ESTADO CRÍTICO
Sibila investe em novos críticos e novos tradutores.
Assim pudesse acender-me: acerca de Opus affetuoso de Casimiro de Brito, 1997[1]
Paulo José Miranda
Trata-se de um livro de poesia com 55 poemas curtos, intitulados de “i” a “lv”, e ainda um poema final, mais extenso, de três páginas, intitulado “Última núpcia”. O tema do livro é o amor. Mas o amor não surge ao longo desses poemas como algo metafísico, algo superior, algo que nos eleva. Por outro lado, também não se trata do amor sofrido, o amor que despedaça um ser humano, que o humilha, que o joga em lágrimas sobre a cama. Esse amor não tem qualquer conotação pejorativa, negativa ou indigente. O amor que aqui aparece, ao longo desses poemas, é o tópos humano, o lugar do humano. O amor não é somente um lugar, também faz de nós um lugar. O amor é o lugar desconhecido que
habitamos, que nos habita e para o qual e com o qual caminhamos. Sabemos que há, mas não sabemos o quê, não sabemos quando, nem a natureza de seu aparecimento: “eu não sei se/ conheci a luz ou a sombra/ quando bebi na tua pele” (“xiv”). Não podemos saber se subimos ou se descemos, se vamos para bem ou se vamos para mal quando amamos. Não é possível ao humano aceder a esse conhecimento. “De quem não sabe/ se é folha ou chão boca saliva/ porque tudo em nós é luz líquida/ que não conhecemos saboreamos/ apenas” (“viii”). Aquilo que sabemos, aquilo que apenas podemos saber é que na beira do corpo há luz. Há uma luz que se acende dentro de nós na beirada de outro corpo, nos campos da amada. Isso, sim, isso sabemos. Uma luz líquida, uma luz que sai de nós e do outro e que ilumina a ambos, uma luz que nasce de um corpo contra outro, de boca contra boca, de sexo contra sexo.
xv
entro pé ante pé
no pátio da minha amada –
arco iluminado.
Saio limpo e vazio
do barro de minha amada –
de novo abandonado.
Estamos, portanto, num universo de luz e sombras. A luz do corpo e a sombra da alma. Sombra do pensamento que nos estrangula de ausência. Não é o outro que nos dá o ser, quer o outro seja Deus, quer seja a amada; o que nos dá o ser é a sensualidade do outro, o toque do outro e no outro: “do ser que sou agora luz reunida/ pela mão no joelho que se abre”. Ser é ser um momento de sensualidade, ser um momento onde nos acabamos, onde nos esquecemos, onde nos abandonamos. Ser é descansar de nós, e só se descansa sensualmente. O amor é o contrário de nós, sabemo-lo logo nos primeiro três versos do livro: “
amo-te porque não me amo/ inteiramente. O que me falta/ é infinito” (“i”). O infinito, aqui, não é a luz, mas a sombra. A sombra do corpo que dá luz em contato conosco. Queremos o que não sabemos, queremos mais do que podemos, queremos a sombra estendida do mundo. Mais: nós somos a sombra estendida do mundo; somos o que pensa, o que se entrega às sombras, ao desejo de infinito. E só no corpo, só no corpo do outro, da amada, descansamos das sombra que somos, do infinito que nos atormenta. Estar conosco, remetido a nossa própria sombra, ao pensamento, ao infinito desejado é ser perdido, ser em luta conosco, com a necessidade de infinito e sua impossibilidade. O amor nasce dessa consciência: a luta, em nós, entre a necessidade e a impossibilidade de infinito. Amo o outro porque não sou infinito, porque o que meu pensamento deseja não tem reciprocidade. O amor é o que nos resta. Na impossibilidade de sermos infinitos, de nos amarmos a nós mesmos inteiramente, resta-nos o amor, que nos dá descanso, que nos recolhe dos demônios do dia.
xxvii
não acendas
a
luz não abras
a janela. O teu sexo
lâmpada viva
ilumina-me a noite
escura. Não abras o dia,
ilusão impura.
O momento da sensualidade, aquele momento de descanso de nós mesmos, de ser, descanso de pensar, de ser sem ontologia é, contudo, frágil. Demasiado frágil. “a luz que me dás, esquiva e dura
,/ serve-me de abrigo onde desfeito/ é já meu cansaço” (“xxxviii”). A luz já é esquiva e dura, abriga e descansa, mas não é fácil de acontecer. A luz não acontece quando se quer, nem quando queremos. A luz do corpo, essa luz líquida, nascente de um com o outro, é bem menos forte, bem menos presente do que o dia, do que a luz demoníaca do dia, que é a luz que revela nossa sombra, nosso eu; não o nosso ser, mas o nosso eu. Eu é precisamente o que não quero. O que quero é eu e tu. Pensar é o que não quero, o que quero é meu corpo no teu. Quero luz, a preciosa, rara e líquida luz; não quero a sombra que me habita, que sou eu, que é Eu, e que o dia vai me revelar. No amor escapamos da humanidade como se falta a uma aula. Não, e é preciso repeti-lo, por razões metafísicas, por razões transcendentes. Não é por razões, mas pelo ser; pela possibilidade de descanso de nós, desse Eu assombrado que nos impede de ser. “Deixa-me levar o sabor/ da pequena lâmpada/ para que eu possa suportar a travessia/ dos pátios que me separam/ da próxima noite” (“xxxiv”). Ficar entregue a mim (Eu) é caminhar pelas sombras do mundo, pelas sombras do dia, espalhando em mim e fora de mim minha própria sombra; minha sombra de ser. O que está aqui em causa, pungente, neste livro de poemas, é o entendimento do amor como o ser, do amor carnal, sensual. Chegar a um corpo, haver um corpo que nos receba, é o que melhor nos pode acontecer. O que melhor nos pode acontecer para não cairmos na sombra do Eu, na angústia da falta de infinito. Repare-se no jogo destes dois versos, do início do poema “xl”: “não quero possuir ‘eu [...]/ não sei senão amar’”. O jogo que Casimiro de Brito emprega aqui, nesses dois versos, mostrando-nos claramente que o Eu está no centro do que é duvidoso, do que não é claro, do que
não aparece à luz, enfim, da sombra, transfere-nos para o plano do ser, para o plano do corpo à beira do corpo. Leia-se um poema, onde claramente se vê a luz nascer na beira do corpo do outro. Luz que apaga as palavras, o pensamento, que apaga a sombra que somos. Luz redentora, porque ofusca o Eu, ofusca o que nos afasta de ser, da experiência ancestral do Ser.
a tua pele não é a luz
mas estou perto
ofuscado
e sem palavras
não preciso delas
ouço o tumulto a
coroação
da minha verdade a que vem
de ti olhar para ti
silenciosa
e em silêncio desaprender
a musica dos outros a grata
imperfeição do mundo
e
enlouquecer
onde fui sábio
outrora
Mas que corpo é esse de que o poeta fala? É um corpo qualquer? É o corpo do dia-a-dia, que desejamos a caminho do trabalho ou de casa, na esperança de voltarmos a ser, de nos esquecermos de nós? Não. O corpo onde vamos acontecer, de onde recebemos nosso ser e ao outro o concedemos, não é esse corpo. O corpo não é do mundo. Há, no mundo, corpos; mas não são estes de que o poeta fala. O corpo que Casimiro de Brito canta é o corpo efetivo, o corpo que produz um acontecimento, que nos dá o ser e devolve ao outro seu ser. É o amor. O amor feito carne, nos muros da pele, nas águas que escorrem pelas calhas, pelas ranhuras do humano, pelos seus orifícios. Leia-se estes versos de “Última núpcia”: “a linguagem dos animais horizontais/ que bebem na lua o olhar que nela/ outros amantes deixaram esquecido”. O que outros esqueceram, é a matéria que nos concederá o ser. A maioria das vezes, o que há é esquecimento, esquecimento de um corpo no outro, de um corpo face a outro. Esse corpo não é do mundo. Amor e mundo não se entendem, do mesmo modo que a perfeição não pode se entender com a imperfeição. O amor é a experiência do lugar por excelência: o
tópos dos topoi. O amor repele para longe a doença do desconhecido, do infinito, da angústia. O amor qua lugar. O amor tal qual tópos. O amor não tem lugar, ele é um lugar. Mais: é o Lugar do humano. Nestes poemas, a casa do humano não é a linguagem, mas o amor, o outro humano com quem fabricamos a luz líquida a que os versos várias vezes se referem ao longo deste livro. “A tua mão/ sem palavras sem pensamentos/ acaricia-me os joelhos/ sob a luz que do céu/ fatigada/ cai” (“xliii”).
Fora do amor, fora do corpo da amada, no mundo, ficamos expostos a nós mesmos, a todas as intempéries da palavra e do pensamento. “Armas tão frágeis/ as que temos: o mel a saliva o/ sêmen” (“vi”). E, para além de sermos desprovidos de armas eficazes, que combatam o mundo e nossa sombra, há ainda a fragilidade da amada, os “ramos frágeis/ da minha amada” (“xi”). Aquilo que nos dá o ser, nosso encontro corpo a corpo com a amada, é muito frágil, quase impossível de sobreviver, de prosseguir pelo tempo fora. Não é só o mundo, com seus dias derramando nossas sombras, que nos enfraquece o amor, que nos enfraquece o encontro, a possibilidade da luz líquida, também nossos próprios corpos são frágeis, vulneráveis. Veja-se o que protege a amada:
xxx
apenas
um cinto passageiro
a envolve. Um veio
mais leve
do que a brisa
da manhã. O fio
de água
dos
meus braços.
Tudo nos conduz à consciência da fragilidade. Mas essa consciência não se dá no amor, não se dá nesse lugar do ser, no lugar onde recebemos e damos ser. A consciência da fragilidade do amor, da fragilidade da amada, “no corpo desabrigado da minha amada” (“xlviii”) e de nós para a amada, de mim para a amada, essa fragilidade dá-se no mundo, nos dias, na sombra. Como reconhece o poeta, vagueando pelas ruas, companheiro dos cães “e deito-me/ de novo. Desamparado./ Apenas um jogo/ de lençóis bastava” (“xvi”). Sem amor, não temos onde ficar, não temos lugar onde ficar. Sem amor somos nós vagueando como cães, passeando nossa sombra pelo mundo.
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Nota:
[1] Foi usada a
edição eslovena, bilíngüe: Casimiro Brito, Opus affettuoso (trad. Mojca Medvedsek, Ljubiliana, Aleph 75, 2002). Acaba de ser lançado no Brasil Música do mundo, de Casimiro de Brito, antologia poética (São Paulo, Escrituras, 2007). ^ voltar ao texto.
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