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SIBILA 0 • ANO 1 • 2001

 

EDITORIAL
(volta)

 

EDITORIAL – SIBILA ZERO

 

Drummond disse, certa vez, que todos os poemas, antes de escritos, quedam-se paralizados, sós e mudos, em estado de dicionário. As palavras: enigmas de quietude, no aguardo de quem tenha a chave, não a "verdadeira", mas aquela que possa dar passagem ao improvável. E os melhores dicionários quase sempre são os próprios poemas pois neles as palavras são neutras e ao mesmo tempo desafiadoras. Todavia, ainda que se busque nelas o novo, não há como esquecer o seu passado, que sempre existe. Não há novidade sem história, toda revolução é volta a um ponto que é novo apenas porque ainda intocado. Essa postura de provocação não agressiva, que é a da arte, deveria ser estendida a todos os atos do homem. Deveria principalmente ser a postura de toda crítica – e certamente será uma das diretrizes desta revista que nasce (a outra é não ter medo de errar). Por isso o próprio nome dela foi colhido em estado bruto numa composição de outro mestre (pois eles existem: são aqueles que justamente desconfiam dos mestres) – "Grafito para Giuseppe Capogrossi", do livro "Convergência" de Murilo Mendes. Esse poema, embora talvez não seja central na obra do poeta, é relevante pela consciência metalingüística, por um certo questionamento dos mecanismos da representação e da arte (o próprio Capogrossi destacou-se nesse afã), pela abertura proposital, pelo lirismo anti-lírico, pela "ilegibilidade" – características de boa parte da melhor poesia atual. Sibila, arrancada do poema e projetada na capa da revista, mais que palavra quer ser sílaba de uma mensagem instável a ser composta com os artigos, poemas, desenhos, fotografias de uma publicação voltada para o futuro, mas criticamente de olho no passado, disposta a ser mais pergunta do que resposta. A melhor resposta, aliás, talvez seja sempre uma nova pergunta: que seja mutável, que seja enigma, como eram as da Sibila, essa profetiza de cujo nome nos apossamos por via indireta para fazê-lo diferente. Segundo Aristóteles, o enigma consiste justamente em falar conjugando coisas impossíveis – procedimento poético por excelência –, o que, naturalmente, não se consegue com vocábulos na sua significação mais comum. Enigma, profecia, poesia, arte: memórias de um futuro sempre a inventar. Para cumprir essa missão, SIBILA sabe que, ao mesmo tempo em que se dispõe a trazer o extremamente novo, o contemporâneo, aquilo que ainda é uma aposta, também não há como sepultar o passado e, por isso, está aberta a ele não como um conjunto de verdades, mas como repertório de mensagens outras, tesouro de interrogações, espaço de sempre novidades. Propõe ainda voltar-se para cenários mais amplos do que os da literatura brasileira, num diálogo fecundo com outros espaços da cultura e com o universo de outras línguas, de outros países, no que eles têm de mais significativo e – às vezes – incerto. Este é o desafio também: mover-se num território de fronteiras imprecisas sem se perder, lidar com a diversidade, sabendo-a necessária, mas sem esquecer também que ela não se deve transformar no terreno indiferenciado de vale-tudo. Esse compromisso com a diferença, único modo de fundar uma identidade, aliás, é o único que SIBILA possui. Para tanto, ancora-se numa visão da arte como poder transformador – inclusive e talvez principalmente no que ela tem de inútil – e da literatura como rompimento da letargia das palavras, como espaço privilegiado capaz de abrir-se em diálogo com todas as instâncias humanas, mas sem perder a sua especificidade de sempre ser um pensamento (auto) crítico além de todo pensamento.

 

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