VERGONHA, OBAMA!
Bob esteve em Brasília em dezembro de 1962, com o presidente João Goulart (1919-76), cujo governo se estendeu de 1961 a 1964, e deve ter dado uma esticada até o Rio. Nelson – o maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos – conheceu Bob por meio de seu filho Joffre Rodrigues, que residia em Nova York: “Súbito meu filho chega a Bob Kennedy. Nós o conhecemos fisicamente, nós o vimos, aqui na praia, de calção, dourando-se ao sol como um camaleão (rimou com calção, e desculpem)”. Compara os dois: “No momento em que John morreu, Bob começou a ser candidato”. A observação contundente vem a seguir: “Eu diria que, no seu caminho presidencial, só resta uma dúvida. E, de fato, custa a crer que existam, numa mesma família [Nelson – um surdo – não escutou o cacófato, “mame” e me desculpem], dois Kennedys. Seria o mesmo que pretender dois Napoleões. E, quando dois nomes coincidem, passamos de um Napoleão, o Grande, para o Napoleão III, o Idiota”.
George Herbert Bush não foi nenhum Napoleão, o Grande, durante seu mandato de presidente, que durou de 1989 a 1993. Governou no momento de alta do neoliberalismo. Saboreou a extinção da União Soviética (em 1991) e bombardeou, de leve, o Iraque. Sobreviveu a uma pequena recessão. Foi o.k., para um ianque. George Walker Bush, nascido em 1946, provavelmente no dia mais aziago, frio e nublado daquele ano, é o Napoleão III, o Idiota, de Nelson Rodrigues.
Nelson Rodrigues
Não bastaram sete anos e nove meses de seu desgoverno para que o Partido Democrata e o senador Barack Obama liderassem com folga a campanha. Não há dúvida de que Obama é superior a John McCain, um playboy e, pela idade avançada, até um ex-senador. E ainda por cima – relata a imprensa norte-americana – corrupto. Suas “ideias” não ultrapassam o clichê: para ele, o mundo dos sonhos é um campo minado. É um populista e o populismo é uma das formas de degradação da democracia. Não bastou George Walker Bush sustentar duas guerras, insustentáveis, a primeira por sete anos e a segunda por cinco anos, para os democratas abrirem vantagem sólida. Os atentados de 11 de Setembro de 2001, em Nova York e Washington, foram manipulados pela extrema direita bushiana para levar o mundo a pensar que a Jihad, guerra santa islâmica, seria o grande problema do século 21, quando as tensões reais vêm da China – um potência – e da Rússia, que, pelo arsenal bélico, tem poder perturbador, como nota Josep Ramoneda. Não bastou Napoleão III – desde o segundo ano de seu mandato – impor uma crise econômica estrondosa aos Estados Unidos e, agora, ao mundo.
Não bastaram Abu Ghraib e Guantánamo. Não bastaram as 10 mil casas hipotecadas, reavidas todo dia pelos bancos. Não bastou o Katrina. Não bastam 45 milhões de norte-americanos sem seguro-saúde. Não basta a escalada do aquecimento global – obra de Deus, segundo Sarah Palin. Nada basta para Barack Obama liderar com segurança. Ele arca com o “black tax” – o imposto por ser negro. Ele paga, no entanto, também, por erros próprios. O maior deles: ter escolhido o anódino senador Joe Biden para concorrer como seu vice-presidente.
Nelson caracterizava John Kennedy como um menino e não como um líder porque, para ele, “o verdadeiro líder é um canalha”. Talvez Obama seja uma re-edição do menino, em versão ainda mais humana. Kennedy – ao contrário de Obama – convidou seu áspero concorrente das primárias democratas, quase um inimigo, para sair como seu candidato a vice-presidente: Lyndon Johnson (1908-73). Hoje, o nome inerente seria Hillary Clinton, para unir o “partido”. A vazia nazifascista Sarah Palin fez um estrago e tanto na campanha democrata. John McCain é um ex-senador, tecnicamente falando, porém ainda não é uma ex-raposa. É aquele “canalha” de que fala Rodrigues.
O segundo erro grave do “menino” Obama foi ter imitado Hillary Clinton e imaginar que a vitória estava garantida. Coisa mesmo de menino, que, onipotente, parece desconhecer o poder da direita e da extrema direita norte-americana, que queimava negros vivos no Sul do país, antes do início do movimento liderado por Martin Luther King (1929-68), há menos de cinquenta anos. Coisa de menino imperialista: quis ganhar sozinho.
Barack e Michelle Obama em 1992
Não basta o “investidor” Georges Soros afirmar que o mundo, em razão da “desregulamentação” implantada no campo financeiro por George Walker Bush, vive um novo 1929, apenas com mais consciência. Soros, ao contrário de seu pares ideológicos republicanos, quer que o Estado pague a conta do “sistema”, a conta de Wall Street – inspirado, creio, na “tradição brasileira” de “estatizar” os prejuízos dos ricos e privatizar cada vez mais os lucros deles. Não basta McCain defender novos cortes de impostos para os milionários. Não basta Obama “vencer” o primeiro debate, realizado em 26 de setembro, para liderar com folga e tranquilizar o mundo – dizer a ele que, ao menos, o pesadelo nazifascista vai passar. O debate serviu, como registrou o New York Times em seu editorial, para que McCain parasse de mentir em comerciais sem conteúdo. Obama lidera pela apertada margem de 4%, quando deveria liderar por uma diferença de, no mínimo, 20%.
Nelson observou que John Kennedy morreu antes de concluir sua obra: “Um Napoleão que morresse antes da tomada da Bastilha não seria Napoleão. Um Cristo morto aos 3 anos de idade, de coqueluche, já não seria Cristo”. Espera-se que Barack Obama não morra antes da hora – como fez, um pouco, depois da vitória nas primárias. O mundo do turbocapitalismo e de guerras de George Napoleão III Bush – o Idiota – felizmente ruiu, apesar do alto preço. Espera-se que Barack Obama – o político do diálogo e da recuperação do espaço público – seja, enfim, aquela personagem que Nelson Rodrigues bem definia: “O verdadeiro líder há de morrer com rosto [refere-se ao rosto desfigurado por balas de John Kennedy]. Sim, a morte tem que preservar seu perfil para a moeda, a cédula, a medalha”. Que seja o líder para revigorar a democracia no mundo.




