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Oito e meia razões para detestar Leite derramado

 

1 - O título “leite derramado” é meio ordinário. Mas não nos enganemos, não é essa a atmosfera do romance que ele introduz. Na verdade, quando se transfere para a literatura, a língua demótica de Chico Buarque é apenas cláusula retórica. Assim, embora acene na direção da moralidade popular, esse título não nos deve incomodar porque faz cumplicidade com o leitor médio, como se isto fosse um samba. Mas porque essa metáfora fácil só existe para melhor nos transportar de uma realidade plebéia, mais própria do Chico letrista, até os altos patamares de um romance que se leva a sério. Tanto assim que se propõe como uma arquitetura memorial, toda ela presa a um fio de voz narrativa, a que se prende, por sua vez, toda uma escavação histórica, de que a expertise universitária vem logo nos dizer que é machadiana. Vai uma distância e tanto entre o apelo ligeiro da capa do livro e a ambição do romance. Nesse sentido, acho que é possível arriscar pensar que o título participa daquela falsa consciência _ daquele duplo vínculo armado pelo nosso mal-estar original, daquela posição periclitante de nossas elites brancas e blá blá blá ...._ que o romance, segundo os sociólogos, quer denunciar.

2 - Se o beneplácito da corrente da literatura e sociedade não nos convence completamente da real importância de um retrato do Brasil à la Machado por um escritor brasileiro, hoje, e se podemos dizer, assim, que, ao elevar um romance que se reconforta no aconchego de Machado, esta crítica o rebaixa, assim também, inversamente, Leite derramado tem a propriedade de rebaixar certa outra crítica que o eleva. É a impressão que temos quando, na orelha do livro, surpreendemos Leyla Perrone-Moisés escrevendo isto: “um autor em plena posse de seu talento e de sua linguagem”. O quê? Acaso diríamos de João Cabral de Melo Neto que é talentoso? De Clarice Lispector, que detém a sua linguagem? Como entender essa insipidez, essa sensaboria na boca de freqüentadora tão assídua de Roland Barthes? Como integrar este momento da orelha _ que aliás lhe serve de fecho-de-ouro _ a tudo aquilo que, por ser, justamente, uma leitora de Barthes, a própria Leyla nos ensinou, e se resume na diferença barthesiana entre o escrevente e o escritor, quer dizer, entre a desenvoltura e a trava na língua? O embaraço que nos causa este comentário crítico _ é bem verdade que de encomenda _, é ainda maior quando paramos para pensar no quanto a gagueira dos escritores é, para nós, critério poético, antes mesmo da entrada em cena fulgurante do autor de O grau zero da escritura. Seja porque Sílvio Romero, sem poder entender Machado de Assis, sentiu nele uma dificuldade de execução, e a interpretou como podia, ali, na hora, por comparação com a facilidade dos bacharéis, como uma perturbação nos órgãos da fala. Seja porque João Cabral, em alguma parte de sua correspondência, vendo tudo desde a sua própria asperidade, lamenta que o último Drummond tenha perdido a falta de jeito que o caracterizava na época da pedra no meio do caminho.
Seja ainda porque Clarice Lispector, ostentou, até fisicamente, essa inaptidão para o bem-falar que separa os escritores dos escrivães.

3 - Chico Buarque de Holanda é um letrista interessantíssimo, claro. Mas, ainda que não queiramos separar burocraticamente os lirics dos poemas, até para não compactuar com o catastrofismo adorniano, que tão confortavelmente prega o fim dos tempos, o autor de Leite derramado não é um escolhido da literatura. É, antes, alguém que a escolheu, ao ponto de ter que ir sempre atrás dela, em Paris. Dizer que, finalmente, aprendeu a escrever, é apenas confirmar que, neste terreno, diferentemente do que lhe acontece no campo da MPB, ele não acha, procura.

4 - Mais ou menos no mesmo momento da saída de Leite derramado, assistíamos à abertura da retrospectiva da obra de Vik Muniz no MASP.Foi quando este artista perturbador _ que também refaz os clássicos, mas os assinando novamente, ou os contra-assinando, mais decididamente do que Chico, ao refazer Machado _ saiu-se com um chiste delicioso, digno das brincadeiras corrosivas que estão em suas telas. “Eu levei 20 anos para fazer sucesso da noite para o dia”, disse ele aos jornalistas que, agora, o adulavam. Tudo o que vimos no MASP, e resume uma vida inteira às voltas com a questão das relações entre a fotografia, a ilusão e a realidade, é sobre essa blague das images/stories no lugar das caras, das mídias excitadas em volta do espetáculo da arte. Parecendo sair da pura descontração de quem não quer nada, a piada mede finas distâncias. Vik Muniz precisou trabalhar duro para existir na mídia, Chico Buarque foge dela, na tentativa de trabalhar. Vik Muniz, como sabe quem foi ao MASP, tem um problema, com o qual está às voltas, desde sempre, Chico, como sabe quem leu Estorvo, Benjamin, Budapeste e Leite derramado, procura, desde sempre, um problema. Vik Muniz é obsessivo, Chico, insistente. Vik Muniz pode rir de si mesmo no meio do circo da indústria cultural, porque atrás de tanto sucesso de estima existe tanta obra, já Chico, embora Roberto Schwarz nos diga que ele é divertido, olha sério para o fotógrafo da Folha.

5 - Relendo o Diário de Kafka, na tradução francesa de Marthe Robert, ao mesmo tempo em que lia Leite derramado, encontro, nas anotações lançadas no dia 19 de janeiro de 1915, algo que me parece ser uma advertência a quem queira ousar escrever depois de Kafka. Estamos numa manhã de domingo em Praga. O escritor tinha combinado de sair, logo cedo, com alguns amigos, mas acordou tarde e perdeu a hora. Conhecendo sua pontualidade, os amigos foram até sua casa, ver o que estava acontecendo. Ouvindo bater, ele pula da cama, às pressas, e se veste. Quando abre a porta, os amigos, visivelmente estarrecidos, recuam. O que é que você tem aí atrás? perguntam. Algo, na altura da nuca, que o impedia de mexer a cabeça, o estava incomodando, já na cama. E agora que os amigos perguntaram, ele termina de perceber: é uma espada que está enterrada ali. Instigada por tal morceau kafkiano, eu fiquei me perguntando se não é disso que se está falando quando se fala de literatura! Sem trocadilhos: se não é de um estorvo desses que se precisa para se poder escrever! O autor de Leite derramado tem por si o main stream editorial, o capital simbólico da USP, a mídia, um espaço que a literatura já não tem nos segundos cadernos, e tudo o mais que esses mimos trazem consigo: os eventos sponsorizados, as declamações na FNAC, as tendas de Parati... Mas não tem a espada enterrada nas costas!

6 - Então, a morte está sempre à porta, não é mesmo? disse o jornalista a Lobo Antunes, tentando entendê-lo. Estamos numa rara entrevista com este compatriota de Saramago, que intercepto numa televisão a cabo, no mesmo momento em que leio Leite derramado. Sim, respondeu o escritor, a morte está sempre à porta... e a vida também! Com seu fôlego curto, Saramago não teria ido além da primeira proposição, e a vida não teria sido tão lindamente redefinida, como algo que pode nos tomar de assalto, e o público poderia continuar pensando, tranqüilamente, que o bom escritor é aquele a quem cabe referendar o grito do homem comum. Mas aqui, fomos subitamente sacudidos, livrados da redundância, lavados do estereótipo, purgados da platitude. Até porque Saramago só vai até onde chega o jornalista, ocorreu-me, então, pensar que é desse estremecimento, também, que se está falando quando se fala de literatura. E, ato contínuo, concluir que, ao nos estender o espelho machadiano, mostrando-nos um velho retrato de nós mesmos _ o tipo nacional, o figurão arruinado, as desigualdades de classe e de cor, o curso das coisas no país _ , o autor de Leite derramado menos nos sacode que nos reconforta na idéia feita.


7 - Embora, justamente porque ela segura tudo, a única fala que temos em Leite derramado, a de Eulálio Montenegro d´Assumpção, o tal quatrocentão representante da falsa consciência da elite branca, vá de um português antigo e formal a uma coloquialidade mais modernista e mais solta, e mesmo que isso assinale a presença de um outro actante (ops!), o neto do avô, que a tudo assiste, e talvez seja a verdadeira personagem principal, como em Machado, cujo herói é sempre o narrador, o inventário memorial de Chico não tem todo esse relevo que lhe estão emprestando. Sem querer desmerecer a trabalheira que deve ter sido registrar essas vozes cruzadas _ que já conferem ao romance o estatuto de boa literatura média, reconheça-se, e o Portugal Telecom _ essa polifonia fica nos devendo mais da voz do próprio Chico. Não como testemunha da história, pois toda a sua história está lá, inclusive na ironia do tataraneto negro do antepassado negreiro. E se não estivesse, nós a recuperaríamos nos compêndios da Unicamp. Mas como testemunha de si mesmo. Expliquemos melhor. Escavando o século XIX francês, em busca de Flaubert, num dos maiores e mais belos estudos literários que existem, não por acaso realizado fora dos muros universitários _ O idiota da família _, Sartre queria entender, não o que a província francesa normanda e a sombra do pai fizeram com Flaubert, mas o que Flaubert fez com o que fizeram com ele. Estamos aqui, novamente, um passo além do senso-comum. A tese era a de que o grande escritor, que foi disléxico, na escola, antes de se tornar o mestre de Machado de Assis, que lhe deve a mecânica do assim chamado narrador volúvel, forjou-se nesse contrapé, nessa tomada da história em mãos. Podemos voltar essa pergunta para Chico escavador: o que é que ele está fazendo, mesmo, naquela história toda? Claro que o Brasil machuca. Mas, perguntando, ainda, à la Kafka: onde é que dói em Chico?


8 - Lilian Helmann mostrou o manuscrito do que viria a ser Little Foxes para Dashiel Hammet. Estava ansiosa para saber se estava bom. Ele disse: é pior que ruim, é mais ou menos.

8 1/2 - Sabemos que, em maio de 2003, quando o governo cubano fuzilou oposicionistas e o fato repercutiu, internacionalmente, Chico aderiu a um abaixo-assinado em favor de Cuba, juntamente com um punhado de nobelizados. O imaginário político de Leite derramado, com sua perfeita impessoalidade, não se separa da cubanofilia desta escola de escritores. Podemos entendê-la, e não podemos. Sim, porque, desde 1959, Cuba resolveu bastante bem seus problemas de educação e de saúde. A saúde na ilha _ nos explicam _ é democraticamente distribuída. Que bom! Não porque _ como argumentou um dos mais notáveis escritores do século XX, o cubano Guillermo Cabrera-Infante, que participou da revolução castrista, foi por ela expurgado e teve que viver para sempre fora de seu país _, não se pode estar sempre doente! A perseguição do governo cubano aos escritores e, particularmente, o exílio do autor de Havana para um infante defunto, conta mais  meio ponto contra Chico.



Leda Tenório da Motta é Professora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC/SP, crítica literária, colaboradora do Caderno Cultura do jornal O Estado de São Paulo. Traduziu para o português do Brasil, entre outros, Máximas e reflexões morais de La Rochefoucauld, O Spleen de Paris de Baudelaire e Métodos de Francis Ponge. Escreveu, entre outros, Francis Ponge- O objeto em jogo (Iluminuras, 2000) e Proust – A violência sutil do riso (Perspectiva, 2007). Prepara, atualmente, o volume O jovem crítico loiro. Sobre a crítica, inclusive cultural.