circular, mas não é. A política é feita de interesses, e esses interesses são políticos, no sentido definidor de não serem privados (daí a antipolítica, ou pseudo-política, ou política apequenada, ser aquela que se utiliza de instrumentos públicos, ou políticos, para defender interesses privados, como é constante no Brasil). Fazer política parece ser, em todo caso, fazer parte de um clichê: o “jogo de interesses”.
Esse clichê, porém, mantém ainda bastante potencial informacional. Basta mudar a forma da preposição: fazer política é jogar o “jogo dos interesses”. O exemplo comum é o do político igualmente comum: seu papel é defender a convergência entre seus próprios interesses e os daqueles que o apóiam – que se dividem, por sua vez, em três grupos: o de seus partidários, o de seus financiadores e o de seus eleitores (comumente nesta ordem). Daí a diferença entre o político e o estadista: este retira do jogo seus interesses pessoais – a começar dos político-eleitorais –, e os substitui pelos interesses nacionais. Estadistas, compreensivelmente, são raros. Felizmente, também são raramente necessários. Parafraseando Brecht, triste do país que precisa de estadistas (pois seus problemas têm, então, uma dimensão que está além das capacidades – e dos interesses – dos políticos comuns, caso da África do Sul de Mandela, da Índia de Gandhi ou da Inglaterra de Churchill).
Menos conhecida é a diferença entre o político e o ideologista. Uso este neologismo porque não se trata, de fato, de um ideólogo – pois um ideólogo é, denotativamente, o criador ou o propagador de uma ideologia. E aqui se trata de alguém movido por uma ideologia. A diferença é fundamental. Pois embasa a própria diferença entre o político e o... ideologista. O político move-se por interesses; o ideologista move-se por crenças.
Tal diferença pode, e na verdade deve, ser projetada para o próprio Estado. Como se sabe, os Estados, assim como os políticos (não por acaso), têm interesses, e somente interesses. Isto quer dizer, em primeiro lugar, que Estados não têm amigos. Mas também quer dizer que Estados não têm crenças (nem inimigos: em seu lugar existe o concorrente – assim como no lugar do amigo há o parceiro). O que é muito bom: pois interesses são negociáveis, crenças não o são. Daí os Estados serem, como regra, entidades negociadoras por natureza. Do comércio à diplomacia, tudo são negócios e negociações. Há, porém, uma exceção: o Estado ideológico.
Em tempos recentes, a China de Mao era um Estado ideológico (enquanto a China de Deng era – e é – um Estado político); a URSS era um Estado ideológico (enquanto a Rússia é um Estado político); o Reich era um Estado ideológico (enquanto a Alemanha é um Estado político). A tragédia do século XX foi, em grande parte, a grande e grandemente incomum concentração de Estados ideológicos. A Primeira Guerra foi uma guerra política; a Segunda, uma guerra ideológica (naturalmente, o capitalismo, que embasa a maioria das ações dos Estados políticos, além de um sistema econômico, é também uma ideologia, principalmente no sentido de ser uma construção histórica que se “naturaliza”, passando a parecer necessária ou inevitável; seus agentes, porém, são “marxistas”: para eles importa apenas a economia, isto é, o interesse, outro nome do investimento).
O Estado ideológico não é, na verdade, uma mera exceção, mas uma exceção completa: exceção quanto à regra geral do Estado, exceção no tempo e exceção no espaço. Isto é, na história e na geografia.
Se o jogo dos interesses pode eventualmente tornar-se um jogo mortal, o confronto de ideologias ou crenças (a ideologia é uma crença política) pode se tornar devastador – e não apenas eventualmente. Pois é da natureza das crenças serem inegociáveis.
Na esfera privada, isso se traduz no dito popular segundo o qual “religião não se discute”. Porque discutir é negociar argumentos. Mas como negociar argumentos quando o objeto da negociação é uma crença? Na esfera política, em que a crença ou ideologia se funde ao poder, a dificuldade ou impossibilidade de negociar argumentos redunda facilmente no confronto.
Estados ideológicos, na verdade, não podem existir sem inimigos. Se Estados políticos nunca têm amigos – porque têm apenas interesses –, Estados ideológicos têm sempre inimigos: pois sempre existem os que negam, desdenham, ameaçam, ignoram ou não compartilham suas crenças. Daí os Estados ideológicos estarem perpetuamente em guerra (Estados políticos, apenas eventualmente). Quando parecem não estar em guerra, é porque estão combatendo o “inimigo interno”.
O paradigma do Estado ideológico é a França da Revolução. O Terror foi sua guerra contra o “inimigo interno”, enquanto as campanhas napoleônicas foram sua guerra contra os inimigos externos. Todo Estado ideológico tem seus equivalentes ao Terror e às campanhas napoleônicas. O exemplo mais evidente é a URSS, com os “processos” de Moscou e o gulag, de um lado, e a Guerra Fria de outro – que somente não esquentou porque isto redundaria em pura e simples extinção nuclear. Estados ideológicos não se movem exclusivamente, necessariamente e sequer prioritariamente por interesses, mas nem por isso são suicidas.
Pode-se portanto inferir que os Estados ideológicos só não fazem a guerra quando não podem: ou porque serão destruídos, ou porque são muito fracos. Neste caso, limitam-se então a combater o “inimigo interno”. Os exemplos são incontáveis. Na verdade, são tantos quantos forem os Estados ideológicos fracos, como a Espanha de Franco, o Camboja de Pol Pot, o Afeganistão dos talebans (o 11 de Setembro, aliás, pode ser compreendido como uma ação bélica heterodoxa de um Estado ideológico fraco, empreendida assim que o combate ao “inimigo interno” – os grupos rivais da guerra civil e os hábitos seculares da população – havia sido vencido).
O Irã dos aiatolás é, igualmente, um Estado ideológico (o que explica sua beligerância perpétua com os EUA, assim como foi perpétua a beligerância da URSS – demonstrando ser determinante, não a ideologia em si, mas o ideologismo). Porém os demais Estados muçulmanos são políticos – graças a Deus (caso contrário, o mundo talvez sequer sobrevivesse).
Isso inclui o próprio Paquistão, atualmente o mais problemático dos Estados muçulmanos. Porque o Iraque é um caso especial. Porque o Afeganistão é um caso em resolução. E porque o Paquistão é um poder nuclear, além de alimentar um contencioso geopolítico – a Caxemira – com a Índia, e abrigar grandes grupos jihadistas, tanto fora quanto dentro do aparelho do Estado.
O mundo, porém, convive há anos, em relativa tranquilidade, com a bomba paquistanesa, apesar mesmo dos grupos jihadistas e do contencioso com a Índia. Porque o Paquistão é um Estado político. Daí sua bomba ser, antes de mais nada, estatal. Ou seja, um instrumento bélico a serviço dos interesses do Estado.
Mas se o mundo pode, apesar da quantidade e da qualidade dos problemas do Paquistão, conviver com uma bomba paquistanesa (ao menos enquanto a natureza do Estado paquistanês não mude), não pode, e com certeza não deveria, conviver com uma bomba iraniana (talvez o maior e mais complexo desafio da política externa de Barak Obama, além de o maior e mais complexo desafio da geopolítica do Oriente Médio depois da própria questão palestina – que a bomba iraniana, por sua vez, aumenta e complexiza ainda mais). Pois Paquistão é, ainda e apesar de tudo, um Estado político. Enquanto o Irã é um Estado ideológico. A bomba iraniana, se acaso afinal existir, será portanto, não somente uma bomba iraniana, mas igualmente uma bomba islâmica.
É verdade que não existem Estados puramente ideológicos. É verdade que o Irã tem reais interesses defensivos – afinal, Estados ideológicos estão sempre na defensiva, do mesmo modo que sempre estão na ofensiva, seja interna ou externamente – além de outros, como o domínio tecnológico e a predominância no mundo muçulmano em geral e no Oriente Médio em particular. É verdade, ainda, que a bomba norte-coreana – e a Coréia do Norte é um Estado ideológico – era um instrumento de barganha, visando conquistar um pacto de não-agressão com os EUA – o que também vale, parcialmente, para a almejada bomba iraniana. Mas também é verdade que a Coréia do Norte é um Estado ideológico muitíssimo fraco, que portanto se contenta em combater o “inimigo interno” – não é por acaso que sua população está literalmente morrendo de fome. Assim como é verdade que, além de muito mais forte do que a Coréia do Norte, tanto em termos econômicos como geopolíticos como populacionais, o Irã é, acima de tudo, um Estado ideológico.
Ideológico também é o terrorismo islâmico (ou horrorismo, segundo Martin Amis). Enquanto o terrorismo clássico era político. Tinha por objetivo convencer que o não-reconhecimento das reivindicações – ou dos interesses – dos terroristas não valia seu preço em sangue. Seus alvos habituais eram, portanto, agentes políticos senso lato, de militares a administradores. O terrorismo islâmico, sendo ideológico, não tem objetivos definidos (por seus interesses), logo, ataca e mata indiscriminadamente, com o maior poder de destruição possível, porque é um fim em si mesmo. Esse fim é a rendição ou, caso contrário, a destruição dos “inimigos de Deus” (como chamados internamente pelos radicais islâmicos).
Numa carta atribuída a Bin Laden, de 2002, estão listados os 7 pontos principais da Al Qaeda em relação aos EUA. “Deixar de apoiar Israel na Palestina” aparece apenas em quarto lugar. “Encerrar seu apoio aos líderes corruptos em nossos países, não interferir em nossas políticas”, em sexto, isto é, em penúltimo! Enganam-se portanto os ingênuos (e os mal intencionados) que insistem na explicação/justificação política do terror islâmico. Pois este não é uma reação “exagerada” a qualquer ação norte-americana ou ocidental. O primeiro item dessa lista é, na verdade, “aceitar o islã” (o segundo refere-se a costumes “imorais”). O terror islâmico mata e destrói indiscriminadamente, em atos de selvageria, barbárie e desumanidade, não porque busque a justiça para atos de agressão, exploração e injustiça – o que seria infame –, mas porque sua luta é escatológica, não política.
O terror islâmico em particular (que inclui o Hamas em Gaza e o Hizbolah no Líbano, apesar de seu status político local) e o fundamentalismo islâmico em geral (que inclui um percentual maior do mundo muçulmano do que muitos estão dispostos a reconhecer) são ameaças reais ao que entendemos por civilização. Qualquer engano quanto a isso só faz fortalecê-los. O que inclui, naturalmente, a existência de uma bomba iraniana. Não porque terroristas irão usá-la. Sequer porque o Irã irá usá-la. Mas porque sua mera existência fortalece enormemente o Irã, o que por sua vez fortalece os grupos terroristas islâmicos a ele ligados – por interesses e por ideologia..


