EDITORIAL – SIBILA 6
SIBILA publica, neste novo número, em sua seção “Pares Contemporâneos”, uma mostra de poesia mexicana. Aqui estão representadas oito vozes vivas e atuantes: Gerardo Deniz (n. 1934), José Emilio Pacheco (n. 1939), Elsa Cross (n. 1946), Francisco Hernández (n. 1946), David Huerta (n. 1949), Alberto Blanco (n. 1951), Coral Bracho (n. 1951) e Alfonso D’Aquino (n. 1959). Essa mostra é precedida por um ensaio introdutório de Rodolfo Mata e enriquecida por um depoimento do poeta Hugo Gola, editor de El Poeta y su Trabajo – uma revista que, como Sibila, pauta-se em um conceito de poesia, não se contentando em ser mera divulgadora de trabalhos aleatórios. Buscou-se traçar ao leitor brasileiro um perfil e oferecer informação, um pouco mais sistemática e sólida, sobre uma literatura de alto interesse, com questões semelhantes às enfrentadas no Brasil. E, ainda, revelar poéticas contrastantes e variadas dentro
do espectro dos mais inovadores. Gola assim explica o projeto de sua revista: “[...] analisar o que acontece na poesia contemporânea e rever as conseqüências das
vanguardas históricas em função dos problemas atuais da poesia latino-americana”. Mata, em seu ensaio, afirma: “A morte de figuras de grande prestígio [como Octavio Paz] no seio de uma tradição artística é sempre motivo de mudança. [...] No entanto, tratando-se de uma tradição como a mexicana, onde o exercício da crítica ainda é difícil, e poucas vezes é considerado um convite ao diálogo, implica ademais uma abertura, a liberação de um espaço saturado”.
O número também apresenta o texto “Tudo Acontece”, do francês Dominique Fourcade, nascido em 1938 e “educado por uma governanta
alemã que o alfabetizou em francês e em inglês [...]. Fourcade afirma não ter uma língua materna, mas apenas línguas estrangeiras, com as quais busca traduzir suas sensações do real”. A escolha deste
texto – que promove uma “anarquia entre os gêneros”: ensaio, prosa, poesia etc. – pautou-se pela qualidade do trabalho, já que hoje a fusão de gêneros tornou-se uma regra que vem produzindo resultados duvidosos, sobretudo na prosa de extração pop brasileira. Aliás, com ou sem fusão de gêneros, a poesia brasileira vive um período de baixa, onde sobressai uma poesia subletrada, submissa a tradições velhas e/
ou a um internacionalismo acrítico. “Tudo Acontece” surpreende por sua consistência e ironia fina. Deliberadamente “mal escrito”, o texto relata o encontro do poeta com a expressão “tudo acontece” impressa
no cabeçalho do papel de carta de Manet e usada pelo pintor para significar justamente o seu contrário, anunciando uma poética de
maravilhamento em vez, como no caso de Fourcade, de uma poética da (in)diferença...
É de se destacar o resgate da série “A Moda e o Novo Homem”, de Flávio de Carvalho, publicada originalmente por ele entre março e outubro de 1956 no Diário de S. Paulo, conjunto até hoje inédito em livro.
Através de seus desenhos e legendas, Flávio observava e lia na moda rupturas e catástrofes históricas, como a tomada da Bastilha, antecipada na gorjeira que separava a cabeça da mulher de seu corpo. O relançamento desta série ocorre num momento em que a moda passou a ocupar um lugar central na cultura brasileira, com, por exemplo, a São Paulo Fashion Week e Gisele Bündchen, deslocando à periferia a
MPB de Caetano, Gil e Chico. Trata-se, do mesmo modo, de se refletir sobre a questão da imagem do corpo na arte contemporânea, tarefa
que, segundo Octavio Paz, os artistas delegaram aos estilistas.
Deve-se salientar, ainda, a longa entrevista concedida pelo poeta norte-americano Jerome Rothenberg (nascido em 1931 em Nova Iorque), pensador e organizador da mais significativa antologia de poesia que se conhece no universo contemporâneo: Poems for the
Millennium, editada em 1995 e 1998, entrevista concedida a Charles Bernstein, Cecilia Vicuña e Marjorie Perloff. Não há no Brasil autor, no século XX, que tenha percurso semelhante ao de Rothenberg, que
buscou fundir estruturas poéticas indígenas de seu país e de outros às poéticas Dadá e modernista norte-americana de Williams, Stein
e Pound. Rothenberg é o criador da etnopoesia no âmbito da pósmodernidade.
Registre-se as presenças do italiano Paolo Ruffilli, traduzido por Aurora Fornoni Bernardini, e de Wilson Bueno com seu poema em prosa “Um Monstro Índio”. A seção “Resenhas e Notas” traz uma fina reflexão de Paulo Franchetti sobre o trabalho de Ana Cristina Cesar e uma reflexão sobre Leminski, no 15º ano de sua morte, pelo crítico
argentino Mario Cámara.
Régis Bonvicino, Odile Cisneros e Tatiana Longo dos Santos
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