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O silêncio dos intelectuais


Perguntado sobre o que achava da passeata realizada no Rio de Janeiro, em protesto contra o projeto de lei que regula a distribuição dos royalties do petróleo brasileiro pelos estados da Federação, Antonio Candido deu o seguinte depoimento ao jornal Folha de S.Paulo, em 22 de março último: “Aos 92 anos, as minhas preocupações são: se vai ter bolo de fubá no café da manhã, se o suco de laranja tem gelo ou não (eu não posso com gelo), e o que vai ter para o jantar. Só”.

Trata-se – certamente – de uma ironia e de uma autoironia. Em um de seus últimos e mais belos livros – O Neutro –, obra em que ainda o vemos às voltas com os estereótipos, clamando contra a opinião corrente – a “Doxa” –, Roland Barthes nota que a velhice é um preconceito metafísico, que só faz sentido do ângulo da aposentadoria e da seguridade social. Causa-lhe certa indignação essa “socialização da fadiga” que cerca a ideia do idoso, incomoda-o aquilo que chama de “jogo de esquiva” e “jogo de escusa” aí em ação, nesse mito que paga tributo à vida administrada.

É claro que Candido não faria esse jogo, nem o tomaríamos pela palavra – malgrado a palavra contar tanto em literatura – quando se diz voltado hoje apenas para os alimentos não espirituais. Mesmo porque sempre o vemos falando de política. Toda vez que é chamado a pronunciar-se sobre o regime dos irmãos Castro – há 51 anos no poder –, comparece com disciplina. E chegam-nos frequentemente notícias de que marcou presença em algum encontro de artistas e intelectuais com Lula. Assim, por exemplo, lá estava ele, no posto e a postos, na Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo, em julho de 2009, quando do lançamento do projeto do Vale-Cultura, ouvindo o presidente elogiar, do palco, sua “solidez socialista”.

Antonio Candido, que passou a infância e a adolescência em Minas,
recebe de Aécio Neves a Medalha da Inconfidência, em 2007

 

Estamos diante de um animal político. Como o próprio Candido confessava ser à revista Teoria e Debate, em uma velha longa entrevista do final dos anos 1980, em que nos conta que sempre soube, desde moço, qual era o lado certo da História, e que sempre se ergueu por ele. O internauta encontrará na rede esse registro http://www.fpabramo.org.br/node/314 (também com trecho transcrito abaixo), em que se declara favorável ao partido único, à censura – mesmo quando voltada aos escritores –, e até mesmo à suspensão dos direitos humanos básicos, caso necessário.

Assim, é só provisoriamente que alguma coisa não bate, aqui, nesta súbita contra-arregimentação. Diante do militantismo do autor de Literatura e sociedade, restabeleçam-se os parâmetros: do que Candido parece não querer falar é da conjuntura política brasileira atual. Até porque o PT já está em campanha eleitoral, e os lucros do petróleo o atrapalham. E chamem-se as coisas pelos seus nomes: é como faz o fariseu, que toma distância do Irã, mas não da greve de fome de Orlando Zapata Tamayo e de Guillermo Fariñas. Este último, há mais de um mês em protesto pela morte daquele primeiro, em 23 de fevereiro. Os Castro os consideram “criminosos comuns”. Ouçamos, entretanto, sobre essa tópica, o que o cubano Antonio José Ponte escreveu no El País espanhol de 31 de março próximo passado:

“La versión oficial falsea los dos términos de cualquier ecuación de violencia que se le presente. De quienes se arriesgan a exteriorizar su desacuerdo dirá que son mercenarios del Gobierno estadounidense. De quienes la emprenden contra aquellos, que son defensores voluntarios de la revolución. Desprestigiados los primeros y metamorfoseados los segundos (de cancerberos de oficio en ciudadanos preocupados), la violencia callejera queda vaciada de todo contenido gubernamental. Y, hecha esta operación, la responsabilidad por cualquier imagen infeliz que trascienda no incumbe a las autoridades. Porque ni ejército ni policía parecen participar en el desorden.

Estos y otros subterfugios se han hecho evidentes en las recientes imágenes de violencia alrededor de las Damas de Blanco. El grupo de mujeres asiste a misa, marcha en protesta por las calles, y suele distinguirlo, además del color de sus ropas y la espiga de gladiolo que porta cada una, la turbamulta de acosadores y el cordón policial que aparenta protegerlas, capaz de ir contra ellas en cuanto lo considera oportuno. (Se trata de un cordón epidemiológico, no ordenado para cuidar a esas mujeres, sino para evitar el contagio de quienes quedan fuera del círculo.)”

O objetivo dos Castro é óbvio: camuflar a repressão – por meio de falsos “voluntários”, e, igualmente, camuflar a ideia de que há uma oposição política, de consciência.


Valor excepcional de Candido

Nem porque o recurso à melhoridade – para dizermos como os promotores turísticos, que também acenam com prazeres despreocupados para os que já vestiram o pijama – é aqui uma desconversa, deixa-se de notar que o desengajamento vem se tornando uma lei do meio petista, cujos intelectuais, subitamente, voltam aos seus aposentos. Quem não saía da mídia, agora refuta o timing da mídia, passa a reivindicar a paciência do conceito. Ao mesmo tempo, colóquios são armados para fundamentar essa batida-em-retirada, nesta precisa encruzilhada da História, funartizando-se a questão. Candido não se fez na mídia, como alguns desses de que estamos falando, mas nos pareceu igualar-se, de repente, a eles, na autocensura, ao enveredar pelo discurso sobre o bolo de fubá. Com tudo que isso nos lembra momentos do jornal O Estado de S. Paulo, à época da ditadura e da censura.

Esta não é a primeira vez que o surpreendemos optando pelo desdito da ironia. Veja-se o que ele dizia ao mesmo jornal Folha de S.Paulo, em 2 de abril de 2004, por ocasião do desaparecimento de Hilda Hilst: “Ela era uma escritora de grande originalidade e de grande coragem nas ideias e atitudes. Sua morte é realmente uma grande pena e uma grande perda”. Endereçada à mais contundente das literaturas, esta outra proferição também parece só fazer sentido no segundo grau. Estaríamos delirando ao interpretar que a cerimônia dessa declaração denuncia o pouco apreço do crítico pelo impropério da mais poderosa escritura brasileira feminina do  século 20?

André Maurois e François Mauriac fizeram o mesmo com Proust, ao votar-lhe belas palavras ocas – a revelação final da eternidade dos instantes em Em busca do tempo perdido – para não tocar na escabrosidade do romance. Aliás, é esse o modelo de crítica proustiana que influi, aqui, nos anos 1940, sobre o espírito da revista Clima.

Já sabíamos, por termos lido Proust, quanto os grandes homens podem ser decepcionantes, quando vistos, finalmente, de perto, depois de terem sido longamente idealizados. Qual proustiano não conhece aquele momento delicioso do ciclo No caminho de Swann, em que o jovem narrador se depara com Bergotte, personagem encarregada, na Recherche, de representar todo o côté da melhor literatura, e o descobre assim: “A senhora Swann [...] pronunciou o nome do doce cantor de cabelos brancos. O nome de Bergotte me fez estremecer como o estampido de um revólver que tivessem descarregado em mim, mas instintivamente, para dar mostras de boa educação, o saudei. Diante de mim estava um homem jovem, rude, baixinho, atarracado e míope, com um nariz avermelhado em forma de caracol e barbicha escura”. Sobre esse mesmo Bergotte, o narrador maduro ainda haveria de descobrir, mais adiante, que não era assim tão bom escritor.

Os efeitos bergottianos de Candido – com todo o respeito que nos merece sua obra – vão dos políticos aos poéticos, ousamos observar. Até por pensarmos que contestá-lo é dar-lhe vida e valor, é recusar tomá-lo pelo aposentado.

Intelectuais uruguaios de esquerda lançaram, no calor do fato, um manifesto, realmente útil, sobre a situação dos presos políticos cubanos, contra os procedimentos dos Castro, como noticiou o El País do Uruguai. Sem meias palavras repudiaram os “hábitos stalinistas de Cuba” e “a imposição do partido único dogmático”, que leva ao cárcere “personas que se han atrevido y se atreven a reclamar y proponen ejercer sus derechos básicos de reunión, de asociación, de opinión y desplazamento”. Seus nomes: Alma Espino, Álvaro Diaz Maynard, Carlos González, Judith Sutz e vários outros. Concluem: “Las condenas a prisión son severísimas y las descalificaciones (‘gusanos’, ‘traidores’, ‘aliados del imperialismo’) son humillantes”. As condenações, decretadas em 2003, chegam a 28 anos de prisão. O crime: discordar pacificamente do regime dos Castro.

Por sua vez, Eugênio Bucci – que retoma, num certo sentido, a voz de Ponte, quando ela ressoa o simulacro que se tornou o regime castrense – percebeu (Observatório da Imprensa, em 17 de março): “Assim, o apoio incondicional à ilha virou um critério para separar o que é ser ‘de esquerda’ do que é ser ‘de direita’. É irracional, mas ficou assim mesmo. Alguém que se insurja contra as prisões, as perseguições e as execuções em Cuba só pode ser ‘de direita’”.

Sem medo de ser apontada na rua como alguém a serviço da direita, permito-me pensar o seguinte, em voz alta.

Primeiro, Candido nos decepciona, a nós leitores de Cabrera Infante, por abraçar o abraço de Lula nos “viejos amigos” Fidel e Raúl, em Havana, no exato dia do enterro (24 de fevereiro) do preso de consciência – assim reconhecido formalmente pela Anistia Internacional – Orlando Zapata Tamayo, depois de 85 dias de greve de fome.

Segundo, Candido nos decepciona por afirmar o que se segue, como já anotado no início deste artigo:

“Imagino que em uma sociedade revolucionária deva haver licença para o funcionamento de todos os partidos democráticos e não para os que têm intuito restaurador. A liberdade será construída dentro de algumas violentas negações. O partido único é horrível, mas até ele é aceitável se for para promover uma verdadeira construção do socialismo, como é o caso de Cuba. Não é uma boa solução, mas é admissível. No entanto, em Cuba há práticas negativas que são devidas com certeza a este fato. E o pior é que são desnecessárias e só se explicam pelo constante estado de alerta em que vivem os cubanos, que têm o inimigo ali na porta, e mesmo dentro de casa, em Guantánamo. Lá não se publicam os nomes de certos escritores contrários à Revolução, por exemplo, e eu já fiz a experiência disto em uma entrevista que dei em Havana no ano de 1979. Acho que isso é um temor excessivo e uma consequência negativa da censura, que, no entanto, é necessária em certos setores para evitar a infiltração do inimigo. Por causa desse modo de ver eu sempre choquei os meus amigos de mocidade, com certeza mais apegados do que eu às formas habituais de democracia. Mas o fato é que estou preparado para aceitar uma sociedade onde haja restrições provisórias à liberdade, inclusive de pensamento, se isso for indispensável para se chegar à justiça social e à verdadeira democracia. Contanto que não surja daí uma sociedade bárbara, como foi a do stalinismo na Rússia durante muito tempo. Não é o caso de Cuba, onde já estive três vezes e é uma sociedade profundamente humana, apesar das desarmonias e lacunas.”
(in Teoria e Debate)

Flaubert escreveu, em algum ponto de sua magnífica correspondência, que ouvia as palavras rangerem. Ficar uma semana em cima de uma frase, como ele fazia, fala disso. Em certas declarações de Candido as palavras rangem, rumorejam, dir-se-ia. É uma pena! Tratando-se de quem se trata, esperávamos dele melhores palavras contra os desmandos do governo Lula e contra a brutalidade dos Castro – pensando que cabe ao intelectual ser sempre contra o governo, qualquer que seja ele.


* Leda Tenório da Motta é professora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Estudou na França com Roland Barthes e Julia Kristeva. Crítica literária com passagem pelos principais cadernos de cultura do país. É também tradutora de, entre outros, as Máximas de La Rochefoucauld e O spleen de Paris, de Baudelaire. Eis alguns de seus livros: Sobre a crítica literária brasileira no último meio Século, Lições de literatura francesa, Catedral em obras, Literatura e contracomunicação e Proust – a violência sutil do riso, Prêmio Jabuti de Teoria e Crítica Literária de 2008. Foi também diretora do Centro Cultural São Paulo, junto com o  José Américo Motta Peçanha, durante todo o governo Erundina-Chauí, coordenadora da primeira edição da Lei Mendonça e Prêmio APCA Categoria Produção Cultural por organizar para essa gestão o evento Artes e ofícios da poesia (encontro e livro) em 1989.



A morte de Zapata: a favor dos Castro
http://www.cubadebate.cu/opinion/2010/02/26/orlando-zapata-tamayo-la-muerte-util-de-la-contrarrevolucion/
ou
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=581JDB009

 


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