EDITORIAL – SIBILA 8-9
A VOZ COMO INSTRUMENTO DE CRIAÇÃO
Fiel ao seu propósito de renovar a poesia brasileira, publica-se neste número duplo de Sibila o ensaio “A voz instrumento de criação: dos futuristas à poesia sonora”, escrito pelo performer italiano Enzo Minarelli. O ensaio resgata e historia a questão da poesia puramente sonora, daquela poesia que existe com vida própria quando da leitura e performance dos poemas, ainda que escritos originalmente para a página, e, sobretudo, dos poemas compostos para existirem neste espaço específico da voz. O ensaio se faz acompanhar por um CD, intitulado A Voz é Princesa, especialmente preparado por Minarelli para Sibila. Na primeira parte, defronta-se com leituras mais históricas como a do italiano Filippo Tommaso Marinetti (1912) – criador do Futurismo –, a do russo Aleksiéi Krutchônikh (1951) – integrante do movimento cubo-futurista russo –, a do alemão Kurt Schwitters (1922-1923) – fundador do dadaísmo –, e a do norteamericano Ezra Pound (1960), este lendo um de seus poemas mais violentos contra o capitalismo, o “Canto XLV”. Na segunda parte, ainda de caráter histórico, mas já apontando para a criação autônoma contemporânea, destaquem-se as presenças dos norte-americanos Allen Ginsberg e Philip Glass e do austríaco Ernst Jandl. Em seguida, ouve-se vozes do mundo todo, italianas, gregas, suecas, espanholas, japonesas, portuguesas, argentinas, francesas,
criando com a voz e com as palavras.
Além da qualidade das performances, que se comprova na audição,
ressalte-se o fato inédito de se editar algo do gênero no Brasil,
onde, embora haja registro de vozes dos poetas, elas são quase
sempre feitas a partir da leitura dos poemas escritos para figurar
nas páginas de livros e revistas e sem o caráter autônomo, de arte,
de leitura em si. Sabe-se que Murilo Mendes, Carlos Drummond de
Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Mello Neto gravaram
seus escritos. Décio Pignatari e Haroldo e Augusto de Campos tentaram experiências que combinavam a oralidade com a questão do
livro. Mas, nunca nenhum poeta brasileiro assumiu, de modo franco
e exclusivo, a autonomia da criação para voz, um gênero próximo da
música erudita contemporânea. Neste CD, pretende-se a voz e o som como espaço privilegiado da
criação, desacompanhados de libretos, textos e outros apêndices, que se tornariam “explicativos”. Destaque-se que, neste trabalho, embora certas fronteiras entre erudito e popular se abram, como na brilhante leitura que Allen Ginsberg faz do poema “Tyger”, do poeta inglês Willian Blake, onde uma harmônica toca ao estilo country, como se quisesse projetar a renascença inglesa no sertão norte-americano, a inflexão é erudita e muito própria da poesia. Sibila publica, ao final do ensaio, a lista completa das leituras, com seus respectivos autores.
Por outro lado, não pode passar despercebido o ensaio “A demissão
da crítica”, assinado por Paulo Franchetti, que aborda a pungente
questão da crítica literária no Brasil, ampliando o texto “Momento
crítico”, publicado no número anterior da revista. Cite-se um pequeno trecho: “[…] o exercício responsável da crítica em situações de exame é o caminho mais curto para o ostracismo. E mesmo nas situações que não envolvam exames públicos, o exercício da crítica independente, que viole a demarcação das áreas de influência ou contrarie um julgamento de chefe de grupo, recebe resposta imediata na forma de censura, isolamento institucional ou veto explícito à presença do crítico indesejado em empreendimentos intelectuais sob a influência da autoridade contrariada”. Nesta mesma perspectiva, agora num âmbito internacional, chama-se a atenção para a entrevista do excelente poeta e ensaísta uruguaio Eduardo Milán, da qual se transcreve o seguinte trecho para este editorial: “A pré-validação favorável dos objetos criticados é uma celebração, não um ato crítico. A crítica de poesia na América Latina é difícil. Nossa própria mentalidade colonizada diante dos objetos culturais torna o ato crítico negativo uma espécie de agressão para quem os recebe. A tendência é levar para o lado pessoal. Isso implica que os ideais da Ilustração, quanto à proposta da crítica como fundamento, não calaram fundo nestas latitudes.
A mentalidade continua sendo paroquial. Mas isso é generalizável
para todo fato cultural, não somente para o objeto poético. A crítica é vista como elemento não construtivo. E como a América Latina tem um déficit de construção diante dos modelos que se propõe a seguir, a atitude crítica é rejeitada como retardatária ou improcedente.
Passamos da escassez à superprodução de bens culturais cujo valor
desconhecemos. Esta é uma das principais repercussões do acriticismo poético. Não sabemos como valorar. Mas, a função crítica, creio, continua sendo a mesma que há dois séculos: o enriquecimento dos produtos culturais mediante o debate que os mantém vivos e ativos.
Creio que a ausência de crítica é o que assinala a fragilidade de uma literatura, seu momento crepuscular”.
Régis Bonvicino, Alcir Pécora e Tatiana Longo Figueiredo
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