ESTADO CRÍTICO
Sibila investe em novos críticos e novos tradutores.
Reinaldo Lopez, um pintor negro em Cuba
Entrevista a Marcelo Flores
 Foto de Marcelo Flores |
O pintor Reinaldo López, nascido em 1934, na cidade de Matanza, tem obras expostas no Museu Nacional de Arte Cubana e reside hoje com sua família em Havana, no bairro de Playa, onde mantém seu estúdio. Tive a oportunidade de entrevistá-lo, lá mesmo, em Havana, julho último, por conta de indicação do poeta mexicano e conselheiro editorial da Sibila, José Angel Leyva. Em sua casa, conversamos sobre a situação das artes plásticas em seu país e sobre sua obra em particular. Reinaldo “explica” alguns de seus trabalhos. Estavam presentes também, na entrevista, Martha Teresa Ximeno, antropóloga e sua mulher, e David Lópes Ximeno, filho do casal e jovem poeta, que contribuíram com o diálogo através de algumas interferências.
A obra de López é de central importância no contexto artístico cubano. Ele presenciou a revolução de 1959 (que levou o regime de Fidel Castro ao poder), e acompanhou, por todos esses anos, o ambiente cultural de lá, que passou por diversas e marcantes transformações. Testemunhou o auge e a decadência do movimento modernista cubano (movimento que vai de 1927 até os anos 1960), bem como o chamado Qüinqüênio Gris, período que vai de fins da década de 1960 até o começo dos anos 1980, em que a liberdade de expressão no país foi intensamente tolhida pelas imposições do regime de Castro. Imposições que obrigaram os artistas a trabalharem estéticas fechadas em si mesmas ou que fizessem parte do realismo revolucionário, uma tendência dessa época, em que foram abordadas, de forma extremamente realista, apenas as questões do cotidiano revolucionário.
Seu trabalho foi exposto em diversos países e registra, com uma linguagem bastante contemporânea e universal, os traços das culturas afro-cubanas, promovendo uma interessante mescla entre a pintura moderna e a arte primitiva africana; nota-se, por exemplo, em sua obra, a forte presença de aspectos da Santeria, religião de origem africana similar, em muitos aspectos, ao Candomblé do Brasil. Entre seus trabalhos, ilustrou uma edição inteira da revista mexicana de poesia, “Alforja” (www.alforjapoesia.com), em 2004. (Marcelo Flores, escritor e aluno da FFLCH/USP)

Cuba, perspectivas entre o velho e o novo (foto de João Rodrigues)
Marcelo Flores: Seu trabalho é conhecido por cultivar as origens negras da cultura cubana. Por que razão você faz isso?
Reinaldo López: Eu pinto com raízes negras cubanas e caribenhas. Trato de fazer uma pintura daqui, da região do Caribe, e tento fazer para que seja facilmente reconhecida por ser daqui. Eu não pinto novidades; não gosto de pintar guiado pelas últimas tendências estéticas, eu simplesmente pinto o que sinto o que percebo... Portanto, trato de deixar plasmada nas telas toda a minha bagagem cultural de origem africana.
MF: Há, em seu trabalho, uma pesquisa específica em relação à determinada “nação” africana, por exemplo, Ioruba ou Banto?
RL: Iorubá é a etnia que predomina aqui em Cuba, aonde há comunidades no interior do país que são Arará, e que, embora sejam pequenas em termos de população, têm grande vestígio, por exemplo, em Matados e em Caravali.
MF: Como é o ensino de artes plásticas em Cuba? Prepara bons espectadores? Os cubanos têm uma boa formação cultural e crítica?
RL: Bem, quando freqüentei a escola, eu era muito jovem, antes da Revolução de 1959 (que levou Fidel Castro ao poder) e concluí meus estudos nesta época e era dificílimo viver de arte. Os artistas constituíam uma elite, muito pequena. Nós somos de Matanza (Reinaldo e família) e foi lá que estudei. Depois de Fidel Castro surgiram escolas de arte em maior número. Então, os pintores e os artistas em geral, - as escolas de arte cabanas são compostas por teatro, dança, artes gráficas e artes plásticas - que se identificaram com a revolução e que se uniram a ela, passaram a trabalhar ativamente na área de cultura de Cuba e se tornaram os professores dessas escolas.
MF: Mas, hoje, a população está preparada pelo ensino para interagir, de forma, crítica, com a arte?
RL: Continua sendo algo de elite, do interesse de poucos. Quando digo elites, quero dizer que, apenas as pessoas mais cultas dentro da população interessam-se por arte, uma elite, no sentido cultural. Podem ser do povo, não têm que ser necessariamente profissionais da arte, mas ainda sim passam a constituir uma espécie de elite. Em geral, quem freqüenta as galerias, os museus, o teatro, a sinfonia ou a música erudita não é a gente do povo. Estas pessoas vão ouvir música ligeira, como quem vai às rodas de samba no Brasil, que aqui é a rumba. Eu gosto da rumba e da sinfônica, mas nem todo mundo pensa assim porque é gente de um nível cultural um mais baixo. E, a meu ver, o importante é aumentar o nível cultural de todos, e não se extinguir o que se considera mais baixo ou mais alto.
MF: É possível identificar um diálogo com a tradição da pintura em seu trabalho?
RL: Isso é o publico quem irá dizer...
Martha Lópes Ximenes, companheira de Reinaldo, interfere, apontando para obras que estão na sala: nessa cerâmica, que é um touro caribenho, do fim dos anos 70, aparecem todos os traços da cor tropical. Esse olho, que se vê no lombo do animal, é simbologia muito forte dentro da cultura de origem Ioruba, é o olho de Olófi, orixá que penetra o destino do homem e da mulher e define-lhe toda sua vida. O espectador vai encontrar, por exemplo, naquele quadro, que se chama “Signos Privados”, esse mesmo olho. As ferramentas dos diferentes orixás estão representadas por toda a pintura que, precisamente por isso, ganhou tal título. Esta outra é um quadro feito a partir de uma ilustração, que participou de um concurso internacional da fundação Juan Miró, em Barcelona no ano de 1982. Nela aparece, também, esse animal de sacrifício e a simbologia que tem tal "tijo" (o animal), "toro carnívoro". Observe seu olho, esta é uma representação das terras da cultura Abaquá, os símbolos dessa cultura, que é uma cultura Caravali.
MF: Pode-se dizer, portanto, que essa mescla de cultura popular com erudita, se dá através da relação que se estabelece entre as técnicas e concepções da pintura moderna tradicional (tradicional no sentido de diacrônica) e a cultura de raiz, com sua arte primitiva e extremamente simbólica.
RL: Exato. A arte das cavernas. É daí que sai minha arte, daí nasce minha busca. Da arte primitiva, tomo a referência, depois vou explorar outros espaços, vou até onde consigo chegar.
MF: Segundo João Cabral de Melo Neto “é evidente que, numa literatura como a de hoje, que parece haver substituído a preocupação de comunicar pela preocupação de exprimir-se, anulando, do momento da composição, a contraparte do autor na relação literária, que é o leitor e sua necessidade, a existência de uma teoria da composição é inconcebível. [...] Em nosso tempo, como não existe um pensamento estético universal, as tendências pessoais procuram se afirmar, todo poderosas, e a polarização entre as idéias de inspiração e trabalho de arte se acentuam”. Operando uma transposição desses conceitos da literatura para as artes plásticas, em sua pintura, como funciona essa polarização entre idéias de inspiração e trabalho de arte?
RL: Não sou apenas intuitivo porque sou um profissional. Emotivo, sim, mas claro, aprendi tecnicamente a arte de pintar. Procuro desfrutar o máximo que posso da pintura, explorar todas as suas particularidades. Ademais, luto para que não se pareça com a de ninguém, busco uma linguagem autoral.
MF: A arte depende de relações sociais, políticas ou históricas, ou apenas repercute na sociedade?
RL: Depende. Depende principalmente do momento vivido pelo artista. Não é sempre político, a não ser que haja uma necessidade histórica para que esta relação seja política, por exemplo. Vem da necessidade de o mundo interior do artista se encontrar com o mundo exterior, a realidade, propriamente dita.
Martha: Há hotéis e edifícios importantes em Cuba, em Varadero, em Havana, como o próprio aeroporto internacional José Martí, que tem grandes murais de cerâmica dele, como também no parque Lênin. Isto é, ele faz sua pintura para, em primeira instância, satisfazer suas necessidades de expressão artística, mas há um consumo social de seu trabalho.
MF: Como concebe uma obra?
RL: Bom, observe “La Muerta de Cacanfu” (e aponta para a tela), Cacanfu é uma história de origem africana. Cacanfu é um militar da África. Em Cuba, quando uma pessoa morria violentamente se dizia: “morreu como Cafancu”. Essa palavra se foi degenerando e deu em ‘cafu’. A gente dizia ‘cafu’, “fulanito, o mandaram à cafu”, morte violenta.
Martha: Esse militar africano morreu em uma batalha e como São Jorge, morreu flechado.
RL: Trato de ilustrar essas pequenas passagens da história e como aqui se usa muito ‘cafu’... Não sei, falando, um dia resolvi pintar a morte de cacanfu é isso...
MF: O que prefere na pintura contemporânea cubana? Como vê a linguagem da pintura cubana de hoje?
RL: Bem, a pintura contemporânea cubana está um pouco permeada de estrangeirismos. É algo que eu não entendo, eu cheguei até Picasso e de Picasso não pude passar porque não entendo nada. Pegam um quadro como a “Mona Lisa” o recortam e fazem um quadro com tais elementos (colagem), isso eu não entendo. Meus pintores prediletos, mestres clássicos cubanos, são Wifredo Lam e Roberto Alberto Diago, que foi meu professor, são eles os que me encaminharam nesse mundo negro, nessa coisa preciosa que é a pintura cubana.
MF: Pensa que há falta de marcas autorais na pintura cubana hoje?
RL: Sim.
Martha: Há muitas tendências na cultura cubana.
David Lópes Xímenes: Há um fenômeno na pintura contemporânea em Cuba, que não se pode esquecer e que afeta e influi em muitas manifestações da arte e da prática, o conceito do “Pós-moderno”. E a pintura também está permeada por este conceito exatamente como a poesia também o está e a dança, o teatro, a música. Isso existe porque é uma forma de ver a vida no final do milênio. Desde os anos 90 ocorre uma apropriação dos elementos de diferentes épocas da civilização, e a cultura em Cuba faz diferentes apropriações de elementos nacionais que se mesclam e resultam em algo novo, que não é a vanguarda plástica dos anos 20 e dos anos 30, é outra coisa.
MF: Você não dialoga com as novas tendências?
RL: Há um momento que o criador se molda ao transcurso do tempo, não racionaliza. Estou falando por mim. Nas coisas que ele (David) viveu com essa nova arte, existe uma identificação, um choque. Comigo, o que há, é um choque de gerações, eu não posso mudar e pintar como se pinta agora. Estou sensivelmente amarrado: não posso fazer essa coisa que descreveu o David, que são coisas que ele faz, mas eu não posso. Eu estou parado aonde cheguei e, agora, estou amarrado na minha obra. Parti da pintura rupestre e fui me desenvolvendo até a época do realismo, da qual pude desfrutar. A partir daí, comecei a buscar meu estilo, minha forma, minhas coisas, que não se parecem com ninguém.
MF: Quanto aos materiais, quais prefere? Por quê?
RL: Uso somente o acrílico sobre tela ou cartolina. O óleo demora muito para secar, eu luto contra o tempo e a morte. O tempo é implacável. Sou um homem velho preciso pintar, pintar, pintar. Não posso esperar tanto.
MF: Você vê alguém influenciado por seu trabalho? Tem discípulos?
RL: Não tenho discípulos, mas em um momento determinado tive amigos que se sentiam influenciados.
MF: É Gabriel Garcia Márquez nesse retrato aí na parede?
RL: Conheci Garcia Marques numa feira de livros, onde estava expondo minha obra. Ele estava no pavilhão da Colômbia, vizinho ao pavilhão de Cuba, e José Angel Leyva, poeta mexicano e um querido amigo, disse-me, “tenho uma surpresa aqui”, me chamou e me apresentou a Marques. O escritor pôs a mão no meu peito e disse que gostava muito dos cubanos e me deu um livro. Foi isso, essa foi a minha pequena relação com ele (risos).
MF: Como é a relação da sua arte com a crítica?
RL: Bem, em Cuba há carência de críticos de artes plásticas muito grande e eu penso que , no entanto, sempre fui bem tratado, com artigos bons e interessantes, que aparecem de vez em quando, mas, realmente, os que podemos chamar críticos de artes plásticas são muitos poucos.

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