AddThis Social Bookmark Button
Home Estado Crítico

Lou Reed na FLIP

Estado Crítico - Estado Crítico


“Obviamente”, disse eu, “o que você anda vendendo com o seu nome
ultimamente é decadência pasteurizada. Nos velhos tempos você
era um fodão de verdade, Lou, mas agora está tudo pasteurizado.”
Lester Bangs, 1975




A Festa Literária Internacional de Paraty segue ampliando seus horizontes. Dos pontos altos desta 8ª edição, que ocorre entre 4 e 8 de agosto, dois deles estão menos relacionados à literatura propriamente dita que à contracultura norte-americana. São dois gigantes: o popstar Lou Reed e o quadrinista Robert Crumb.

Ambos vêm ao Brasil, não apenas para isso, mas principalmente para divulgar seus mais recentes trabalhos: Atravessar o fogo (Pass thru fire, lá fora, publicado em 2002), uma reunião de mais 300 letras de canções do ex-integrante do Velvet Underground a ser lançada em julho pela Companhia das Letras; e Gênesis, uma adaptação do livro bíblico criada pelo mestre da HQ underground.

De fato, em outras edições da Festa, compareceu gente como Neil Gaiman, que é inerente ao universo dos quadrinhos, especialmente com a série Sandman, publicada pela Vertigo, da D.C. Comics, mas ele, ainda assim, é romancista e veio aqui falar justamente disso.

No caso de Lou Reed, o mais evidente é que sua presença está mais relacionada à promoção da Festa que à relevância estética das letras de suas músicas (publicadas por uma editora fincada no mainstream). Também é explícito que essa figura mítica transcende o próprio evento.

É, portanto, com esse status de semideus da contracultura (diria um grande crítico), espécie de “Dostoievski do rock” (diria outro), que Lou Reed chega, com sua caricatura cool blasé, para sentar às mesinhas de clima interiorano e hospitaleiro de Paraty e falar dos vínculos entre o rock e a cultura “erudita”.

Mas que vínculos são esses? Eles existem (ainda)? Do final dos anos 1960 pra cá, o rock foi perdendo sua relevância estética com a mesma força com que impregnou a cultura ocidental, do comportamento à moda. No caso de Reed, somada à irrelevância de sua produção mais recente, há aquela postura quase punk mainstream. O que não é uma atitude incoerente propriamente dita, mas que serve para realçar um momento em que compor músicas sobre drogas e prostitutas com uma guitarra na mão podia dizer mais que isso.

Além do mais, serve para destacar um momento da carreira de Lou Reed na qual essa união do erudito com o rock, ou pop, gerava uma tensão interessante nas relações de poder entre a arte e o mercado. Isso ocorreu especialmente durante os anos do Velvet Underground e nos álbuns Transformer e Berlin.

Quando esteve no Velvet, fica evidente como a aproximação com Andy Warhol – e nesse mesmo bonde, John Cale, forçosamente Nico, depois Iggy Pop, David Bowie – foi vital para forçar a entrada de uma produção bem pouco “comercial” no mainstream.



Na mesma época, foi Lou, mais que Nico, a alma carismática da banda, carregando com letras de uma delicadeza mórbida e combinações básicas de acordes a sua liquidação de desespero. A beleza de Nico só não destoava daquele ambiente pela artificialidade (estética e profissionalmente falando) com que passou a participar dele.

Em The Velvet Underground and Nico, lembrado mais pela capa que pela produção (ambas de Andy Warhol), de 1967, já é possível perceber algumas especialidades do grupo que se evidenciaram na carreira solo de Reed, como no casamento entre piração e composição de Heroin, no viés mais pop de Sunday morning, There she goes again, ou na pegada mais crua de Run run run.

De qualquer forma, isso não refletiu na vida da banda, que oscilou por poucos anos – garantindo nesse meio-tempo o também ótimo The Velvet Underground, de 1969 – até se esgotar. Oscilantes também foram os caminhos que seus integrantes adotaram na música.

Lou Reed, o mais bem-sucedido, atingiu seu ápice logo no começo, com Transformer (1972). Eu não estaria de todo errado se dissesse que esse álbum deve ser mais creditado ao guitarrista Mick Ronson, ao baixista Herbie Flowers e, especialmente, a David Bowie que a Lou. Eles criaram um universo à parte para Reed caminhar pelo seu lado selvagem.

Nas letras, nos refrões, temos um garotinho mimado e quase feliz pulando pelos seus vastos campos floridos de cogumelo. Mas não me presto a aproximar os olhos das letras exatamente porque não acho que elas funcionem fora da canção. Seria até uma injustiça com elas.

No ano seguinte, Reed fica mais ambicioso e investe seriamente em algo mais conceitual. Com Berlin, em 1973, Lou nos afunda nas profundezas de sabe-se lá qual pântano de dor e hermetismo. Como poucos, esse álbum consolidou (e ao mesmo tempo desglamorizou) a pose “tou pouco me fodendo” daquele cenário musical (“They wanna have money and live/ but me, I just don’t care at all”).

A partir daí, Lou Reed começa a se repetir. E a vender: Rock’n’roll animal e Sally can’t dance, ambos de 1974, foram os que se deram melhor nesse sentido. Muito embora sejam uma perda de tempo. Um ano depois, o cara cuspiu no prato do movimento punk e mergulhou em um experimentalismo eletrônico que culminou em uma bizarrice sem tamanho chamada Metal machine music. Kraftwerk seguiu esse caminho de um jeito que ficou legal.

Mais de dez anos mais tarde, Lou volta a acertar a mão com New York, de 1989, e com Magic and loss, de 1992. De lá pra cá, ele também exerceu sua escrita com um diário público, um poema relacionado ao 11 de setembro, um disco inspirado em Poe.

Lou Reed possui a mesma característica que me atrai em certos filmes de zumbi, um misto de sadismo e inocência, escatologia e pureza, “alta” e “baixa” culturas, com a diferença de que Reed conquistou uma aura cult que nem todo filme de zumbi consegue atingir.

Por isso digo que, como poeta, ele é um grande rockstar. Lester Bangs, que era um mala e devia saber disso, pergunta como alguém “voltaria do lamaçal que foi Berlin para fazer Sally can’t dance, um álbum que quebrou os próprios calcanhares fugindo de todas as maneiras com as quais os mais calejados fãs de Reed fazem suas conexões possíveis ao comercialismo do mais baixo calão, e enfiar essa porcaria de disco na lista dos dez mais?” (Reações psicóticas, Conrad, 2005).

Marketing é a resposta. Lou Reed é um mito, um deus enfastiado, mas dono de um imaginário coletivo. Ainda assim, por mais que devamos agradecer a ele por todo o seu passado, sua vinda para a FLIP é puro marketing, bom para ambos.

A reputação de melhor fracasso comercial dos anos 1960 virou um sucesso comercial. Interessante, o que não chega a ser relevante. Particularmente, eu gostaria muito mais de vê-lo no palco. Principalmente se levarmos em conta a “puta falta de sacanagem” que andam tendo com o punk atualmente.


Vídeos:


The Velvet Underground (1965)


A Walk On The Wild Side




Lou Reed - Satellite of Love