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A natureza sexy

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Sérgio Medeiros nasceu em Bela Vista (MS) e hoje vive em Florianópolis (SC). Traduziu o poema maia Popol Vuh e publicou Mais ou menos do que dois, Alongamento e Totem & Sacrifício (edição bilíngüe espanhol-português), livros de poesia. Leciona literatura na UFSC.



Mariana Filgueiras: Como começou a pesquisa para o livro O sexo vegetal (Iluminuras, 2009)?

Sérgio Medeiros: O livro é consequência de meus livros anteriores: Mais ou menos do que dois (São Paulo, Iluminuras, 2001), Alongamento (Cotia, Ateliê, 2004), e Totem & sacrifício (Assunção, Paraguai, Jakembó, 2008), edição bilíngue espanhol-português. Nesses três livros pratiquei a literatura como posto de observação, ou seja, a literatura é, em todos, o lugar de onde posso ver o mundo. Então são livros visuais, imagéticos, abusivamente até. Neles, a linguagem do “como” (o símile, a comparação) é fundamental. Uma coisa é igual a outra coisa sempre, em todos os meus textos. É assim que consigo descrever o mundo, sentado ou em pé no meu posto de observação – o verso, poema em prosa, “nova narrativa” etc. Então, de repente, percebi que a linguagem do “como” (usada por escritores que admiro muito, como José de Alencar, Clarice Lispector e João Cabral, entre outros) era um tipo de “sexo”. A comparação pressupõe, parece-me, contato, conexão, por meio dela as superfícies heterogêneas se tocam ou querem se tocar. De repente, então, nasceu o sexo vegetal, ou minha intuição de um possível sexo vegetal, que posso definir, agora, provisoriamente, como uma maneira de fazer a língua do “como” (meu posto de observação poético) alcançar novos horizontes (palavra que aprecio).

MF: Por que evitou o sexo animal, como explica no livro? O tema também é seu objeto de pesquisa?

SM: Quis começar com o sexo vegetal porque, segundo os mitos ameríndios – penso, por exemplo, no poema maia “Popol Vuh” (São Paulo, Iluminuras, 2007), que eu mesmo traduzi para o português, com o auxílio do americanista Gordon Brotherston –, as árvores surgiram antes dos homens. Então pensei comigo mesmo que podia fazer uma glosa mítica, comentando começos – o instante em que as plantas acolhem (ou expelem) os homens que estão aparecendo no mundo. O meu novo livro é, assim, um livro que fala de começos, é um elogio do começo. Quando penso no começo, assumo outra posição na história do mundo e olho com olhos primitivos ou selvagens o capim, a árvore, a fruta etc. É como se momentaneamente eu retrocedesse ao instante da cosmogonia. Mas faço isso com humor, “nonsense”, não é o regresso místico ao instante inicial, à origem. É sempre um jogo, uma experiência cosmogônica possível ou viável nos dias de hoje e que está ao alcance de qualquer um. Por isso afirmo, logo no início do livro: “O sexo vegetal é uma cosmogonia. Uma humilde (re)criação do mundo”. Aí estou dizendo que cada vez que eu roço num galho, por exemplo, posso estar (re)criando o mundo. Daí também a importância do “décor”, do cenário, nesse livro: junto a cada história, ou glosa mítica, vem um cenário, um mundo vegetal que ora exclui, ora inclui o homem. Assim, o livro O sexo vegetal é, como todo texto meu, híbrido, duplo, mais ou menos do que dois: compõe-se de pequenas aventuras cosmogônicas, protagonizadas por figurantes humanos em várias regiões do país, e de muitos cenários (quase) vazios, inumanos, que são deixados à margem da narrativa, como para lembrar que o nosso mundo nos obrigará à recriação do mundo, nesse novo cenário que comenta, amplia ou nega o cenário da aventura precedente. Meu próximo livro, aliás, vai se chamar “Figurantes”, e, pelo que sei, descreve seres pós-inumanos, antes ou depois do homem atual. Já descrevi centenas desses figurantes, sei que eles proliferam facilmente, mas ainda não entendi o seu acasalamento. Não pude ainda apreender, do meu posto de observação, as suas práticas sexuais. Assim, o obscuro sexo pós-inumano é o meu novo tema. Não entrei no humano, mas já vislumbro, talvez, algo que está além do homem.

MF:Qual seria uma representação contemporânea dos mitos ameríndios? Você citaria outros?

SM: Para mim, a representação contemporânea da mitologia ameríndia é a obra de Lévi-Strauss, esse grande recriador dos mitos das Américas. A sua obra História de Lince, que cito no meu livro, é fundamental nesse sentido: ela reconta em suas páginas centenas de mitos, de forma sucinta e vibrante, relacionando vertiginosamente uns com os outros. Os antropólogos mais jovens têm também muito a dizer sobre os contatos possíveis e impossíveis entre humanos e inumanos, citarei Philippe Descola e Eduardo Viveiros de Castro, dois especialistas em perspectivismo amazônico, a ciência dos xamãs. Outra referência é o conto “Tantalia”, do escritor argentino Macedonio Fernández, que descreve a relação difícil de um homem com um trevo. Eu cito isso no meu livro. O trevo é um parceiro complexo, poderoso. Falo no livro que o trevo argentino é, ou poderá ser, também sádico. Para mim, isso sim é uma recriação atualíssima do sexo vegetal indígena: uma contiguidade intensa, não necessariamente uma cópula, um ato sexual consumado ou perverso. Encontro também muito sexo vegetal na música de John Cage, em que galhos e ramos se agitam, emitem sons, viram música ao serem tocados pelo compositor ou por músicos profissionais e amadores. Aliás, toda música, mesmo a de concerto, aquela mais tradicional, pratica o sexo vegetal. Não é possível música sem a madeira, pelo menos a música que aprecio. Assim como não é possível música experimental sem o canto dos pássaros: a obra de Olivier Messiaen, mestre de Pierre Boulez, é um exemplo disso. Voltando, porém, à literatura, outro texto magistral, que me influenciou muito, é “Comment une figue de paroles et pourquoi”, de Francis Ponge, que descreve em centenas de páginas a incrível relação de um homem com um figo seco. O homem fica olhando e apertando o figo. Isso é bíblico, mais que indígena. Como sabemos, Eva no Paraíso mordeu um figo e não uma maçã, segundo especulações atuais. No meu livro cito as duas coisas: a maçã e o figo, brinco com essa incerteza, e passo do mito ameríndio para o mito bíblico e vice-versa. Mas também cito, no livro, já na epígrafe, o mito grego (e latino), tão cheio de sexo vegetal. E o mito japonês. Homenageio no meu livro, por exemplo, a bananeira que aparece nos haicais e que dá nome ao maior poeta japonês, justamente Bashô, Bananeira, se quisermos traduzir seu nome para o português. Eis aí um caso interessante de sexo vegetal oriental que parece muito indígena. Bashô é filho e pai da bananeira, e decerto marido também. Quando morreu, plantaram uma bananeira sobre o seu túmulo.

MF:Quais estudiosos dos mitos indígenas identificaram/registraram o sexo vegetal?

SM: Ninguém o registrou tão bem quanto Lévi-Strauss. É o Ovídio das Américas. Descola e Viveiros de Castro também oferecem dados preciosos sobre o papel do inumano na vida afetiva dos indígenas. Mas não devemos ficar só na antropologia; Clarice Lispector e Maria Gabriela Llansol, a escritora portuguesa falecida recentemente, também entendiam do tema e são profundamente indígenas, mesmo não o sendo na aparência. O que elas dizem, um índio podia dizer. Manoel de Barros também tem grande noção do sexo vegetal, mas, no seu caso, a relação é mais explícita, direta, uma cópula de fato com as árvores, por exemplo. Pode ser impressionante e muito indígena, sem deixar de ser poético. Não é pornográfico, seguramente. O que eu imagino e descrevo no meu livro é diferente: uma continuidade entre o passado mítico e o presente que anuncia uma cosmogonia humilde, uma ilusória (re)criação do mundo, não um gozo pessoal apenas. Manoel de Barros é mato-grossense, nasceu em Cuiabá; eu sou sul-mato-grossense, nasci em Bela Vista, fronteira com o Paraguai. Somos os dois do Centro-Oeste, e a gente do Centro-Oeste é muito dada a relacionamentos com o inumano, seja este planta, pedra ou bicho. Ney Matogrosso, meu conterrâneo, encena nos seus shows e em pelo menos um dos seus filmes cenas desse tipo. Tetê Espíndola, para citar outra artista da voz, se especializou em reproduzir ou recriar o canto de pássaros. Nada disso surpreende, se lembrarmos que o Centro-Oeste é, acima de tudo, a terra dos xavantes, dos bororos etc. Os xavantes aparecem no meu livro, são índios e/ou japoneses. Eles adoram madeira, não se separam dela. São casados.

MF: Há tensão sexual entre as plantas? As plantas sentem prazer?

Eu nunca imagino as plantas sozinhas, entregues a si mesmas. No meu livro as plantas existem, de repente surge o homem ou a mulher no meio delas. Então, a partir daí, há contato, conexão, ou rejeição, espanto, susto. As plantas, digamos, também têm rosto, para usar um conceito de Lévinas que aprecio muitíssimo. Mas o rosto das plantas, é claro, surgiu antes do rosto humano, então elas podem se olhar, se falar, se comunicar. Sei que as plantas proliferam, então deve haver sexo entre elas. Isso é o começo do mundo. Só que, no meu livro, o homem sempre surge inesperadamente no meio das plantas. Então o sexo vegetal, neste caso, para se efetivar, pressupõe um casal, composto de um inumano e um humano.

SM: Como a botânica vê o fenômeno do sexo vegetal?

A botânica é explícita demais para o meu gosto. Fala abertamente de hermafroditas, esmiúça “órgãos reprodutores” etc. Para mim, isso é obrigar as plantas a se expor demais. A ciência é impiedosa e sua terminologia, muito dura. Li a botânica amadora do Rousseau, achei-a curiosa, confesso (era dirigida a uma menina), e, a seguir, fiz no meu livro uma pequena homenagem ao filósofo. Ele catalogava flores no fim da vida. Mais do que isso não faço pela botânica.

MF: O sexo vegetal contemporâneo ainda é uma cosmogonia?

SM: Bem, é a minha tese, já expus acima. Toda vez que eu toco numa folha eu sou transportado ao início do mundo e eu então o (re)crio. Ou, melhor, eu (re)crio a situação do primeiro homem que apareceu na Terra, entre flores, vegetais... O homem, o primeiro homem, ainda não era o centro do mundo, muito pelo contrário...

MF: Por que o fenômeno ainda é visto como uma aberração?

SM: O meu sexo vegetal é mítico e humorado, embora volta e meia possa cair no grotesco, mas não na pornografia nem na aberração. O meu livro tem até parábola infantil. Acho que muitas passagens são líricas. O meu sexo vegetal seguramente não é nem quer ser esse outro sexo vegetal que entende a “cópula” ao pé da letra, transformando o inumano em substituto do humano. No meu sexo vegetal, o humano não é mais o umbigo do Universo, como diria Llansol, e não pode mais sujeitar ou explorar o inumano. É claro que sempre poderá haver um humano perverso ou mesmo uma planta perversa à espreita, em toda cosmogonia. O meu livro cita, por exemplo, um trevo argentino sádico. Uma planta terrível, dessas que enlouquecem um ser humano. Mas qualquer coisa pode enlouquecer um ser humano. Borges falou disso no célebre conto “O Zahir”.

MF: A certa altura, você faz um alerta: “as plantas não são inocentes”. Por quê?

SM: As cosmogonias poéticas são possíveis. Ou seja, a qualquer momento podemos perder nosso lugar no Universo e voltar às origens, ao seio das plantas. Elas podem fascinar. Elas podem olhar para nós e nos paralisar. Como já recomendou Viveiros de Castro, é preciso ter muita diplomacia nessa hora e sair de mansinho. Por isso eu disse que as plantas não são inocentes. Elas podem nos prender para sempre no começo do mundo. No meu livro, os começos são humildes, não levam a situações extremas como essa. Mas, ao mesmo tempo, o livro todo estremece sob o peso dessa ameaça, a ameaça de ficar preso no começo. Então o narrador, quase sem querer, ou por instinto de sobrevivência, recorreu a certas estratégias para fugir do perigo. Por exemplo, o livro tem um prefácio, o começo de tudo. Mas esse prefácio parece ser o de outro livro e não daquele que se vai ler. (Isso só fica claro numa leitura retrospectiva.) À medida que vai avançando na leitura, o leitor percebe que o narrador não sabe exatamente em que parte do livro está, se no prefácio, num capítulo avançado... Não sabe e não quer saber. As coisas ameaçam cair no caos. Estou plenamente convencido de que o prefácio não corresponde ao texto do livro e que isso salvou o livro, o fez avançar um pouco. O prefácio é um falso começo, uma tentativa de começo. Talvez todo o meu sexo vegetal seja isso: uma mera tentativa de (re)criar ou (re)começar. Ilusória mas inevitável, segundo a tese que defendo no livro. Um voltar para trás para ir para a frente. Esse vai e vem (a mecânica do “amor”) é a única referência mais explicitamente erótica que o meu livro contém. Gostaria de acreditar nisso. O resto são toques e visões.

Trecho de

O  SEXO  VEGETAL


PREFÁCIO: TERRA & RAIZ & PEDRA & ÁGUA & LUZ



-- Reúno aqui dois textos de inspiração indígena.


-- O primeiro é também oriental.


-- O segundo quer ser autenticamente ameríndio, embora mencione o “nonsense poem”, um projeto político europeu. ****


**** Diante de um portão, certa folha amarela ergue três dedos grandes, como uma luva que o vento vestisse *****

***** Etc.

Glosas cosmogônicas


...

Brasileiros e estrangeiros (profissionais e amadores) praticam ativamente o sexo vegetal em suas várias modalidades. Não contarei a sua história nem descreverei a sua ação (meu conhecimento de suas atividades eróticas não é exaustivo). Quero flagrá-los aos poucos (despretensiosamente) entre uma moita de capim e um arbusto. Nos bosques e nas pequenas florestas. Dobrados sobre canteiros de flores ou contemplando um trevo. Com um figo seco na mão. Ou sentados numa plantação de soja. 

Décor




-- o monte de terra tem raízes negras no cume, como chifres longos *

* é cara inchada de touro, pálida, alcoólatra


O sexo vegetal é uma cosmogonia...



Sabe-se que nos tempos antigos  a alma abrigara-se no mundo.  Em tudo. E em todos. Homens e animais e plantas e pedras e raios. Fala-se disso nas cosmogonias.

O potencial erótico é imenso: alarga as fronteiras daquilo que é comumente considerado atividade sexual humana normal e permite erotizar plantas e árvores. Por exemplo. E animais e pedras. (Mas deste último tema não tratarei aqui e sim em outro livro por vir.)

Quando um mito traz à tona cosmogonias e cosmologias refere fatalmente uma atividade sexual desenfreada .

Alguns leitores (de toda estirpe) não usam senão com certo mal-estar a palavra “cosmogonia”. Por isso julgo necessário me deter nela. (Ainda estamos no prefácio?  No primeiro capítulo talvez?)

Uma cosmogonia não precisa ser bíblica. Nem pressupor um deus único, artífice solitário. A cosmogonia cotidiana nos convém mais: pequenos nascimentos. Devires numerosos?  Um gesto simples. Mínimo. A criação necessária ao nosso dia-a-dia. Uma pequenina recriação do mundo a cada hora. Minuto. Ou segundo. 

O sexo vegetal é uma cosmogonia. Uma  humilde (re)criação do mundo. Humilde e eficaz a sua maneira. Eis a questão. 


Décor



-- flores boiam na água e suas sombras têm uma aura clara e se movem no fundo mais levemente

-- os troncos cobrem-se de olhos enormes e lançam longas hastes verdes para o alto, como cílios que são também dedos

Petites naissances...



Vamos detalhar essa cosmogonia. Vamos: no plural. Lançarei ao longo deste relato vários começos vividos por diferentes personagens. Sou apenas o narrador. Repito: vários momentos mínimos de apropriação libidinosa  das árvores brasileiras. Das plantas. Mas alerto: as plantas não são inocentes. Há galhos e galhos. Alguns sádicos. Certo trevo argentino. Por exemplo.

Nesse sentido este relato se estrutura sobre infinitas cosmogonias. Infinitos começos. Nenhum deles situado no momento bíblico. Nem a criação do mundo nem o nascimento de Jesus serão invocados aqui. Não usarei tais referências para contar esta história. As origens são incessantes. Sem antes nem depois. Nossa imaginação é que percebe um meio e um fim onde nada disso existe de forma absoluta e incontestável.

Quem assinar comigo essa proposição poderá ler este relato cosmogônico. Estas glosas míticas.

Décor



-- silêncio... palmas...

-- apenas sombras de galhos no escorregador: descem e sobem espontaneamente, como crianças


Vários indivíduos...



Vários indivíduos visitaram um Jardim Botânico. Em São Paulo. Esses indivíduos não se falaram nem se cumprimentaram. Um deles tomou uma trilha suja e úmida e afastou os galhos com as mãos e avançou até o recesso mais fechado da mata. Ali parou e aspirou o perfume e olhou ao redor e investiu eroticamente no ambiente luxurioso. Os outros indivíduos perambularam pelas trilhas asfaltadas. Um deles se sentou num banco e leu um fragmento de Clarice Lispector  . Outro releu talvez Francis Ponge. 

Não era sábado. Nem domingo. Era um dia qualquer. À tarde talvez.


Décor



-- na ausência do jardineiro, quem sobe na escada e poda os cactos amarelecidos, que eriçam o alto da casa, ao redor do teto de vidro, é a cozinheira *

* a cozinheira enche um balde de fragmentos secos, como velhos panos de chão, sujos e duros

Um casal...



Nesse mesmo Jardim Botânico (não creio que tenha sido no do Rio) um casal tomou a trilha suja e úmida. Um homem alto e uma mulher baixa. Um guarda correu atrás deles e os deteve. Disse que esse caminho era perigoso ou proibido. Não era um casal comum. O homem era jovem e a mulher velha. Muito velha. Formavam mesmo um casal? O guarda jamais soube esclarecer isso. O casal não discutiu e tomou uma trilha menos selvagem. O rapaz caminhou na frente da senhora: ela o seguiu com um sorriso singelo. Havia investido muito (pouco antes) num vegetal  e numa folha grossa. Talvez naquele galho baixo que roçara sua perna.   

Décor



-- num quintal obscuro a rajada do ciclone espana árvores pesadas, que soam enferrujadas, duras demais


Espírito...



Uma moça nem magra nem gorda. Pedalava tenazmente numa estrada de chão nos arredores de Terenos quando viu um bosque junto a um portão fácil de abrir. Abriu o portão. Entrou no bosque caminhando. Nenhum cão ladrava: nem perto nem longe. O que era decerto raro naquela região. Sentou-se no capim. Logo se pôs de pé. Pedalou tranqüilamente de volta para casa.

Em casa (quando despiu a calça) constatou que tinha as coxas cobertas de areia. Areia morena com alguns fiapos de grama. Como se tivesse rolado livremente no chão.

Não se lembrava. 

Décor



-- os galhos podados são deixados soltos na árvore, entre outros que os sustentam mal no ar*

* um galho pende de ponta cabeça, as folhas amarelecidas quase roçam o chão **

** um segundo galho, já marrom, seca em pé entre outros dois que lhe servem de muletas

Uma instalação...



Dois personagens em Porto Alegre: um negro norte-americano e um tipo de duende brasileiro. Mirrado.

Quando o público entra na sala principal é atacado pelo negro enfezado (e forte) que (agachado) chocalha um grande galho de árvore. Galho cheio de folhas. O galho avança abruptamente na direção das pessoas.

No fundo da sala o duende nacional segura diante de si uma mangueira azul comprida. A decepção estampada na cara.

-- Secou -- afirma.

Faz um gesto imponente: seu braço erguido abrange toda a galeria.

Ele repete essa fala e esse gesto várias vezes. O negro chocalha frenético o galho. As pessoas saltam para trás ou correm para o fundo da sala. Uma sala redonda.

Décor



-- o tronco tem muitas línguas finas e grossas, umas sobre as outras, lambem-se noite e dia, uma de repente se dobra e pende, como enfastiada, e seca aos poucos, cáqui


O corpóreo...



-- Sim. Uma coisa corpórea -- disse o rapaz para si mesmo. -- As árvores estavam próximas. Toquei ou quase toquei sua textura seca. Áspera. Os galhos se moveram sobre mim.

Dizendo isso ele sai do bosque. Um bosque ralo. Perto de Brasília. 

O rapaz é um guarda-florestal ou um vagabundo. Ou acima de tudo alguém que -- inicialmente --  desejava protestar contra uma injustiça andando a pé sob o sol inclemente.


Décor



-- as nuvens estufadas afundam o Continente, ou o consomem, elevando-se como espessa fumaça

Espuma...



O escritor Henri Michaux disse que pôs sobre a sua mesa uma maçã. Então ele entrou na maçã.

Quelle tranquillité!

Invadiu a maçã com o seu corpanzil ou foi a maçã que o “devorou”?

Areia movediça? Espuma ou esponja onde se afunda e flutua? Onde se fica também cristalizado?

É paz. Ou horror. O próprio Michaux inicialmente ficou congelado dentro da maçã: Quand j’arrivai dans la pomme, j’étais glacé. Em inglês isso seria: When I arrived inside the apple, I was frozen.

(Como será essa experiência em outras circunstâncias? Numa feira livre entra-se numa maçã que alguém amável ou odioso comprará. Ou que muitas mãos anônimas tocarão nesse mesmo dia. A maçã toma sol e se revela terrivelmente efervescente.)

James Joyce menciona o suave aroma que escapava de uma escrivaninha aberta: o cheiro de uma maçã muito madura ali esquecida. Ou de um vidro de goma arábica. Ou de lápis de cedro novos.  

Décor




-- as folhas mortas e submersas se aproximam mais do ralo do que as bolhas que se aglomeram na água da chuva

Lúcifer...



“Recriando Adão e Eva”: notícia de um filme de curta-metragem que não saiu do papel. Deu no site da Universidade. 

Roteiro assinado por um professor do curso de cinema: piso coberto de areia fofa. Sobre a areia folhas secas e / ou novas. Acumuladas. Espalhadas. Num canto vassouras.

Sob uma das folhas vê-se uma cobra enrodilhada.

Alguém avança segurando uma vassoura sem ter ciência da cobra.

Poderá varrer as folhas ou simplesmente encostar a vassoura num canto remoto. Ao lado de outras abandonadas lá.

(Não sei se fiz bem em reproduzir aqui essa notícia “bíblica”  -- levado talvez pela reflexão anterior sobre a maçã -- pois ela fere a minha intenção de não mencionar essa cosmogonia entre as cosmogonias pagãs que selecionei.)

Décor



-- uma carroceria se afasta com geladeiras novas de inox, chocalha com violência galhos floridos, um se quebra e se balança tonto, como um osso pendente de um ombro danificado

-- fazendo caricatura, as folhas pequenas se espalham no deck como sardas, duas folhas grandes são os olhos e o resto do rosto -- longa madeira bem pregada no chão


Um casal...



O casal ia de bicicleta. Ou voltava a pé para casa. Caminhando ao lado de imensos formigueiros. Como túmulos que a vista não abarcava. Num dado momento eles se sentam lado a lado num tronco caído na beira da estrada. A moça é índia ou japonesa e o rapaz espanhol.

A garota explica que ele é feio.

Ele mal consegue balbuciar alguma coisa. Examina a máquina fotográfica.

O tronco é um ninho de formigas e a garota salta gritando.

O rapaz se levanta calmamente e passa a mão no traseiro e depois nas pernas.  

A garota se despe atrás de um arbusto.



Décor



-- como tição apagado, uma banana preta se afunda num cesto de lixo, entre bolinhas de papel, ou rolos rígidos de fumaça


O Rio das Mortes...


O fotógrafo espanhol conheceu o Rio das Mortes. Imaginava um rio violento. Ou sombrio. Nada transparente.

Então viajou de ônibus. Cruzou Goiás. Depois pegou carona na carroceria de uma caminhonete. No início da tarde ou da manhã viu um índio forte arrancando ou plantando mandioca.

A caminhonete parou na frente de uma choça indígena e o rapaz desceu.

O Rio das Mortes (cheio e escuro) passava a alguns metros dali: na outra margem a água lambia a mata fechada que semelhava um forte.

Um riacho desaguava no Rio das Mortes. Transparente. Folhas acumulavam-se no fundo.

Dentro do riacho pássaros mergulhadores caminhavam e engoliam peixes. 

O rapaz se agachou e fotografou os pássaros e as folhas e os peixes. Um pássaro de pernas longas e finas se afastou de olho aberto entre peixes que fugiam. O pássaro entrou no Rio das Mortes e desapareceu na sua água turva. Os peixes iam e vinham na água transparente. A correnteza arrastava em silêncio algumas folhas. De repente o pássaro emergiu do Rio das Mortes com estardalhaço. 

 

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[1] Este texto surrupiou uma frase de Myriam Ávila, uns desenhos de Fernando Lindote e um gesto de Bruno Napoleão.

[2] Cf. os mitos ameríndios.

[3] Cf. a seguinte passagem de Histoire de Lynx, de Claude Lévi-Strauss, onde se fala do vegetal sedutor: “(...) ce mythe raconte qu’une jeune fille qui refusait tous les prétendants dut se contenter d’une racine quand elle voulut se marier; ou bien qu’une femme occupée à récolter des racines eut envie de copuler avec l’une d’elles; ou bien encore que, perdue dans les bois et y menant une vie solitaire, elle se résigna à une telle union. Un fils lui naquit et grandit auprès d’elle.”

[4] Cf. Michel Serres, Gênese.

[5] Cf. Mario Perniola, Il Sex appeal dell’inorganico

[6] Água viva.