ESTADO CRÍTICO
(volta)

REINALDO LOPEZ, UM PINTOR NEGRO EM CUBA
entrevista a Marcelo Flores
(volta)


A revista está aberta a receber colaborações, inéditas sempre, por email, que serão submetidas ao Conselho Editorial, podendo ou não ser publicadas.

 

ESTADO CRÍTICO
Sibila investe em novos críticos e novos tradutores.

 

Da utopia À censura: desafios da nova poesia cubana
Antonio José Ponte

Quando penso na poesia cubana atual, inevitavelmente penso numa determinada geração de poetas, a dos que nasceram nos anos de 1960 do século passado. Em Cuba, a formação de um grupo literário qualquer produz, de imediato,  receio político e toda revista que não seja orgão de alguma instituição do governo é proibida. Assim, as gerações literárias substituem as revistas de grupo e os cafés. “Gerações literárias” são o único modo lícito de associação para os escritores.

A classificação por geraçãos não é, por tal motivo, estritamente cronológica. Acaba sendo menos assunto de origem do que assunto de destino. Desta perspectiva, a geração da qual falo inclui os nascidos nos anos de 1960 do século passado mas também os nascidos em outras datas, cujo trabalho consegue ficar próximo ao daqueles. And the rest (que não é exatamente silêncio) são os octogenários que não acrescentam nada de significativo à sua obra, os sexagenários, fixados em modos “coloquialistas”, ultrapassados há décadas, os de quarenta anos que são a última fornada de funcionários culturais da revolução e os de vinte anos que ainda não conseguiram se constituir como grupo, numa antologia que os represente.

Em vez de revistas de grupo, que são proibidas, editam-se antologias e os últimos anos cubanos têm produzido uma abundância de antologias de poesia. A que considero a geração literária mais prestigiada conta com mais de vinte antologias, dedicadas, como é previsível, à repetição dos mesmos nomes e dos mesmos poemas.

Muitas vezes o que muda nessas antologias é a geografia da  publicação. Havana não é mais exclusivamente o lugar, “por excelência”, onde se edita. Os poetas cubanos descobrem, pouco a pouco,  que não há capital para a poesia. Não há capital: nem cidade nem dinheiro.

É preciso considerar, no entanto,  que uma boa parte da poesia cubana se escreve no exílio. E que a poesia, que foi gênero protagonista da literatura nacional há apenas uma década atrás, cedeu seu lugar central ao conto e ao romance.

Com a desaparecimento acelerado do conteúdo utópico na sociedade cubana, desapareceu também a importância da poesia como gênero. Tornar possível grandes tiragens de livros de poesia caberia, somente, na “Ilha Utopia” ou numa terra que procurasse se assemelhar a ela, mas não em Cuba. E as leis de mercado, cada  dia mais presentes, impulsionam o escritor cubano a publicar seus livros no estrangeiro, sobretudo,  no mercado editorial espanhol, que se abre apenas à ficção romanesca. (“Entreguem-nos o romance cubano!”, clamam os editores do mundo todo.)

A poesia perdeu drasticamente público e posição. E se,  há alguns anos, para os poetas, era claro o lugar a partir do qual falavam, atualmente não existe nenhuma clareza. Quem agora está na casa dos trinta e poucos anos tem procurado tornar mais complexo seu discurso poético como reação à exagerada simplicidade coloquial e ao monólogo político. Tais poetas procuram, igualmente,  se afastar de qualquer adesão ideológica ao governo cubano e voltaram a ler com liberdade. (Gerações anteriores só respeitavam literariamente escritores de esquerda e, nessa categoria, os escritores de esquerda que simpatizassem com o sistema político cubano. Na verdade, comportavam-se, sob a condição de leitores, como “censores”.

A densidade do discurso literário e o afastamento da política levaram os autores ao cultivo de certos “hermetismos”. E tais “hermetismos” à falta de leitura. Assim, para evitá-la, estes poetas  começaram a produzir uma poesia voltada à ética: notas pessoais que apontaram para uma poesia civil, de resistência. (O perigo aqui estava num certo messianismo, numa certa amplificação de tons). A exigência ética virou, então, exigência “obrigatória” do escritor: a busca de seu novo “lugar” na sociedade.

Tais buscas levaram, na maioria dos casos, à desilusão e à amargura. E não a um porto mais criativo. E o que se pretendia como a recuperação do lugar do  poeta na vida comum  acabou por fechá-lo no seu próprio “eu” …

Se, para escrever estas linhas sobre o estado atual da poesia cubana, tive que reduzí-la a uma geração de poetas, permito-me,  também, lançar um desafio para o seu futuro imediato. O mais urgente deles: alcançar a impessoalidade. Pois, caducas já as posições anteriores, só a partir da “impessoalidade” é possível ainda “falar” alguma coisa e inovar. 

Havana, dezembro de 2001. 

Tradução: Odile Cisneros

. . . . . . . . . .     

 

^ topo