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SIBILA 4 • ANO 3 • 2003

 

EDITORIAL
(volta)

 

EDITORIAL – SIBILA 4

 

DESMANIFESTO N º 2, À GUISA DE EDITORIAL:
O IM(PÓS)SIBILISMO

 

SIBILA alcança, depois de dois anos, sua quinta edição, na busca, desde o princípio, em junho de 2001, entre outros valores, “do reconhecimento de formas de organização estética que não dependam mais de mundos demarcados pelas fronteiras nacionais”, no dizer de Michael Hardt, na entrevista de abertura deste novo número. E no esforço, já bastante trilhado, para atingir conteúdos e formas que não mais se relacionem com as fôrmas do modernismo, do concretismo e do tropicalismo no Brasil, embora tenha consideração pelo impulso inovador que cada um desses movimentos trouxe em sua época e pelos seus resultados propriamente artísticos.

SIBILA procura romper tais e outras fronteiras, para tentar revitalizar a arte da poesia, combalida neste e noutros países, onde a crítica (produzida por críticos puros ou poetas) abandona, muitas vezes, seu papel de contextualização e diálogo, paralisada em questões que fariam mais sentido meio século atrás (o “concretismo” e o “anticoncretismo”, por exemplo), e onde a “diversidade”, em não raros momentos, é usada como máscara da complacência e da ignorância. A criação aqui avança, na verdade, paradoxal e clandestinamente, mais do que a tal crítica que não consegue divisar nada além do “bem” e do “mal” e que reduz tudo a x ou a y. É a manifestação “escabra” do impossibilismo!

Opõe-se ainda Sibila a um tipo de “Revolução do entretenimento” que parece ter chegado à poesia brasileira (e mundial, haja vista publicações norte-americanas recentes que seguem esta lógica do marketing e da “easy poetry”) e ter engendrado para ela um “pequeno sistema”, numa paródia perversa dos mecanismos capitalistas – outra das várias facetas do tal de “impossibilismo”.

Nesta perspectiva, Sibila sente-se mais vinculada, espiritualmente, aos novos e talvez ingênuos a®tivistas brasileiros como o “A.N.T.I. Cinema”, grupo que quer incorporar imprevistos aos seus não-filmes, “A revolução não será televisionada”, grupo que faz programas de televisão experimentais, de cunho eminentemente político, “Formigueiro”, que questiona o discurso corrente sobre arte e tecnologia, e outros, como “Fumaça”, que, mesmo correndo o risco da precariedade, ao promover eventos efêmeros, tenta, como os demais, colocar em xeque a lógica do “sistema” da arte, ou ainda “Laranjas”, expressivo já no nome, que, por exemplo, no último Fórum Social Mundial, de Porto Alegre, em janeiro deste ano, tapou, como obra, os buracos existentes nas ruas e nas calçadas no percurso do Beco do Mijo, da Avenida Nilo Peçanha, ao local do acampamento do Fórum. Para Sibila, como disse alguém, “a poesia não tem capital”.

SIBILA sente-se próxima, da mesma maneira, dos militantes antiglobalização (na acepção de ser contra a hegemonia capitalista e norte-americana) que tomaram o Cabaret Voltaire, que se encontrava abandonado, de assalto, em Zurique, janeiro passado, e tentam impedir agora que seu proprietário o transforme numa farmácia. Não à toa, numa coincidência feliz de intenções, este número traz poemas do multiartista Kurt Schwitters, traduzidos e introduzidos, a nosso convite, por Fabiana Macchi: “Merz surgiu, em tese, como mais um movimento de vanguarda que preconizava uma ruptura com valores estéticos, sociais e políticos vigentes. Era, de certa forma, uma extensão, não menos importante, do dadaísmo”.

SIBILA não compartilha com os atos dos Estados Unidos e seus alia­dos, que impuseram, pela força e sem a legitimação da opinião mundial e de instituições multilaterais, uma nova ordem internacional de exceção, a partir de 11 de setembro de 2001, suprimindo direitos civis, criando abismos entre o Ocidente e o mundo árabe e levando o caos ao vale dos rios Tigre e Eufrates, berço das civilizações, com o incêndio de bibliotecas e a pilhagem do Museu Nacional do Iraque. Barbárie: vivemos os tempos do “impossibilismo”. Precisamos chegar agora ao “pós-sibilismo”: novas possibilidades para um outro e novo mundo. Mais justo e plural. Por isso, publicamos, com o devido destaque, poemas de poetas de línguas minoritárias (como o próprio português o é): o catalão Joan Navarro e o galego Carlos Quiroga.

Sibila acredita que a inovação é imprescindível e, como lembra Douglas Messerli, na seção “Pares Contemporâneos”: “a poesia deveria ser uma notícia atual que ainda é notícia. Creio que repensar as coisas, pesquisá-las novamente, tentando encontrar meios novos e diferentes para descobrir coisas, é importante”. Experimental, no sentido de atenção e não de inconseqüência: “muitos não lêem o sufi­ciente. Se eles realmente lessem poesia mundial como eu tenho feito, acho que a questão da inovação se tornaria talvez mais importante”. Sibila busca “uma” poética e não “a” poética. Diversidade, claro, mas com qualidade e critério. Crítica, do verbo grego krínein, significa também “decidir”. Seu equivalente em latim, como ensina Nicolau Sevcenko, é cernere, que, além de “decidir”, significa “discernir”. Crítica, como afirma Sevcenko, é também critério e: “daí se concluir que uma comunidade que perca sua capacidade crítica perde junto sua identidade, vê dissolver-se sua substância espiritual e extraviar-se seu destino”. Sibila é uma busca de critérios.

Numa homenagem à quase morta arte da prosa, estampamos o fecho do Finnegans Wake, de James Joyce, não como paradigma a ser copiado mas como lição a ser meditada e lembrança de outros caminhos. À Sibila interessa o impulso das vanguardas e não o seu culto! Estampamos também, na seção “Recuperações”, um conto inédito, de Mário de Andrade, autor de Macunaíma, prosa de invenção datada de 1930. Destacamos ainda as presenças de figuras da geração transgressora dos anos de 1950 como Ferreira Gullar, um de nossos grandes poetas, e Laís Correa de Araújo, que muito contribuiu para a construção da presença de Murilo Mendes entre nós, além do português Casimiro de Brito. E evidentemente um revolucionário dos anos de 1960: Tom Zé, com seu “urgente pela paz!”

Qual é a idéia possível de inovação depois que acabaram as vanguardas históricas? Esta é uma das questões que Sibila se propõe a construir, consciente que algumas dessas vanguardas ou dependiam excessivamente de uma concepção teleológica de progresso, inclusive nas artes, o que não se sustenta mais hoje, ou recaíram num certo tipo de irracionalismo conjugado com esteticismo. Nossa opção é por aquelas que reagiram a uma idéia teleológica do progresso e pelo impulso latente e perene que trazem em si.

Então, a pergunta pode ser assim recolocada: como fugir do esteticismo puro e simples e fundar uma idéia de inovação consistente que possa posicionar a arte e a poesia, com critérios, diante dos desafios da “globalização”, ou seja, da desdemocratização, ilegalismo e banalização do mundo e do mundo da arte? Na falta de melhor definição, Sibila é nossa intensidade e resposta possível. Que venham outras!

 

Régis Bonvicino, Odile Cisneros, Romulo Valle Salvino,
Tatiana Longo dos Santos, Charles Bernstein, Wilson Bueno,
Célia Gonçalves (Santiago de Compostela), Tele Ancona Lopez,
Valter Hugo Mãe e Cecilia Vicuña, abril de 2003.

 

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