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Home Crítica

O poema em prosa e a panela em penico


1.

Se “poemas em prosa” são poemas, por que não existe a prosa em versos?

se “poemas em prosa”
são poemas
por que não existe
a prosa em versos?

Esta mesma frase prova que ela existe, desde que ela exista.

Um dos principais paradoxos da mentalidade contemporânea em relação às artes em geral e à poesia em particular está no fato de que, como não existem mais parâmetros unanimemente reconhecidos para definir uma linguagem, abandona-se a discussão desses parâmetros, com a consequência de a própria linguagem deixar de existir, não por exclusão restritiva, mas por inclusão complacente. Se se identificasse a linguagem poética com a forma soneto, toda a poesia moderna seria excluída da condição de poesia. No outro extremo, ao se recusar quaisquer parâmetros definidores da linguagem poética, tudo pode ser poesia, com a consequência de que nada pode sê-lo especificamente. Portanto, a poesia deixa de existir como uma linguagem particular, particularizada e particularizável.

Isso não teria importância se os nomes não tivessem relevância. Se acaso se usar uma panela como penico, ela deixa, na prática, de ser uma panela para ser, de fato, um penico. Não assim uma folha de jornal sobre a qual eventualmente se evacue. O que faz de uma panela um penico, ao ser usada como um, é o uso aliado à forma. Pois há formas que permitem mais de um uso, como uma panela usada como panela e uma panela usada como penico. Não obstante, a forma aliada à forma de uso define, além da função ou do uso, a própria coisa. Isso nos casos, que são exceção, em que a forma permite mais de um uso: pois a regra é a forma determinar a função. Na verdade, é a função que determina a forma, daí cada forma se ligar a uma dada função, e uma dada apenas.

Em biologia, isso é evidente e corriqueiro. Um tubarão é um peixe, um golfinho, um mamífero. Eles são, porém, muito parecidos na forma, pois as formas de ambos convergiram para exercer a mesma função, a de rápidos predadores oceânicos de peixes médios. De forma mais pontual, mas não menos verdadeira, as asas dos pinguins, que são aves, parecem nadadeiras, porque não são usadas para voar, mas para nadar. Parecem, então, nadadeiras, porque são nadadeiras. A vantagem de passar a chamar uma dada panela de penico é não correr o risco de usá-la para cozinhar. No caso das asas dos pinguins, como o uso-panela e o uso-penico não compartilham a mesma forma, chamá-las de asas serve apenas para lembrar sua origem. Em termos reais, pinguins não têm asas, têm nadadeiras. Daí elas se parecerem com isso. E serviram para nadar, não para voar. Eis a regra: se panelas podem servir de penicos, asas não servem para nadar. A função determina a forma; a forma serve à função. Carros não navegam. Barcos não andam em terra.

O poema em prosa é uma panela em penico, ou seja, algo que mantém sua forma mas muda sua função, ou uma asa-nadadeira, algo que muda sua forma porque muda sua função?

A forma do poema em prosa é a da prosa. Trata-se, então, de manter a forma e mudar de função: um fragmento de prosa se torna “poesia”. Mas isto só poderia ser verdade se a poesia fosse uma função passível de ser realizada por mais uma forma. Por exemplo, a função de coletar fezes. Pode-se usar um penico, forma esférica e oca, ou uma caixa de areia (como se faz com os gatos), forma retangular e cheia. Mas não se pode mergulhar com um helicóptero: é preciso um submarino. No caso da coleta das fezes, a coisa e a função estão separadas. Há algo que coleta – o penico ou a caixa – e algo que é coletado – as fezes. No caso das asas, das nadadeiras, do helicóptero e do submarino, a coisa e a função não podem ser separadas. É a própria asa que voa, a própria nadadeira que nada. Daí a regra da forma determinada pela função. A exceção, assim, se dá quando a função está separada da coisa, e pode então estar separada da forma.

No caso da poesia, ela existe separada da forma poética? Se existe, do que afinal se trata? Como a poesia não tem nenhuma função, no sentido de utilidade, só pode se tratar de uma “essência”.

O paradoxo da indefinição da linguagem poética é, afinal, este: ao contrário de “pós-moderno”, como muitos acreditam, volta-se à metafísica e ao romantismo. Já eu volto ao começo do meu texto.


2.

se “poemas em prosa”
são poemas
por que não existe
a prosa em versos?

Esta mesma frase prova que ela existe, desde que ela exista. A “prosa” em versos existe quando, deixando de ser prosa, torna-se verso. Isto, porém, não se confunde com o recorte aleatório e o arbitrário margeamento à esquerda, quando o que se tem é prosa disfarçada de verso. E disfarces são disfarces.

Verso (versus) significa volta, retorno, recorrência. A forma da poesia é a da recorrência, assim como a forma do predador oceânico é o fuso. Mas o fuso, como forma hidrodinâmica, é explicável e explicado pela própria função ou necessidade hidrodinâmica. Qual a função da recorrência?

Pragmaticamente, nenhuma. Trata-se de uma função inútil, no sentido de não servir a qualquer coisa para além de sua própria existência. A recorrência poética serve para, incidindo sobre o fluxo linear normal ou natural da linguagem verbal ou prosaica, criar algo distinto e distante dessa forma-função que é a linearidade verbal. Essa outra coisa chama-se poesia.

A poesia é fruto da recorrência poética, recorrência que existe tão somente para criar a poesia ou forma poética. Ou seja: cuja existência é capaz apenas de criar a linguagem poética, que, por outro lado, é incapaz de existir sem ser por ela criada.

No exemplo acima, a frase prosaica “se ‘poemas em prosa’ são poemas, por que não existe a prosa em versos?” deixa de ser prosa ao ser recortada e “dobrada” pelos cortes seguindo linhas estruturais antes potenciais e agora realizadas. O resultado é uma sequência de quatro unidades verbais menores, que estabelecem & evidenciam relações de recorrência. Assim, os quatro versos “se ‘poemas em prosa’ / são poemas / por que não existe / a prosa em versos?” têm medidas muito próximas – 6-3-5-4 –, e rimam vocalicamente, em poEmas / vErsos (as tônicas das duas palavras incidem no mesmo fonema). Além da recorrência rítmica e rímica, também há a recorrência aliterante, com todos os versos marcados pela presença do P: Poema, Prosa, Poemas, Por, Prosa, para não falar da anagramia entre POR e PROsa, e do fato de todas as palavras em P também terem o O como primeira vogal.


3.

Um pato de papel feito pela técnica do origami, ou dobradura, é um pato ou uma folha de papel? Se fosse uma mera folha de papel, não teria a forma de um pato, pois folhas não se parecem com aves. Mas se fosse algo além de papel, seria um pato, não uma dobradura. Um pato de papel é, de certa forma, um pato, e é um pato tão somente em função de sua forma. Ou seja, é um pato na forma, e apenas nela. O mesmo vale para qualquer outra representação de um pato. Uma representação tem a forma, e apenas a forma, de algo, sem ter desse algo nem a matéria (patos são feitos de carne e penas, não de papel) nem a condição (papéis não são seres vivos). Ainda assim, uma representação é algo que existe – a ponto de não se confundir com a coisa representada. Versos são dobraduras da linha verbal. Assim como um papel é uma superfície plana, e por isso dobrável, a linguagem verbal tem a forma de um fluxo, de uma linha. Uma linha que, quando dobrada de forma eficiente (nem toda dobradura é um origami: a maioria é amorfa), torna-se a representação de outra coisa.

A diferença é que essa outra coisa não existe. A poesia é, portanto, um origami especial, que não imita nada, mas cria a representação de si mesma. A coisa representada passa a existir no ato de sua representação. Representação e coisa representada são então a mesma coisa. É semelhante à ficção: unicórnios não existem. Por isso mesmo, sua representação não representa nada, ao contrário do desenho de um pato. Unicórnios só existem como pura representação. A diferença, por sua vez, entre a poesia e o unicórnio é que a existência da representação, no caso da poesia, gera a coisa, que não se distingue nem se separa da coisa representada. Como se um personagem de ficção se tornasse real. A particularidade da poesia é se tornar real ao ser representada. A forma que a representa a cria.


4.

A poesia, separada da forma poética, e inexistindo como função, só pode ser uma “essência”, ou seja, um “espírito”, que pode habitar um poema assim como um fragmento de prosa ou um pôr de sol (por isso mesmo dito “poético”). Na verdade, inseparável dessa forma, que é a recorrência de seus elementos evidenciada/determinada pela dobradura ou corte & aproximação das partes do fluxo verbal linear, só existe quando existe essa forma. Um poema não é um penico, ou seja, qualquer forma oca que possa receber um punhado de fezes, mas uma nadadeira, que executa ela mesma a função possibilitada/determinada por sua forma, e é sua razão de ser. Penicos não são fezes, o que recolhe não é o recolhido, mas nadadeiras nadam. De um lado, nadam porque têm forma de nadadeira, de outro, têm forma de nadadeira para poder nadar. Poemas têm forma poética porque poetizam a linguagem verbal; a linguagem verbal poetizada assume a forma de poesia.