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Home Crítica EUA em debate

O Nobel de Obama ou um prêmio à paz armada

1. O Pêndulo

A partir das 13 colônias originais da região nordeste, que após a independência da Inglaterra serviram como ponto de partida para uma expansão contínua em direção ao sul, oeste e noroeste, conquistando ou comprando territórios indígenas, franceses e mexicanos, os EUA se formaram, em termos geopolíticos, como um império continental contíguo, à maneira da China na Antiguidade e da Rússia no início da Idade Moderna. Uma vez consolidado o espaço continental (com a criação de um amplo mercado interno, que permitiu ao novo país superar o PIB do Império Britânico já na última década do século XIX), somado à subsequente estabilização sociopolítica e ao desenvolvimento de uma experiência militar moderna com a Guerra Civil de 1861-1865, a nova potência americana estava pronta para desafiar as velhas potências europeias no grande jogo mercantil-imperial. Começou então pela mais velha e mais fraca delas, o decadente Império Espanhol, que apresentava a vantagem adicional de possuir uma pequena província bem à porta dos EUA: a ilha de Cuba.

A primeira ação imperialista norte-americana demonstrará, no entanto, a natureza ambígua do novo “império”, em comparação com a natureza pura e dura dos antigos impérios europeus. A intervenção em Cuba (1898), assim, faz-se não em nome da construção do império norte-americano, como fora anteriormente o caso da ocupação da ilha pela Espanha, mas sim da desconstrução do Império Espanhol em nome do apoio à causa da liberdade política cubana. Mas se a libertação da ilha do jugo espanhol com apoio norte-americano não transforma o nascente estado cubano outra vez em uma colônia, torna-o, todavia, um estado-cliente da nova potência norte-americana (condição que manterá até a Revolução Cubana de 1959). Porque os EUA, que vêem a si mesmos como uma nação nascida da libertação do imperialismo europeu (Império Britânico), e que tem nas liberdades políticas, bem como na grande autonomia de seus estados-membros, marcas de nascença, se têm a partir de então condições econômicas e militares de formar um império de fato, não têm condições políticas e ideológicas de fazê-lo. Além disso, o tipo de capitalismo que desenvolve não se baseia no estabelecimento de monopólios, como nos antigos impérios, mas na expansão de mercados consumidores. Daí os EUA não constituírem colônias formais, como a Índia em relação ao Império Britânico, ou a própria Cuba em relação à Espanha. O “imperialismo” norte-americano será, desde sempre, não hipócrita, como querem os simplistas, mas contraditório.

A política externa norte-americana oscilará permanentemente, portanto, entre uma arraigada ideologia antiimperialista e um crescente poder intervencionista (que até a situação irreversível determinada pela vitória na Segunda Guerra e a consequente Guerra Fria, no limite alternará períodos de intervencionismo com recuos isolacionistas, como o que caracterizou os anos 1930). Ambos confluentemente alimentados pela natureza comercial da nova potência mundial, à diferença dos antigos impérios propriamente coloniais europeus. Na prática, enfraquecer ou desfazer os impérios europeus - ou seja, suas zonas de monopólio - e garantir as próprias zonas de influência marcarão e demarcarão inicialmente suas principais ações externas.

A doutrina Monroe (1823), ao lado da atuação de Woodrow Wilson após a Primeira Guerra, exemplifica bastante bem a questão. A primeira, sintetizada na fórmula “A América para os americanos”, vetava o direito às velhas potências europeias, ainda há pouco metrópoles coloniais do continente, de intervirem politicamente no continente americano (que se torna então sujeito a uma única potência, os EUA). Já a atuação de Wilson, após a ação decisiva das forças expedicionárias norte-americanas (os EUA não têm ainda um exército permanente) na vitória aliada na Primeira Guerra, em vez de pleitear para o país uma posição de força nas relações entre as potências europeias no pós-guerra, direciona-se para tentar organizar a paz (e o comércio) mundial(ais), apoiando a criação da Liga das Nações, precursora da ONU (também criação norte-americana, pós-Segunda Guerra) e primeiro verdadeiro parlamento mundial da história.

Se o Japão invadiu a Manchúria nos anos 1930 visando tornar essa parte da China uma colônia nipônica ao velho estilo imperial, os EUA, após invadirem o mesmo Japão poucos anos depois, ao final da Segunda Guerra, não o transformam em colônia, mas lhe devolvem em seguida a plena independência política e econômica, garantindo apenas sua integração às regras do jogo (tão bem aprendidas que logo o Japão se transforma na segunda economia mundial e no principal concorrente industrial dos próprios EUA até a recente emergência da China). Quando, em 1956, Inglaterra e França, com o apoio local de Israel, atacam o Egito tentando forçar Nasser a reverter a recente nacionalização do Canal de Suez, até então propriedade de um consórcio anglo-francês, os EUA, então nova superpotência mundial, ordenam o recuo das forças agressoras, garantindo a nacionalização egípcia do canal e o fim definitivo das velhas intervenções imperiais européias na região.

Sim, os EUA interviriam em seguida na mesma região, mais exatamente no Irã, ajudando em 1959 a própria Inglaterra a derrubar o presidente eleito Mossadeg. Mas além de isso ter sido feito por meios políticos, e não militares, através do apoio a outro grupo político, tal ação tinha uma motivação dupla: não o puro cálculo do monopólio econômico (que mais uma vez movera a Inglaterra na crise iraniana, deflagrando-a após as nacionalizações petrolíferas de Mossadeg de companhias britânicas), mas o cálculo econômico ligado à imperiosa razão geopolítica da Guerra Fria (Mossadeg tinha o apoio do Partido Comunista Iraniano, e o país ocupa posição estratégica entre o Oriente Médio, o centro da Ásia e o então sul da URSS).

 

2. Prêmio ao balanço

O prêmio Nobel da Paz de Barak Obama não pode ser compreendido sem esse fundo histórico. Pois o que a Academia Sueca premiou em Obama foi ele personificar a tendência político-ideológica da política externa norte-americana, na qual os valores têm um peso relativo maior do que na tendência militar-intervencionista - da qual George W. Bush foi um representante cabal. Premiou-se, portanto, o recente deslocamento do eleitorado norte-americano para o outro polo do pêndulo histórico da política externa norte-americana.

Um peso relativo maior, no entanto, significa um peso relativo maior. Ou seja, os EUA, maior potência econômica e militar da história, vencedores consecutivos da Segunda Guerra e da Guerra Fria, não se tornaram a Suíça com a eleição de Obama (e me refiro não tanto à pequenez quanto ao insulamento político). Não obstante, se tomado em seu verdadeiro significado histórico-político, o prêmio da Paz a Barak Obama faz todo o sentido, pois se está premiando a volta dos EUA à tradição de Woodrow Wilson e de Eleonor Roosevelt, principal inspiradora da criação da ONU e da redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Por isso mesmo, não faz sentido algum pretender ver uma contradição flagrante entre esse prêmio e o recente anúncio por Obama do aumento dos efetivos militares norte-americanos no Afeganistão, como a mídia explorou simploriamente. O prêmio premia uma reviravolta e uma volta dentro do espectro histórico das tradições de política externa dos EUA, enquanto o envio de tropas responde a um imperativo conjuntural. Querer ver aqui contradição cabal ou flagrante significa esperar que Barak Obama, em vez de presidente dos EUA, seja um novo Gandhi ou mesmo um novo Buda, cuja coroação (ou melhor, aureolação) estaria representada pelo Nobel da Paz, com seu nome quase celestial. E isto é, numa palavra, estupidez.

Resumidamente, os EUA têm poucas e igualmente ruins opções no Afeganistão. Se simplesmente abandonarem a intervenção, devidamente sancionada pela ONU e determinada pelo conluio do grupo terrorista internacional Al Qaeda com o antigo governo islamofascista do Taleban, que além dos horrores internos causados por este (como a brutal opressão feminina) levaram aos horrores externos causados por aquela (como o 11 de Setembro), tanto um quanto a outra, que hoje operam na porosa zona de fronteira com o Paquistão, têm grandes chances de voltar ao poder. Além de isto ser inaceitável em si, é ainda enormemente agravado pelo que resultaria de desequilíbrio político no Paquistão, onde as forças islâmicas locais, apoiadoras do Taleban e da Al Qaeda e por eles apoiadas, são combatidas pelas precárias forças militares e políticas de um Estado, não obstante, dotado de armas atômicas. O Afeganistão simplesmente não pode ser outra vez entregue a si mesmo, como após a saída da URSS no final dos anos 1980, em seguida a uma guerra civil determinada pela invasão pela potência comunista, cuja derrota levaria o Taleban ao poder e a Al Qaeda à sua sombra. Ao mesmo tempo, não pode manter-se cronicamente em estado de guerra, não somente pelos riscos envolvidos, pela tensão e a ameaça de desestabilização em plena Ásia central, mas também pelo sofrimento imposto a uma população que não conhece a paz referida no prêmio de Obama há várias décadas. A única opção é derrotar o Taleban e destruir a liderança local da Al Qaeda. A paz a longo prazo no Afeganistão passa, infelizmente, pela intensificação da guerra a curto prazo. Não há novidade nisso. Para salvar a Europa do nazismo, os mesmos EUA a invadiram com o maior exército da história. (Por que os EUA? Porque não havia, como não há, alternativa.)

 

3. Paz branca, história negra

O prêmio da Paz dado a Obama, porém, tem ainda outra dimensão, ou outro aspecto, que não obstante radica, igualmente, na história profunda dos EUA. Assim como sempre existiu certa tensão, ambiguidade ou nota falsa em sua política externa, manifestação da contradição entre suas origens anticolonialistas na guerra de independência contra o Império Britânico e o crescente poder econômico, político e militar ao longo de sua história subsequente, também sempre existiu uma verdadeira e profunda tensão entre suas origens libertárias e igualitárias e a escravidão e o racismo. Os EUA foram fundados por fugitivos das guerras e das leis religiosas inglesas, pois a religião, na Inglaterra, era inseparável da política e, mais diretamente, do Estado e do próprio rei. Daí esses fugitivos, puritanos particularmente religiosos (e por isso fugitivos), terem criado um Estado não apenas separado da religião, mas no qual a liberdade religiosa era total. A liberdade religiosa automaticamente redundou na liberdade de pensamento, que levou à liberdade de imprensa, embasando as liberdades civis e políticas. Daí os EUA serem um dos precursores da Revolução Francesa e sua Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (a independência dos EUA data de 1776, enquanto a Revolução Francesa aconteceu em 1789; paralelamente, a Constituição norte-americana é de 1787, e a Declaração francesa, do mesmo ano da revolução). Tudo isso, porém, foi inicialmente negado aos homens-coisa, os escravos de origem africana.

Inicialmente, porque a independência e a constituição norte-americanas foram realizações de grupos políticos locais das diversas províncias britânicas da América do Norte, unidos por alguns objetivos e ideais comuns. A escravidão, porém, não fazia parte deles, pois na verdade era um fator de desunião: havia tanto lideranças antiescravistas quanto escravistas. Além disso, parecia temerário ameaçar desorganizar a produção do nascente Estado, além de criar ainda maior tensão política. A solução do problema da escravidão, ou seja, sua extinção, foi adiada. Mas adiar a solução de um problema não significa ignorá-lo. Muito menos eliminá-lo. As tensões e contradições resultantes aumentariam ao longo do século seguinte, até levar os estados escravistas, concentrados no sul, a desejar deixar a União para poder manter a escravidão, causando a guerra civil de 1861-1865. A vitória do norte garantiu, afinal, o fim da escravidão.

Mas não o fim de certo apartheid à americana, possibilitado pela grande autonomia legislativa dos estados da União. Mais uma vez a tensão, principalmente no sul, recomeçaria lentamente a aumentar, resultando afinal, décadas depois, nos grandes conflitos raciais dos anos 1960. Cuja solução levaria novamente à intervenção federal, desta vez com a criação das leis de direitos civis, criminalizando direta e definitivamente a segregação racial, e das ações afirmativas, visando acelerar a integração racial e a melhoria da situação econômica e educacional dos descendentes dos escravos.

A eleição de um mulato como Barak Obama simboliza, portanto, o princípio do fim derradeiro da grande contradição sociocultural e político-ideológica dos EUA desde sua fundação. E como essa contradição se traduziu em uma longa história de guerras, a guerra dos senhores contra os escravos, a guerra civil entre o Norte antiescravista e o Sul escravocrata, a guerra dos negros contra o racismo, nada mais pertinente que um tal acontecimento seja homenageado pelo maior prêmio mundial em nome da paz. Barak Obama não é o Dalai Lama. Tanto melhor: sua premiação tem significados tão mais complexos quanto mais relevantes.

Linh Dinh