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BATE-PRONTO
(volta)

BATE-PRONTO
Materiais inéditos e, também, polêmica e desobediência. Novelties and polemics, controversy and disobedience.

 

Entrevista de Inez Cabral a ASTIER BASÍLIO

Seco. Sem alma. Impessoal. Duro. Hermético. Difícil. Estas são algumas das expressões e adjetivos utilizados para caracterizar a poesia de João Cabral de Melo Neto, uma das mais importantes em língua portuguesa, mas pouco conhecida do grande público. A editora Alfaguarra pretende mudar isso. Já pôs no mercado dois livros do pernambucano, O Cão Sem Plumas e O Artista Inconfessável. Este último é uma coletânea, com poemas de caráter biográfico, concebido pela cineasta Inez Cabral, filha do escritor. Ela conversou por telefone com a reportagem do JORNAL DA PARAÍBA e tocou em temas como os estereótipos formados em torno da poesia do seu pai, João Cabral.

“Eu estou travando uma verdadeira guerra santa que é para que as pessoas leiam, para criar leitores. O grande problema é que os professores do 1º e 2º graus não gostam de ler. Ao invés de ler a poesia do meu pai, vão estudar a crítica, vão ver o que o crítico viu e passam isso para os estudantes, que têm que repetir o que os críticos disseram”, denuncia.

Na coletânea – que não tem nenhum poema inédito - há poemas que tratam da infância de João Cabral, no interior de Pernambuco, período em que o poeta conviveu com trabalhadores dos canaviais no engenho da família, em São Lourenço da Mata. Outros poemas falam das férias com os primos e o dia em que nasceu, com sua mãe tendo de se deslocar da fazenda para Recife; há relatos de juventude, poemas sobre a descoberta da literatura e sobre viagens mundo afora, feitas como diplomata pelo Itamaraty.

A antologia reúne também poemas escritos na Espanha, principalmente em Sevilha e Barcelona, cidades em que viveu em diversos períodos da vida. Para exemplificar como João Cabral não é um poeta difícil, Inez contou à reportagem a experiência de um amigo de seu filho, que não é da área de literatura. “O rapaz tem 29 anos, faz farmácia, acompanhou o percurso do Capibaribe e depois leu o livro [O Cão Sem Plumas] e me ligou em seguida. Ele me disse: teu pai não é aquele cara chato, seco, teu pai escreve bem pra caramba!”.

A cineasta acredita que cada pessoa deve ser instigada a ter uma leitura e interpretação próprias. “Dizem que a poesia de meu pai era difícil. Mentira. Ele era difícil para dar entrevista. Ele era terrivelmente mal-humorado com a burrice humana. Então, iam entrevistá-lo, mas sem conhecer sua obra, e ficavam fazendo perguntas pessoais”, revela.

Inez diz que não suporta o rótulo de “poeta sem alma” - título aliás, da biografia escrita pelo jornalista José Castello. “Ele só entrevistou meu pai duas vezes. O Castello falou mais com a minha madrastra (Marly Azevedo, já falecida) que já conheceu meu pai com 70 anos e não sabia nada sobre ele. Pra você ter uma idéia, quando meu pai morreu, eu ouvi ela dizer que o último livro do meu pai foi ela quem escreveu. Eu fiquei indignada”, informa.


Filha e pai - Inez e João Cabral: fotos do poeta ainda criança com uniforme de futebol

Mesmo não concordando com a biografia escrita pelo jornalista José Castelo, O Homem Sem Alma & Diário de Tudo (2ª edição, Nova Fronteira), Inez Cabral fala que não tem intenção de escrever, ela mesma, a biografia do pai. “Minha praia é o audiovisual”. Além dos poemas, a coletânea O Artista Inconfessável traz fotos inéditas do acervo familiar.

“Temos fotos dele na infância, uma vestido como jogador de futebol”, conta Inez. Inicialmente, a cineasta pensou em fazer um filme com o material que tinha e com esta perspectiva de relacionar aspectos pessoais à poesia do pai.

“O meu tapete de Penélope, meu grande sonho, é o Auto do Frade”, adianta. Inez se refere a um projeto que tem de adaptação cinematográfica do poema dramático Auto do Frade, que se passa no período da Confederação do Equador, que resultou na execução do Frei Caneca.

A reportagem do JORNAL DA PARAÍBA conversou com o doutor em literatura João Batista de Brito sobre a presença da “emoção” nos poemas de João Cabral. Na opinião de João Batista, há mais emoção na poesia de Cabral do que na de muitos poetas ditos “emocionantes”.

“Com certeza, o que criou essa idéia equivocada de ‘poeta sem alma’ foi um preconceito antropológico. É que nós, brasileiros e latinos em geral, temos uma tradição de derramamento verbal, de fala musical, discursiva, molhada, e a dicção cabralina vai, sistemática e corajosamente, na contracorrente disso”, analisa.

Usando uma tipologia de Haroldo de Campos, João Batista diz “o nível de ‘construção’ em Cabral é tão elevado ao ponto de – para muitos, mas não para mim – obscurecer a “expressão” que, no entanto, está lá, por ironia, tornada mais forte justamente pelo esforço de construção”.

 

O Cão sem Plumas

(...)
Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc. (...)

(Trecho do poema: “IV. Discurso do Capibaribe”)

 

- "Mas pareceu falar em versos.
É isso estar bêbado ou não?
- Mesmo sem querer fala em verso
quem fala a partir da emoção."

João Cabral
in: Auto do Frade - Poema para Vozes

 

Veja João Cabral no documentário Recife/Sevilha

 

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