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Clarice, de Benjamin Moser

Sensação atual no mundo das letras, a biografia de Clarice Lispector por Benjamin Moser é empenhada, extremamente documentada, extremamente anotada. Estamos falando de um texto de quase 700 páginas, que evolui dentro do melhor modelo do gênero, aquele que articula a vida e a obra do biografado, mas antes buscando compreender a vida através da obra do que o contrário, o que, neste caso, é uma homenagem prestada à literatura, e uma providência antirreducionista. O que não o impede de ser também uma imensa pesquisa de campo, que, aliás, nos revela um jovem brasilianista norte-americano em formação já bastante íntimo do Brasil. Capacitado, assim, para a incursão de certo fôlego que faz aos bastidores políticos e sociais recifenses e cariocas implicados em sua prospecção. E sem que esse plano de cultura seja o único perseguido, já que – sendo judeu como a sua musa – o autor vai pôr insistentemente o dedo em algo que nós mesmos nunca havíamos tocado, pelo menos não seriamente: o judaísmo da escritora.


Daí o livro começar pelo antissemitismo russo, oferecendo um painel histórico ligeiro mas eficiente de um período que envolve pogroms, Primeira Guerra Mundial, revolução bolchevique e a posição desamparada dos judeus no seio da primeira revolução comunista, que é tudo o que está na origem da saída dos Lispector da Ucrânia, no início dos anos 1920. E seguir fixado nas marcas que tudo isso só pode ter deixado em Clarice – que só agora descobrimos se chamava Chaia –, mesmo que a caçula daquele pequeno comerciante que aportou em Pernambuco em 1921, vindo com a família de albergues de refugiados na Romênia para ganhar a vida como mascate na América do Sul, não fosse nascida quando a fuga começou. Fato que não a teria impedido de se lembrar de tudo, bem ao contrário.

Trata-se de uma bela contribuição aos estudos claricianos, de que já não poderemos abrir mão, para o futuro. Também porque, como têm notado todas as reviews feitas nos Estados Unidos, desde o lançamento da versão original – que quase coincide com o da tradução brasileira por José Geraldo Couto, sinal de operações de marketing bem orquestradas –, Clarice Lispector sempre esteve envolta em mistério. E agora temos a ponte que se estabelece entre essa ferida original do “nome roubado” e a impenetrabilidade da autora. E essa mãe imigrante judia que está por trás de tudo, de quem também se descobre, nos registros mais fechados da família, finalmente devassados, que foi estuprada em um daqueles fatídicos pogroms, tornando-se sifilítica e morrendo pouco depois da chegada ao Brasil. O que também tinha tudo para ser introjetado como culpa.

Entretanto, o crítico que secunda o biógrafo é mediano. E nada impede este trabalho, bem mais interessante enquanto levantamento de fatos, e só fatos, de cair na própria armadilha que denuncia: “no vácuo de informações floresceu toda uma mitologia”. Pois nada mais mitológico, mais bolha retórica, mais giro no vazio que esta fraseologia que prospera na introdução, desfazendo por um lado o que foi construído por outro: “ela nunca perdeu inteiramente a esperança de ser vista como uma pessoa real”, “ficou mortificada quando Maria Bethânia se jogou aos seus pés exclamando: minha deusa!”, “num texto melancólico, descreve sua rebelião contra sua imagem”, “era uma outsider”... É essa a inflexão. E é impossível ler essas linhas sem lembrar outras de Roland Barthes sobre a mistificação retorcida desse tipo de reconversão do artista inacessível à condição prosaica, que nada mais seria que uma hagiografia disfarçada, que desfruta do gênio inacessível, no momento mesmo em que ele é convidado a descer ao patamar do homem comum.

Participa dessa mesma construção do prestígio da estranheza a insistência do biógrafo na beleza de Clarice: “os olhos de gata e seu olhar intenso, que ninguém conseguia suportar por muito tempo...”, “a irmã Tânia recordava que Clarice era espantosamente bonita”... Ele quer lhe dar um rosto de star, e com isso um ainda mais espetacular physique du rôle, como se o escritor precisasse necessariamente de um, e João Cabral não fosse João Cabral, sendo externamente um perfeito funcionário do governo brasileiro. Mas a glamorização daquela máscara inquietante da escritora que todos conhecemos a desumaniza. E parece explicar por que não há menção no livro à desfiguração final desse rosto, quando do episódio em que a escritora se deixa adormecer com o cigarro na boca, perdendo literalmente a face.

Mas é o tipo de apelo ao judaísmo que mais incomoda. Não porque Moser nos lembre que Clarice se casou com um “gói”, em um tempo em que ninguém na colônia ousaria fazê-lo. Nem porque ele é o primeiro a nos dizer quanto ela era brasileira, e, como brasileira, nordestina. Nem porque ele é o mais bem posicionado para saber quanto havia de irreligioso e laico naquele sentir-se insuportável no mundo. Mas porque o vínculo que não cansa de estabelecer entre a escritura de Clarice e este primeiro pertencimento, subitamente encarregado de responder por todo o seu não pertencimento, faz pouco do fato de que todo grande escritor, de algum modo, está em diáspora, e habita um não lugar. Ou de que toda literatura é de testemunho. Sem falar que, se for possível pensar que Clarice tem humor, estamos no humor negro, que é tétrico – a maçã no escuro como metáfora edênica –, e não no humor judaico, que é autoirônico e está muito mais para o riso amarelo.

A resenhista de Clarice para o Los Angeles Times escrevia, em julho passado, que Moser trata a bizarrice de Clarice “very gently”. É verdade. Até porque tudo aqui está de antemão assimilado ao prodígio literário. Já a resenhista do New York Times escrevia, em agosto passado, que graças a Moser supera-se agora o culto da pessoa e o da feminista – este último é bem aquele que lhe abriu as portas do mundo francês e os textos deslumbrados de Hélène Cixous –, e a escritora já pode entrar no cânone literário. Não é completamente verdade.

Clarice
Benjamin Moser
São Paulo, Cosac Naify, 2009
647 p.