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O multiculturalismo é a miopia militante


1.

O multiculturalismo, como fato histórico, existe desde sempre. De certa forma, ele é a própria história.

À exceção da escrita, de origem fenícia, todas as primeiras inovações importantes que depois se espalharam pelo Ocidente têm origem asiática (como as carroças sobre rodas, de origem suméria). Do mesmo modo, as grandes invenções que permitiram o desenvolvimento econômico e tecnológico da modernidade ocidental têm origem chinesa (bússola, leme, vela triangular, papel, prensa, pólvora, alto-forno) ou indiana (notação do número zero).

A religião por excelência do Ocidente, o cristianismo, tem origem semita, o judaísmo. Além disso, o cristianismo é na verdade a fusão dessa religião semita a elementos greco-romanos, como a adoração de ídolos e a divinização de antepassados (os santos) – para não falar de sua língua litúrgica e de inúmeras convenções rituais e legais de origem romana.

A própria civilização romana se tornara culturalmente grandiosa ao também se helenizar, depois da conquista da Grécia.

A Roma de agora, os EUA, deve parte de sua melhor arte popular, como o jazz, a uma fusão da cultura europeia com a africana.

Africana também foi uma das referências estéticas que afinal indicaram o caminho da revolução cubista na arte moderna, através das máscaras tribais vistas, entre outros, por Picasso.

O tradicional esporte da nobreza inglesa, o polo a cavalo, não só não é inglês como não é europeu. Trata-se de um esporte mongol – aprendido pelos ingleses na Índia, cujo território, em sua maior parte, no início do século XIX, era ainda um grande reino desse povo de conquistadores (na verdade, o último dos grandes reinos mongóis, que chegaram a incluir a Rússia e a China).

Elemento histórico difuso, profundo, abrangente e determinante, o multiculturalismo é desnecessário como ideologia – além de falseador como militância. Falseador porque, ao deixar de ser um fenômeno reconhecível para se tornar uma ideologia, afasta-se dos fatos, assim não facilitando, mas dificultando o conhecimento – logo, também o verdadeiro reconhecimento.

O multiculturalismo é, enfim, uma pequena ideologia – filha da pior contracultura e da melhor antropologia.

Segundo a contracultura, todas as culturas são superiores, menos a ocidental. Segundo a antropologia, não se deve julgar uma cultura.

Não se deve julgar uma cultura porque não se pode julgar uma cultura. E não se pode porque qualquer referência de valor usada para o julgamento será um valor da cultura que julga. Logo, duas culturas distintas sempre terão dois julgamentos distintos sobre uma terceira, e mutuamente excludentes, pela falta de qualquer parâmetro extracultural de referência de valores.

A falta de parâmetros pertinentes é insuficiente, porém, para impedir que o multiculturalismo, sendo uma pequena ideologia, “ideologize” e apequene esse preceito antropológico segundo suas teses. O resultado é, simplesmente, um julgamento cultural – segundo o qual todas as culturas são superiores, menos a ocidental.

O multiculturalismo é, assim, um irracionalismo. E tanto mais deletério quanto bem-intencionado.

2.

Bem-intencionado porque pretende “fazer justiça” à arrogância ocidental que tantos povos tiveram de suportar desde o século XVI (além de assim também poder livrar os próprios ocidentais de seu decadente racionalismo). O problema é que, de boas intenções, se pavimenta o caminho para o inferno, segundo o velho provérbio.

As ideologias bem-intencionadas não se dão conta, ideologias e irracionalismos que são, do fato de terem sido as boas intenções uma das causas da arrogância ocidental. Pois os europeus, julgando-se os detentores da civilidade, o que pretendiam era, além da exploração econômica, civilizar os bárbaros, cristianizando-os.

Tampouco podem se dar conta, ao julgar de modo compensatório qualquer outra cultura de modo positivo, além da própria arrogância desse julgamento (pois não importa o sinal que tenha), do fato bastante constrangedor de que muitas das culturas assim julgadas, no seu devido tempo e lugar, foram igualmente arrogantes.

O multiculturalismo é uma forma de miopia militante.

Chineses e japoneses nada ficam a dever aos europeus em arrogância (e, no devido tempo e lugar, em brutalidade). Pois tradicionalmente ambas as culturas se julgam – cada qual separadamente – as detentoras da verdadeira civilização, sendo todos os demais povos bandos de bárbaros (a palavra que, na língua japonesa, em uma acepção significa estrangeiro, também significa, igualmente, selvagem).

A cultura árabe é outro exemplo. A partir do século VII, milhões de pessoas, em relativamente pouco tempo, da Malásia a Espanha (antes da Reconquista), se converteram ao islamismo, e, depreende-se, não meramente pelos bons argumentos do Corão, mas pelos igualmente bons argumentos da cimitarra (a espada curva árabe).

Para piorar, tal islamização, além de não ter sido indolor para as pessoas, não foi indolor para as culturas originais dessas pessoas. Como afirma o prêmio Nobel indo-britânico V. S. Naipaul: “O islã é uma força devastadora em relação a todo passado cultural dos povos por ele dominados”. A cultura bizantina que o diga: ela foi simplesmente varrida da face da Terra quando os turcos conquistaram Constantinopla, a “segunda Roma”, e a transformaram em Istambul.

Se as mulheres, sob a lei islâmica, podem ser mortas por “adultério”, e os homossexuais por existirem, a lei islâmica é uma forma de barbárie.

A brutalidade arrogante não é exclusividade histórica do Ocidente.

O comandante árabe que no ano de 642, depois de ter entrado em Alexandria [até então uma cidade cristã], mandou que todos os livros da grande biblioteca fossem queimados, teria então afirmado: “O que está nela e também no Corão, não precisa ser conservado; o que está nela e não está no Corão, não serve para nada”. [2]



O que talvez seja exclusividade histórica do Ocidente, que irracionalistas não podem perceber, é a tolerância elevada ao status de lei fundamental.

 

3.

Não que outros povos, como os próprios árabes, não tenham dado mostras, ainda que muito eventuais, de tolerância. Não sendo irracionalista, pode-se perceber as nuances que a história costuma oferecer em abundância quase equivalente à da agressividade e da arrogância.

Mas foi o Ocidente, a cultura europeia, que instituiu, pela primeira vez na história, a igualdade perante a lei em ordenamento metajurídico básico, ou seja, constitucional na denotação da palavra, logo, anterior e relativizador de quaisquer outras leis.

Não importa. Porque o multiculturalismo é um irracionalismo.

Assim, para “fazer justiça”, sempre que a cultura ocidental insiste em exibir, a despeito de toda sua arrogância e de toda sua agressividade, qualidades positivas, corre-se para buscar as mesmas qualidades em toda e qualquer cultura. Mesmo que tais qualidades não existam.

Os povos nativos da América depois portuguesa não tinham uma matemática digna desse nome. Suas próprias línguas, como o tupi, costumam ter nomes apenas para os numerais de 1 a 10, usando para qualquer grandeza além dessa ordem a palavra correspondente a “muitos”. Isso não quer dizer que suas culturas não sejam respeitáveis. Mas sem dúvida quer dizer que não tinham matemática.

Não importa. Porque o multiculturalismo é um irracionalismo. Possivelmente insuficiente para afirmar que os tupis tivessem uma grande matemática. Porém mais do que suficiente para afirmar que tiveram uma grande “medicina”.

 

4.

Uma das manifestações mais extremas do multiculturalismo talvez seja o mito, criado e mantido por acadêmicos negros norte-americanos (ou melhor, “afro-americanos”), de que o Antigo Egito foi uma civilização negra (fundamentalmente, porque o país fica no continente africano). A impostura apenas explicita uma inconsciente autodepreciação – que os faz ter de apelar para a adulteração da história alheia (com a consequência adicional de tornar seu trabalho intelectual confiável apenas para seus seguidores ideológicos).

Outro efeito é diminuir os próprios egípcios, artisticamente: como os traços de suas esculturas não são africanos, nem escuras as peles das pinturas que restam em seus murais, é inevitável concluir que os egípcios eram, ou profundamente envergonhados de suas feições raciais, ou simplesmente incapazes de uma representação minimamente realista.

Pouco importa: baseando-se no fato de que são extremamente escassas suas representações, pude ver, em um documentário norte-americano, uma professora negra de um ginásio idem ensinando seus alunos que a própria Cleópatra era negra. Pois para essa multiculturalista em particular, não são todos os egípcios que tinham a pele escura, mas somente Cleópatra – motivo pelo qual, aliás, não haveria muitas representações suas. Muito lógico: os egípcios, agora brancos, não eram racistas para ter uma rainha negra, mas o eram para representá-la.

Talvez Cleópatra fosse de fato negra: desde que sofresse de um caso grave de vitiligo, tão grave a ponto de tornar toda sua pele branca. Afinal, sequer era egípcia. Pois apesar de rainha do Egito, era grega – herdeira da dinastia dos Ptolomeus, tornados casa reinante depois da conquista do país pelo grego Alexandre. Nem a via da miscigenação é aqui possível: a corte dos Ptolomeus é famosa, entre outras coisas, por sua extremada endogamia – mesmo para os padrões das cortes antigas –, na qual mesmo o incesto era habitual.

Vai ver, então, que os gregos também eram negros. Vai ver todo o mundo seja, no fundo, negro – sendo os brancos apenas albinos. Então, por que reivindicar somente o Egito? Por que não uma Atenas negra?

[Em] Black Athena (1987), o professor inglês Martin Bernal defende a tese de que a cultura grega teria raízes afro-asiáticas: viria do Egito (então com população predominantemente negra) e do Oriente Médio semita. [3]



Só não vejo a vantagem de tal reivindicação. Afinal, os gregos eram uns idiotas. Por exemplo: fazem referências, em vários textos, aos núbios, e os descrevem como negros. No entanto, não há uma só referência nos textos gregos ao fato de os egípcios, com quem os gregos tinham bastante contato, serem negros. Portanto, ou os gregos eram umas bestas, ou os egípcios não eram negros. Não obstante, assim têm aparecido nos documentários politicamente corretos made in Europe, que a BBC espalha pelo mundo através dos canais a cabo. Nos quais não apenas os egípcios estão cada dia mais escuros, como Cleópatra é cada vez mais morena. Não obstante, quase certamente era loira. Loira ou ruiva, como a maioria dos gregos antigos. Ao menos a se acreditar em idiotas como Homero, que se referem constantemente, em suas obras, às “longas melenas amarelas” desse e daquele herói, ou aos olhos azuis dessa ou daquela deusa.

Por falar em Homero, há ainda o fato, talvez desimportante, de que a língua grega é muita próxima do sânscrito, a antiga língua indiana. Pois os indianos, com seus olhos redondos, narizes afilados, lábios finos, corpo esguio, não são da família mongol, como os demais povos asiáticos, mas, ora, do grupo indo-europeu. Se os gregos eram loiros, viviam na Europa e falavam uma língua indo-europeia, o que têm mesmo a ver com a África e o Oriente Médio? Ah sim, o fato de todos sermos albinos.

O Egito, ao menos, fica na África (verdade que, apesar disso, não é habitado mesmo hoje por negros, mas quem se importa com fatos?). África em que também ficava Cartago, que, no entanto, era fenícia. Os fenícios também eram negros? Digo, afro-africanos. Pois negro, nos EUA, pátria do multiculturalismo como ideologia, é uma ofensa, sendo o correto “afro-americano”. No entanto, os brancos não são “euro-americanos” – mas simplesmente “americanos”. Nem os sul e centro-americanos que ali vivem – ditos “latinos” – são “sul-americano-americanos” e “centro-americano-americanos”, o que deveriam ser, para manter a justiça toponímica. Enquanto os nativos, ex-índios, não são “americano-americanos”.

Em todo caso, nunca houve escrita na África. Todos seus povos eram ágrafos. Assim também a América (com uma única exceção, os maias). A escrita é um conquista da Europa (gregos, a partir de fenícios e sumérios) e da Ásia (sumérios, fenícios, indianos e chineses). Todas as demais escritas são daí derivadas. Além disso, em grande parte do mundo sequer houve escrita por incorporação: ela só chegaria com os colonialistas europeus.

Mas resta a possibilidade, criada pelo camarada Stálin, de se adulterar os fatos históricos, mesmo os mais documentados. Dou então uma sugestão: afirmar que sempre houve escrita na África, tendo sido todos os seus registros minuciosa e sistematicamente destruídos por missionários brancos (“euro-europeus”). Claro que, assim, como no caso do mito do Egito negro, apenas se consegue o efeito contrário: a conclusão subliminar de que os próprios negros acusam certa inferioridade em sua história, daí resultando a necessidade desesperada de apelar para a impostura.

Mais sensato seria perceber, primeiro, que culturas não são hierarquizáveis – como o fazem tais militantes, ao colocar o Egito numa categoria superior, a ponto de torná-lo objeto de impostura; segundo, que as culturas, assim como os indivíduos, não se medem pela cor da pele – como fazem os racistas e os racistas às avessas que são os multiculturalistas.

 

5.

Na definição de um antropólogo, “o multiculturalismo é apartheid de esquerda”. Da “esquerda cultural”, pois fruto da contracultura, não do conservadorismo do establishment nem da esquerda tradicional. E apartheid porque, a despeito de suas boas intenções, denota o isolacionismo cultural: tudo vale e tudo tem valor, menos o que é “branco”. Ou seja: o valor de obras de outras origens é dado não pelas obras, mas por sua origem. O que é a essência do apartheid, apenas com o sinal trocado.

No colégio de East Orange, eles deixaram há muito tempo de ler os clássicos. Nunca ouviram falar de Moby Dick, o que dirá lê-lo. Jovens vinham me ver no ano em que me aposentei, dizendo que, para o Mês da História Negra, só leriam uma biografia de algum negro escrita por um negro.[4]



Pois vale a máxima dos multiculturalistas americanos, segundo a qual a cultura ocidental é uma criação de “homens brancos mortos”. Bem, de quem mais poderia ser? Macacos verdes vivos?

Nesse caso, o problema não estaria, incontornavelmente, em macacos nem em verdes, mas em vivos. Pois culturas não são “produtos”, que podem – ou devem – ser desenvolvidos no ano passado para ser consumidos como novidade neste. Ao contrário: “Civilizações são muito lentas e difíceis de construir, apesar de rápidas e fáceis de destruir”.

Não importa: vale o que não for fruto de “homens” (mas de mulheres, gays etc.), “brancos” (mas de qualquer outra cor) ou “mortos” (daí, imagino, o interesse por qualquer artista “performático”).

Quando não for possível omitir os “homens brancos mortos”, que se incluam então outros não-brancos ou não-homens ou não-mortos ao seu lado – a despeito dos fatos. Afinal, como disse o filósofo José Mindlin, “contra argumentos, não há fatos”.

Os eleitos, filme de Philip Kaufman baseado em um romance-reportagem de Tom Wolfe, narra em belas cenas de linguagem realista o essencial dos episódios iniciais da “saga espacial”. Incluindo os duríssimos testes físicos, biológicos, psicológicos e clínicos impostos aos candidatos a heróis (os eleitos do título em português).

Porque, para não nos perdermos em adjetivos, há alguma coisa de verdadeiramente heroico, no sentido grego, em uma viagem inaugural ao espaço. Mesmo que tal viagem inaugural seja, na verdade, o ponto final de um longo acúmulo de conquistas prévias.

Os testes foram especialmente duros em função do absoluto desconhecimento sobre o que se encontraria. Levantavam-se então inúmeras hipóteses sobre o impacto da viagem no organismo e na psique humanos, que em alguns momentos lembram as dúvidas e os temores dos marinheiros de Colombo sobre o que haveria “depois” do horizonte. As duas situações tinham, de fato, muito em comum.

Os russos já haviam estado lá. Ou não? Era o auge da Guerra Fria, e a propaganda, uma das suas armas principais. Mesmo se os filmes mostrando o voo orbital inaugural de Gagárin não fossem falsos, como afirmavam os direitistas e os nacionalistas americanos mais furiosos, isso não ajudava muito, pois os russos não forneceriam nenhuma informação sobre seus êxitos. Ao contrário. Se pudessem, passariam desinformações.

Não havia modelos a seguir. Não havia nada a seguir, senão a longa tradição científico-industrial que levara aqueles homens a poder conceber a viagem e se preparar para ela.

A cada necessidade surgida pelo ineditismo da situação, tinha-se de literalmente inventar uma solução nova. Enquanto inúmeros foguetes de ensaio explodiam sucessivamente nas rampas de lançamento.

O filme como o livro é, assim, uma elegia a uma conquista grupal heroica. Uma conquista da vontade e da técnica. Mais nada.

Uma conquista ocidental. Ou racional, branca, masculina – como todos os personagens do filme.

Durante o próprio ato da vitória, enquanto as estações de rastreamento estabelecem contato com a nave que, afinal, flutua fora da atmosfera, levando a bordo um astronauta solitário, John Glenn, terceiro Homo sapiens a deixar o planeta natal (o segundo fora o americano Alan Shepard, em um voo suborbital de 15 minutos), que extasiado pela beleza desconhecida do que via, tenta traduzi-la em palavras aos que o escutam na superfície, já perto do fim da narrativa, o filme de repente introduz um grupo de aborígenes australianos não-aculturados.

Parados à porta de uma casamata que sustenta um dos grandes radares de rastreamento da missão em pleno deserto australiano, eles perguntam o que é aquilo e para que serve. O rádio-operador da Nasa lhes explica a coisa toda como pode, sem, no entanto, conseguir evitar de transformar tudo numa espécie de lenda imediata: pois é difícil ser técnico, preciso e objetivo utilizando apenas um vocabulário acessível a interlocutores culturalmente tão distantes.

Não importa. Porque os aborígenes, espertíssimos, dão sábios sorrisos sutis antes de se afastar tranquilamente, apoiando-se em seus cajados com ares de quem entendeu tudo muito bem.

Eles acendem em seguida uma espécie de grande fogueira mágica em um lugar ermo, enquanto invocam com cânticos seus deuses. Fagulhas e faíscas então começam a rodopiar freneticamente, e depois a subir, subir e subir, até sair da atmosfera e tranquilamente envolver a nave numa espécie de nuvem de pó de pirlimpimpim luminoso em pleno vácuo. E não é que o herói ocidental, branco e masculino se torna de repente uma espécie de idiota sorridente, olhando para as faíscas aborígenes com mais embevecimento do que dirigira à esplendorosa visão da Terra emergindo gigantesca e azul do fundo infinito da noite idem do Cosmos?

Matam-se assim dois coelhos multiculturais com uma só claquetada. Primeiro, se introduz na narrativa de uma conquista técnico-científica um contraponto “xamânico”, irracional: caso contrário, o filme seria um hino de louvor ao racionalismo, além de um reforço da visão materialista do mundo (pois John Glenn não encontra anjinhos ao atingir o céu), o que não é aceitável. Segundo, “multiculturaliza-se” a conquista do espaço: pois se os brancos podem conquistá-lo, os aborígenes australianos também podem, como não. Caso contrário, a História não seria democrática, nem a realidade “politicamente correta”. Ou vice-versa.

Resta apenas a dúvida de saber se a História é, de fato, correta em qualquer sentido, já que, segundo o próprio filme, parece distribuir tão mal suas dádivas: afinal, os brancos são bem mais estúpidos do que os aborígenes, e isso não parece nada justo. Porque, se não fossem tão estúpidos, não perderiam tanto tempo, esforço, dinheiro e vidas para tentar por um caminho tão longo quanto difícil o que um grupinho de aborígenes sábios resolve facilmente apenas acendendo uma fogueirinha e xamãndo seus deuses.

Sem falar, claro, da burrice intrínseca ao nosso conhecimento do mundo – pois este afirma, segundo duas das leis mais clássicas da mecânica idem, que nenhum corpo pode alterar por si mesmo seu estado de movimento ou de inércia, e que a toda ação corresponde uma reação de força igual e de sentido oposto. Estas são, aliás, as bases teóricas dos foguetes, que portanto não podem subir sozinhos, mas dependem do empuxo proporcionado pela ação reativa ao escape dos gases resultantes da violenta queima de seus combustíveis. Perda de tempo. Pois as fagulhas aborígenes sabem levitar, ou seja, anular inteiramente a gravidade e o atrito do ar, até atingir o espaço.

O multiculturalismo, por outro lado, sabe anular toda objetividade. E não somente em filmes comerciais, mas também em documentários pretensamente sérios – nos quais não faltam antropólogos. E nos quais é habitual se afirmar, quando se trata de narrar a ação “terapêutica” de um pajé dessa ou daquela tribo, que se está assistindo a uma “cura”: “O pajé Tal, como se pode ver, está agora curando o menino...”; “O xamã Xis, depois de sair de seu transe, vai curar a mulher que...”. Pajés e xamãs, quando agem, curam. Logo, curam sempre. Curam inevitavelmente. O que se está esperando para fechar todas as inúteis faculdades de medicina do Ocidente?

 

6.

Poderíamos, depois, fechar as de história:

Existem pelo menos duas teorias concorrentes relativas à origem das populações nativas americanas. O consenso científico, baseado em inúmeros dados arqueológicos, é que os seres humanos chegaram pela primeira vez às Américas a partir da Ásia, entre 10 e 20 mil anos atrás, cruzando o estreito de Bering. Por outro lado, alguns mitos tradicionais índios sustentam que os povos indígenas sempre viveram nas Américas, desde quando seus ancestrais emergiram à superfície da Terra vindos de um mundo subterrâneo povoado de espíritos. E uma reportagem publicada no New York Times (22 de outubro de 1996) observou que muitos arqueólogos, “oscilando entre seu temperamento científico e sua admiração pela cultura nativa [...] chegaram perto de um relativismo pós-moderno no qual a ciência é simplesmente mais um sistema de crenças”. Por exemplo, Roger Anyon, um arqueólogo britânico que trabalhou entre o povo zuni, foi citado como tendo afirmado que “A ciência é apenas um dentre os muitos modos de conhecer o mundo. [A visão de mundo dos zunis] é simplesmente tão válida quanto o ponto de vista arqueológico sobre o que é a pré-história”. Talvez as afirmações do dr. Anyon tenham sido incorretamente reproduzidas pelo jornalista, porém se ouve esse tipo de afirmação muito frequentemente hoje em dia, e gostaríamos de analisá-la. Note-se primeiramente que a palavra “válida” é ambígua: deverá ser entendida em sentido cognitivo, ou em algum outro sentido? Neste último caso, não temos nenhuma objeção; todavia, a referência a “conhecer o mundo” sugere a primeira hipótese. Ora, tanto na filosofia como na linguagem do cotidiano, distingue-se entre conhecimento (entendido, aproximadamente, como crença verdadeira justificada) e mera crença; eis porque a palavra “conhecimento” tem conotação positiva, enquanto “crença” é neutra. O que, então, Anyon quer dizer com “conhecer o mundo”? Se ele tem em mente a palavra “conhecer” em seu tradicional significado, então sua afirmação é simplesmente falsa: as duas teorias em questão são mutuamente incompatíveis, e por conseguinte não podem ser ambas verdadeiras (nem sequer aproximadamente verdadeiras). Se, por outro lado, ele simplesmente está observando que diferentes povos têm crenças distintas, então sua afirmação é verdadeira (e banal); porém é induzir a erro empregar a palavra “conhecimento”. Mais provavelmente, o arqueólogo muito simplesmente permitiu que suas simpatias políticas e culturais ofuscassem seu raciocínio.



“Simpatias políticas e culturais” por povos distintos são não somente respeitáveis como profundamente louváveis. Não apenas porque a humanidade é constituída por seus povos. Mas também porque, do próprio ponto de vista ocidental contemporâneo, nenhum outro povo ou cultura foi jamais tão condenável por crimes e barbáries como a cultura ocidental.

Seja pelos crimes históricos do cristianismo, os crimes crônicos do colonialismo, do imperialismo e do capitalismo, ou os crimes agudos do nazismo (de certo modo ligados aos do cristianismo, por ser a matriz histórica do antissemitismo europeu). No entanto, simpatias não geram conhecimento. Pois facilmente “ofuscam o raciocínio”:

Quando desafiados, os antropólogos relativistas às vezes negam que exista distinção entre conhecimento (isto é, crença verdadeira justificada) e mera crença, por negar que essas crenças – mesmo crenças cognitivas acerca do mundo exterior – possam ser objetivamente (transculturalmente) verdadeiras ou falsas. Mas é difícil levar a sério tal declaração. Milhões de nativos americanos não morreram realmente no período que se seguiu à invasão europeia? Ou isto é simplesmente uma crença assumida como verdadeira em algumas culturas? [6]



Se, sob o largo e espesso manto do multiculturalismo, isso acontece com a ciência, o que não acontecerá com a arte?

Bem, nas artes plásticas, acontece tudo. Tudo vale. E nesse vale-tudo, nada se distingue. Daí o único critério restante para se julgar a relevância de uma obra ser seu valor de mercado.

Na poesia, emergem coisas como a “etnopoesia” e o orientalismo poético. O orientalismo poético é o que seu nome diz: uma poesia “orientada” para o Oriente, seja por referências ao budismo ou pela adoção de estruturas orientais como o haicai. A “etnopoesia” completa então o quadro das poéticas não-ocidentais, ao relevar a poesia dos povos tribais (com o perdão da rima pobre).

Mesmo se, para encontrá-la, tenha de transformar em poesia aquilo que para, seus próprios autores, é outra coisa. Poesia é uma forma de arte, mito uma forma de ver o mundo – que pode, eventualmente, usar formas próximas às da poesia, como também outras próximas às da prosa. O que importa é a visão de mundo que o mito comporta.

Mas além de hipervalorizada na tradição ocidental (ao menos em termos culturais, pois materialmente os poetas sempre foram os artistas pior remunerados), a verdade é que a poesia, no limite, só existe na tradição ocidental. Pois a poesia nada tem de “natural”, no sentido de ser inevitável ou universal. Se toda cultura e toda tribo tem sua culinária, suas armas, suas ferramentas, sua indumentária e seus cantos, essas cantos não são, porém, poesia.

É em função de sua grande valorização cultural ocidental, em todo caso, que os chamados “etnopoetas” acreditam dever procurá-la, e necessariamente encontrá-la, em todos os lugares. Sem perceber o profundo desrespeito que há nisso. Pois mitos e cantos indígenas não são poemas, mesmo se transmitidos em estruturas formais aparentemente semelhantes – do mesmo modo que provérbios são provérbios, e slogans, slogans, apesar de rimas e ritmos eventuais.

A simpatia multicultural “etnopoética” é, na verdade, arrogância etnocêntrica (apesar da ironia que há nisso): pois crê conceder a tais cantos e mitos um status bastante alto – aquele que detém a poesia na cultura ocidental.

No entanto, ao contrário do que pretende o “democratismo” multiculturalista, arte, ou poesia, não é o que o artista, ou o poeta, assim determina, porque somos animais sociais: o grupo define o significado do que não seja absolutamente pessoal. Poesia, então, é aquilo que uma cultura reconhece como poesia. E apenas uma cultura reconhece a poesia como poesia.

A função social da poesia é o que nós, ocidentais, chamamos de arte. E a arte é a autonomização da função estética. Tal autonomização, no limite, só existe na cultura moderna. Mesmo no Ocidente, durante a Idade Média, a arte, que era necessariamente sacra, era necessariamente sacra porque sua função primária era ser sacra, e não artística. Ou seja, ilustrar passagens bíblicas, representar santos e engrandecer templos.

As famosas máscaras africanas que no início do século XX influenciaram a arte moderna só se tornaram arte ao serem levadas para a Europa, pois foram, na verdade, criadas como objetos rituais. Suas formas, e o próprio fato de existirem, vêm do rito que integravam, não de qualquer conceito artístico. Só é escultura o artefato escultórico cuja função é estética. Os outros têm de se “tornar” esculturas, ao serem postos no pedestal da tradição ocidental de arte.

Só é poesia o artefato poético cuja função é estética. O famoso haicai japonês, portanto, no limite não pode ser considerado uma forma poética. Não por acaso, sua forma e também seus temas obedecem a considerações zen-budistas de “natureza”, movimento e estase – além de irem na contramão da valorização ocidental da criatividade individual. O que resulta em pequenez, neutralidade e banalidade – que ninguém, porém, de fato reconhece, como na fábula da roupa nova do rei ninguém reconhecia sua nudez. Se ali todos se obrigavam a “ver” a roupa exuberante para não ir contra o desejo real, aqui se trata de não afrontar o politicamente correto. Não se pode dizer (ou mesmo perceber) que os principais preceitos poéticos japoneses resultam em pequenos “poemas” banais. Mesmo que seja o que de fato pretendem ser. [7]

 

7.

Nada desestimula o orientalismo poético ocidental. Em relação ao qual eu jamais poderia ser mais claro e sintético do que isso:

O orientalismo é marca de geração, desde beatniks e hippies, estratégico antídoto contracultural à Razão e ao Ocidente. [8]



Se é antídoto, serve para um veneno. Neste caso, um Veneno maiúsculo, para o qual não basta um antídoto tático, tendo então de ser “estratégico”: a Razão. Mas não apenas a Razão: também o Ocidente em si mesmo. O Ocidente, senso lato, é enfim o Grande Veneno (o aiatolá Khomeini, esse sujeito moderno, tolerante, sensível às minorias, feminista radical etc., assinaria calmamente embaixo: para ele, esse não-surpreendente companheiro de ideias dos multiculturalistas, o Ocidente era o “Grande Satã”).

Portanto, os homens brancos e mortos que o destilaram, de Moisés a Marx, de Homero a Joyce, de Euclides a Einstein, de Sócrates a Kant, de Fídias a Rodin, de Apeles a Picasso, e todo o resto da multidão, foram, apesar de multidão, apenas um bando de envenenadores.

O Ocidente, esse Veneno. A Razão, essa imensa Taça. Verdade que a igualdade perante a lei, a extinção da servidão e da escravidão (que, sim, sempre existiram no doce Oriente), a democracia, a educação universal, o poder civil e laico, além do próprio conceito de humanidade, são todos, digamos, gotinhas que transbordaram de ambos, mas quem se importa. Veneno é veneno. Ainda melhor do que qualquer antídoto é jogá-lo todo fora.

No Brasil – ao contrário da Europa, onde o que predomina é o “indianismo” – o sabor preferido do “antídoto” orientalista é o “niponismo”. Portanto, em vez de magga (o caminho) e nibbana (o nirvana), tornaram-se mais difundidos o zen-budismo e o satori (“iluminação”).

Por isso se tornou comum ouvir afirmações de orientalistas de butique, entre as quais se destaca a de que adoram a “não-predominância do eu” do budismo. Afinal, o eu, o ego, é o centro, por definição, do egoísmo – e da egoica e egoísta cultura ocidental. Também dos Direitos do Homem e do Cidadão – isto é, do indivíduo –, mas quem se importa?

Quem se importa, igualmente, com o fato de o budismo não “negar o eu”?

Se pretende, quase em toda parte que, segundo Buda, não existe o eu. Não se observa, portanto, que o que Buda negou foi a realidade do ego sempre variável, da “individualidade”. [9]



Pois o budismo afirma (em dialeto páli): “Na me so atta”, “Isto não sou eu.” Sendo “isto” o que se costuma pensar ser a própria pessoa. Não se trata, portanto, de “negar o eu”, mas de negar que o que se costuma chamar “eu” seja o Eu verdadeiro. Dito de outro modo: o budismo, ao contrário de “negar o eu”, afirma que o que se costuma chamar de “eu” é, em si, a negação do Eu.

Seja lá o que afinal ele for: pois nem “eu”, nem o leitor, nem o Dalai-lama o sabemos, ou seríamos Buda. Em todo caso, trata-se não da “negação do eu”, mas da busca da extinção da negação do Eu – que é este estar. Uma vez extinta tal negação, que sombreia a percepção, o “verdadeiro Eu” é simplesmente iluminado (extinção, em sânscrito, se diz nirvana – que não é, portanto, um lugar passível de ser “atingido”).

Além de não “negar o eu”, o budismo não é uma religião sem deus, e tampouco – por ser, pretensamente, uma religião sem deus – uma forma de filosofia.

Deuses, no plural, na verdade é o que não lhe falta.

– Excelente Gotama [Buda], existem devas [deuses]?
– É uma coisa por mim conhecida de modo certo, Bharadvaja: existem devas.
– Não é isso vão e falso?
– Existem devas, Bharadvaja. Se um mestre interrogado responde que existem devas, ou se ele diz: “É uma coisa conhecida de modo certo, conhecida por mim”, é bem a esta conclusão a que chegarão os homens inteligentes.
– Por que não explicaste isso desde o princípio, excelente Gotama?
– Mas é uma coisa reconhecida no mundo, que existem devas. [10]



Palavras do próprio Buda. Portanto, nada que se discuta. O que sim se discute é como são esses deuses.

Quanto aos deuses (devas), por exemplo, os Indras, Brahmâs e muitas outras deidades menores, ou anjos, não é somente verdade que eles possuem ao menos tanta realidade que os homens – e que Buda, como outros Arahants visitam seus mundos e falam com eles; aliás, Buda é o “mestre dos deuses bem como dos homens”. [11]



Entendeu, meu pobre leitor? É muito simples: o budismo só pode fazer algum sentido se se considerar o bramanismo, politeísmo hindu do qual é derivado – não por acaso, uma das designações de Buda é “o que se tornou Brahma” (Brahma-bhuto).

Se o budismo tem afinal deuses, não tem, por outro lado, nada a ver com a filosofia. Apesar de suas pretensões “filosóficas” serem endossadas por autores do porte de um Octavio Paz:

Filosofia antes que religião, o budismo postula como primeira condição de uma vida reta a desaparição da ignorância acerca de nossa verdadeira natureza e da do mundo. Somente se nos damos conta da irrealidade do mundo fenomenal, podemos abraçar a boa via e escapar do ciclo de reencarnações, alimentado pelo fogo do desejo e do erro. [12]



O que o grande poeta mexicano não percebe, nesse primeiro parágrafo de sua longa descrição de tal “filosofia” – que segue sempre no mesmo sentido, de mera paráfrase das crenças budistas –, é que pretender, a priori, a “desaparição da ignorância sobre a verdadeira natureza” de qualquer coisa é partir do princípio de que tal desaparição seja possível: logo, também partir do princípio de que seja possível de fato conhecer a verdadeira natureza de algo. Porém isso nada tem a ver com filosofia (ao menos, não desde Kant).

Não é, portanto, de estranhar que, para uma tal “filosofia”, podemos “escapar do ciclo de reencarnações”. Talvez possamos. Porém jamais poderemos fugir da percepção de que aqui não se trata de filosofia nenhuma – mas pura e simplesmente de uma religião. Afinal, não creio que se aborde a reencarnação em qualquer tratado de lógica.

Se não bastasse, deveria ser evidente que, enquanto a filosofia se baseia na argumentação, o budismo, como qualquer religião, baseia-se na fé e no princípio da autoridade.

Será objeto de fé (saddhã) do discípulo até que disto ele tenha experiência, até que o conhecimento venha substituir a Fé. [...] Quem diz fé diz autoridade; a autoridade de Buda (mahapadesa) que repousa sobre sua experiência imediata é aquela de suas palavras tais como ele as pronunciou.[13]



O budismo é um caminho de “salvação” individual. Ou “você” consegue extinguir (nirvana) seu falso “eu”, para fazer emergir o Eu verdadeiro, ou azar. É, na verdade, a mais egoísta das religiões. No mínimo, a que menos tem qualquer dimensão de realização social (daí ser a religião adequada para um jovem milionário da Costa Oeste dos EUA poder se “desconectar” das misérias espirituais de sua riqueza, depois de desconectar seu laptop e pôr-se a meditar na amplidão de um loft ou na brisa de uma varanda ensolarada). Por isso, na vertente hindu original, o budismo é indiferente ao sistema de castas. Enquanto na vertente japonesa, o zen, serviu muito bem ao cruento militarismo nipônico da primeira metade do século XX.

Foi do amálgama entre o nacionalismo confuciano, o xintoísmo (com seu culto aos ancestrais) e a “não-prevalência do eu” do zen que emergiu o exército de marionetes sanguinárias do Império do Japão.

Os indiferentes assassinos japoneses dos massacres de rua de Nanquim, em dezembro de 1937 – um dos maiores e mais sangrentos de um século de massacres sangrentos, conhecido em inglês como “the rape of Nanking” –, os responsáveis pelo sequestro em massa de coreanas para servir sexualmente o exército imperial, bem como os completamente aegoicos kamikazes de 1945, ilustram muito bem um dos resultados históricos recentes do doce orientalismo e seu coletivismo, não de cidadãos, mas de não-cidadãos – cujos traços individuais devem ser esmaecidos em nome da homogeneidade.

O Oriente só é doce na cabeça sem sal dos multiculturalistas.

 

8.

Com quantos milhares de cadáveres de escravos se constrói uma Muralha da China?

Daí o consagrado termo orientalismo se referir, para os historiadores, a “tendências despóticas e cruéis de um poder centralizado”: diz-se então do czarismo russo que tinha “caráter oriental” (herdado pelo stalinismo: absolutismo, servilismo, arbitrariedade, brutalidade), para distingui-lo do “despotismo esclarecido” das monarquias europeias modernas. Basta pensar nos paxás indianos, nos sultões turcos e nos imperadores chineses.

Tal característica era tão determinante na estrutura de poder que, até a ocidentalização ocorrida ao longo do século XX, a democracia manteve-se, simplesmente, incompreensível.

No fim do século passado, um japonês ilustre visitava os Estados Unidos no momento de uma eleição presidencial. Espantado, escreveu que naquele país havia um leilão de presidentes. [14]



Mais surpreendente do que os orientalistas de butique, só mesmo as orientalistas de butique – pois costumam ser, também, hiperfeministas. A despeito de em todo o Oriente a mulher ter sido sempre tratada de modo a fazer do patriarcalismo ocidental o próprio paraíso terrestre.

Para além do Taleban e suas belas burcas, entre os muçulmanos até hoje vigora o direito de honra, segundo o qual mulheres podem ser, devem ser e são espancadas e eventualmente mortas pela própria família em nome, justamente, da honra familiar. No Japão, a mulher não apenas sempre caminhou atrás do homem, nas calçadas, como sequer podia erguer-lhe os olhos ao falar – ao menos até 1945, quando as tropas americanas impuseram alguma modernização dos costumes (o que não impediu que a pílula anticoncepcional só fosse liberada em 1999). Na Índia, abortar bebês femininos e matar mulheres por insatisfação com o dote ainda são habituais.

Os números contam uma história velha e cruel: a eliminação sistemática das meninas na Índia. [...] Dados preliminares do censo de 2011 mostram que o desequilíbrio [entre os gêneros] se agravou. [...] O demógrafo Ashish Bose e o economista Amartya Sen chamaram a atenção para as mulheres desaparecidas da Índia há mais de uma década. O aborto de fetos femininos aumentou à medida que a tecnologia médica tornou mais fácil a detecção do sexo do bebê ainda não nascido. Se for uma menina, as famílias frequentemente pressionam as mulheres grávidas a abortar. [...] Em um relatório do Unicef de 2007, Alka Gupta explicou parte do problema: a discriminação contra as mulheres, já entranhada na sociedade indiana, cresceu devido aos desenvolvimentos tecnológicos que agora permitem que clínicas móveis de escolha de sexo ingressem sem controle em quase todas as aldeias ou bairros. [...] Ela aponta vários fatores que levam à preferência por meninos em muitas partes da Índia, especialmente no norte conservador: os filhos são uma fonte de renda para a família, as filhas se casam e ingressam em outra família e não estão mais disponíveis para cuidar de seus pais, os dotes tornam as filhas uma despesa e, nas áreas rurais, há o temor de que as mulheres que herdem terras possam transferir a propriedade para a família do marido. Outra forma de violência contra a mulher – as mortes por dote – é igualmente bem documentada, e igualmente terrível, apesar dos indianos estarem tão acostumadas com elas que elas se tornam quase invisíveis. Os nomes de Sunita Devi, Seetal Gupta, Shabreen Tajm e Salma Sadiq não chamam muito a atenção da maioria dos indianos, apesar de estarem todas nas notícias na semana passada por motivos semelhantes. Sunita Devi foi estrangulada em Uttar Pradesh, a grávida Seetal Gupta foi encontrada inconsciente e morreu em um hospital de Déli, Shabreen Tajm queimou até morrer em Karnataka e Salma Sadiq sofreu um aborto após ser espancada por seu marido em Bangalore. As exigências por dotes maiores por parte da família do marido estiveram por trás de todos esses atos de violência, e são tão comuns que recebem apenas uma breve menção nos jornais. [15]



Na China se mantém disseminada a antiga prática de matar bebês do sexo feminino, e não por causa da política de um só filho, mas ao contrário, apesar da Revolução e da modernização (isto é, da relativa ocidentalização): trata-se de “melhorar o perfil familiar”.

Os ocidentais tendem a acreditar que a culpa [pela prática do infanticídio feminino na China] é da política do filho único, mas [a escritora chinesa] Xinran tem outras explicações. Ela começou a coletar dados sobre o assunto quando era apresentadora de um programa na rádio chinesa, “Palavras na brisa noturna”. Nele, Xinran falava de pessoas comuns, mas não com a liberdade com a qual aborda hoje temas espinhosos, como o assassinato de bebês do sexo feminino. Meninas recém-nascidas são afogadas na própria água da bacia usada para fazer o parto ou, se escapam com vida, deixadas nas portas dos orfanatos [...]. Em 1989, a jornalista visitou um vilarejo miserável ao norte do rio Amarelo e uma mulher de pouco mais de 30 anos perguntou à então repórter se ela já havia “resolvido” uma bebezinha – ou seja, se havia se livrado de um recém-nascido do sexo feminino. Xinran, confusa, não entendeu a pergunta, mas foi obrigada a ouvir a resposta: a família do marido jamais a perdoaria se ela não soubesse “resolver” meninas. Seria espancada e sua ração alimentar reduzida ao mínimo. Isso não foi o pior que ela testemunhou em Yimeng, na província de Shandong. Ao entrar na casa de uma família camponesa, ouviu um gemido de dor vindo do quarto, mas não o choro do bebê, que veio logo depois num balde de água suja com um pé saindo dele. O pezinho tremeu, Xinran aproximou-se do balde, mas era tarde. “Resolver uma bebezinha não tem nada de mais por aqui”, explicou uma das moradoras da casa. “Meninas são sufocadas ou jogadas nos córregos da China há séculos, particularmente por pessoas mais simples, que acreditam dever aos ancestrais um primogênito ou ainda ouvem as más previsões de adivinhos”, diz Xinran. [16]



Doce Oriente...

Não, o Tibet não era uma exceção paradisíaca – o Shangri-lá que ocidentais hollywoodianizados ainda buscam no Himalaia – antes de ser invadido pela China. Era, conforme relatos de inúmeros viajantes do século XIX, uma teocracia despótica (como costumam ser as teocracias), em que uma população inteira trabalhava de modo servil nas mais extremas condições, a fim de sustentar uma enorme classe político-religiosa em seus confortáveis templos-palácios – como o magnífico e gigantesco Potala, erguido no topo de uma colina 3700 metros acima do nível do mar (sem máquinas). Tudo sob os cândidos sorrisos de inúmeras reencarnações do Dalai-lama...

Do que se conclui, portanto, que todo mal provém do Oriente – incluindo certo “caráter oriental” apontado no nazismo europeu, com seu totalitarismo massificante.

Não, o mal não provém do Oriente. Mas tampouco o bem – seu “antídoto estratégico” –, como pretende o maniqueísmo infantil do multiculturalismo, doença senil da contracultura.

 

9.

A contracultura é a origem do multiculturalismo como ideologia. Ela que não é, obviamente, contra a cultura em si, ou seja, contra qualquer cultura, mas apenas contra a moderna cultura ocidental. Porém ao negar a cultura da qual se participa, fica-se sem nada. Daí a necessidade de, ato contínuo, tentar substituir a cultura negada por outras. Daí, então, a busca por alternativas.

Alternativas que só podem ser de dois tipos: distantes no tempo ou distintas no espaço. Pois sendo o presente o presente, restam o passadismo e o exotismo. Daí, enfim, a busca por práticas “tradicionais”, por um lado, e exóticas, por outro. E como a moderna cultura ocidental se caracteriza pelo racionalismo, a contracultura privilegia o irracionalismo na sua busca de alternativas.

O nome dessa busca não é outro senão multiculturalismo, a face “positiva” da contracultura (pois a contracultura é apenas a etapa negativa inicial).

Já a face pragmática do multiculturalismo batizei de agregacionismo: tudo ao mesmo tempo agora. Além de assim se diluir o Veneno ocidental, também se aumenta a oferta de opções no grande mercado cultural.

Daí a morte do jazz em meados dos anos 1970, quando Miles Davis inventou o fusion. Fusion, literalmente, fusão, como o nome diz, é puro agregacionismo. Neste caso, o gesto de agregar aos instrumentos tradicionais do jazz, que é música acústica, primeiro instrumentos elétricos, depois, instrumentos quaisquer – além de elementos musicais de qualquer tradição distinta da jazzística: rock, salsa, música hindu, música malaia e o que mais houver. O resultado, como definiu alguém, foi um “jogo de tênis sem rede”. No qual a bolinha representa a música, que pula para lá e para cá, sem direção nem sentido, entre os vários instrumentistas que, de fato, dividem apenas o palco. Pois apesar do nome e da bem intencionada “abertura ao diálogo musical”, o fusion resultou em uma colagem desconexa de monólogos – os elementos musicais são em número e disparidade elevados demais para permitir qualquer verdadeiro diálogo, como era o caso do jazz. Além disso, as motivações não foram musicais, ou não musicais apenas, mas ideológicas (e comerciais). Pois se tratava de “adequar” o jazz, que teria se tornado elitista (ou “música de museu”, nas palavras do próprio Miles Davis), ao multiculturalismo.

A grande ironia é o fato de o jazz em si mesmo ser multiculturalista de origem, fruto da fusão entre tradições europeias e africanas em solo americano. O que não impediu que o fusion, um movimento de agregacionismo explícito, o destruísse. Pois do mesmo modo que o multiculturalismo, sendo um fato histórico profundo, abrangente e determinante – como o demonstra o próprio jazz –, é desnecessário como ideologia e falseador como militância, assim também o agregacionismo, ou seja, a prática dele derivada.

Se o fenômeno se limitasse ao jazz, já seria triste o bastante. Mas, infelizmente, não se limita.