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BATE-PRONTO
(volta)

BATE-PRONTO
Materiais inéditos e, também, polêmica e desobediência. Novelties and polemics, controversy and disobedience.

 

Para DemÉtrio nÃo ficar falando sozinho
Hélio Doyle

Muita gente escreveu, no início dos anos 90, que a queda do governo e o fim do socialismo em Cuba eram questão de dias, no máximo alguns meses. Havia uma lógica na argumentação: caiu o muro de Berlim, acabou o socialismo nos países do leste europeu, a União Soviética se dissolveu. A bola da vez era Cuba, claro. A aplicação da teoria do dominó era inevitável, alegavam os analistas e jornalistas. Em Miami, exilados cubanos e seus descendentes arrumaram as malas para voltar a Havana e contrataram advogados para pleitear a devolução das fazendas, usinas, fábricas e mansões que haviam deixado quando a revolução foi vitoriosa. O governo norte-americano já preparava a transição para a “democracia”. 

Mais de 15 anos depois, o governo cubano continua o mesmo e o socialismo não acabou. Erraram todos, analistas, jornalistas, exilados e a Casa Branca. A explicação é muito simples: os especialistas que se arvoravam a prever o fim do regime em Cuba podiam entender de muitas coisas, podiam ser doutores em ciência política, relações internacionais, história, geopolítica ou mesmo podiam ser esses jornalistas presunçosos que se arvoram a escrever e opinar sobre tudo. Mas, com toda a bagagem que tinham, faltava a todos eles um elemento essencial: pouco ou nada conheciam de Cuba e, pior, pouco ou nada entendiam de Cuba. 

Por isso erraram feio. O conhecimento que tinham sobre Cuba era no máximo de alguns rudimentos da História do país. Mostravam uma visão preconceituosa e nublada pela ideologia anti-socialista e pró-capitalista. Alguns até conheciam pessoalmente o país, mas limitados aos contatos com os aproveitadores que os cercavam nas proximidades dos hotéis, como em todas as grandes cidades do mundo. Suas análises eram, assim, simplistas e simplórias. E, sobretudo, equivocadas. 

Com a doença de Fidel Castro, esses analistas voltaram. Continuam ocupando espaços na imprensa e tempo nas emissoras de televisão para fazer suas previsões sobre o futuro de Cuba depois da morte de quem chamam “ditador”. O problema é que os velhos videntes dos anos 90 e a nova geração de futurólogos ainda padecem dos mesmos problemas. Conhecem pouco, ou mesmo nada, da realidade cubana e das circunstâncias históricas, políticas, econômicas e sociais que podem explicar a sobrevivência do regime apesar das condições adversas. E que podem lhes mostrar porque o que consideram ditadura sanguinária consegue se manter a 150 quilômetros dos Estados Unidos, apesar da miséria em que vive a população ansiosa para fugir

A situação cubana é muito mais complexa do que esses chavões e lugares-comuns em itálico, palavras tão a gosto de alguns intelectuais, políticos e jornalistas brasileiros. É mais simples e cômodo tachar logo de ditadura mesmo que o governo tenha ampla aprovação de uma população educada e participativa, dizer que é sanguinária mesmo que não se conheça um só caso de assassinato político, ou que haja um só caso de tortura comprovado (a não ser no enclave norte-americano de Guantánamo, claro). Não é questão de ideologia, posição política ou simpatia. É estar baseado nos fatos.   

Infelizmente Demétrio Magnoli inscreve-se entre os que analisam e fazem projeções sobre a situação de Cuba com pouco conhecimento da realidade daquele país. Não se trata de combater suas idéias, que devem ser respeitadas. Mas na entrevista que deu a este site ele demonstra que as posições ideológicas estão sobrepujando a análise que se espera de um acadêmico. Aliás, os entrevistadores também padecem do mesmo mal.

Vou apenas indicar alguns pontos em que Demétrio foge à realidade. Por questão de espaço, não vou repetir o que ele diz em seu artigo. O tempo mostrará quem tem razão, mas, sem ser presunçoso, lembro que no início dos anos 90 alguns acertaram dizendo e escrevendo que o regime em Cuba iria sobreviver. A maioria errou feio.  

1. A sucessão de Fidel será tranqüila, sim. Não há conflitos relevantes no interior do Partido Comunista e do governo. Raúl Castro é o sucessor de Fidel desde a institucionalização, em 1976. É primeiro vice-presidente do Conselho de Estado e segundo-secretário do PCC. É o segundo homem na estrutura do governo e do partido e não é porque é irmão de Fidel. Raúl lutou no movimento rebelde desde o assalto a Moncada, foi comandante na Serra Maestra, sempre foi dirigente, é o único sobrevivente (ao lado de Fidel) do núcleo que comandou a revolução. Os demais dirigentes que comandam o partido e o governo estão sintonizados: Carlos Lage, Felipe Perez, Ricardo Alarcón, Esteban Lazo e outros.  

2. É falta de informação, ou má-fé, falar em julgamento “arranjado” do general  Ochoa. Há um livro, público, com a íntegra do processo – que não foi presidido por Raúl, de onde Demétrio tirou isso? As provas contra Ochoa e outros, de narcotráfico vinculado a colombianos e contrabando de diamantes em Angola, são claras. E tudo isso aconteceu em um momento em que os Estados Unidos, com alguma razão exatamente por causa do grupo de Ochoa, acusavam Cuba de envolvimento no tráfico de drogas. Foi certamente duro fuzilar um herói da revolução (Raúl contou publicamente que chorou), mas os dirigentes devem ter entendido que se não fizessem isso Cuba poderia ser acusada de condescendência com o tráfico de drogas e a população acharia que para a cúpula não havia punições. Mas isso é uma interpretação minha, pessoal. E não quer dizer que concordo com a pena de morte. 

3. Ochoa nunca foi considerado um possível sucessor direto de Fidel. Certamente teria sido um dirigente influente, mas não ocuparia o lugar de Raúl – para os cubanos, muito mais herói do que ele. Por puro oportunismo, quiseram aproveitar a situação causada pelo julgamento para dizer que Ochoa foi falsamente acusado e fuzilado porque ameaçava o poder de Fidel. 

4. É especulação dizer que Raúl quer um “modelo chinês”. Raúl quer exatamente o que Fidel quer: encontrar soluções que passam – infelizmente, segundo eles – pela aplicação de elementos da economia de mercado, mas não a aplicação mecânica de um “modelo” como o chinês, que provoca muitas desigualdades consideradas inaceitáveis pelos cubanos. Aliás, depois que erraram tanto seguindo o “modelo soviético”, os cubanos já estão bem vacinados quanto a essas transposições. 

5. Depois de anos alinhados ao pensamento soviético, os dirigentes cubanos aprenderam, na prática, que o caminho do socialismo em um só país é inviável. Basicamente por isso, e não só por isso, o pensamento trotsquista hoje é aceito em Cuba. Houve uma abertura ideológica pós-soviética, o que é compreensível. Não tem sentido ver fantasmas nisso.

6. Demétrio acerta ao dizer que os exilados e cubanos residentes nos Estados Unidos têm variados pontos de vista políticos e diferentes concepções sobre como deve ser uma transição em Cuba. Mas comete imprecisões. O que ocorreu em Cuba é que as classes mais altas (incluindo segmentos da classe média da época) sentiram-se prejudicadas, com razão, com as primeiras medidas do governo revolucionário, de conteúdo fortemente favorável aos pobres e aos camponeses. Esses setores temiam o socialismo e vivia-se a guerra fria. Foram para os Estados Unidos na expectativa de que rapidamente o novo governo seria deposto pelos norte-americanos e então voltariam. Isso não aconteceu. A expropriação dos bens dessa classe média se deu depois que seus membros foram para os Estados Unidos, e não antes.  

7. Não tem o menor sentido dizer que o centro das reformas econômicas foi permitir a circulação de dólares provenientes dos cubanos que vivem em outros países. Esses dólares sempre entraram em Cuba, apenas a circulação interna deles era reprimida antes das reformas econômicas. A estratégia principal para a captação de divisas foi o desenvolvimento acelerado do turismo e a abertura a investimentos produtivos estrangeiros. Os dólares dos que vivem no exterior  nunca deixaram de chegar a Cuba, mesmo com as restrições e limitações impostas pelo governo dos Estados Unidos. A economia cubana e as reformas empreendidas com bastante sucesso a partir de 1990, para enfrentar o isolamento decorrente do bloqueio dos Estados Unidos e do fim da URSS, são bem mais complexas. 

8. É simplismo reduzir o “modelo chinês” a capitalismo (democracia) na economia e comunismo (ditadura) na política. A China não cabe nessa redução. E é pura especulação falar da atração de Raúl por esse modelo. O que os dirigentes (incluindo Fidel e Raúl) querem é intensificar a atração de empresas estrangeiras voltadas para a exportação, mas isso não é agora, é de 1991-1992. Esse processo passou por altos e baixos e atualmente há uma tendência de encontrar novos caminhos para ele. 

9. Dizer que não houve avanços na educação e na saúde em Cuba depois da revolução, só mesmo com muita motivação político-ideológica. Não dá, com honestidade, para negar as conquistas na saúde, em termos de pesquisas, de produção de medicamentos, de formação de profissionais e de atenção à população. Basta ver os índices. Não tem nenhum país na América Latina mais avançado em educação e saúde do que Cuba. Avançou na educação alfabetizando a totalidade da população, garantindo escolas para todos, gratuitas do maternal à pós-graduação, formando quadros de elevado nível técnico e profissional. Tudo isso com o bloqueio dos EUA, que impõe enormes limitações ao país. 

10. É enganoso dizer que antes da revolução os níveis de saúde e educação eram altos. Havia saúde e educação de boa qualidade apenas para um pequeno segmento da população. Não havia nem saúde, nem educação, para a enorme maioria. É a velha história da cabeça no forno e o pé no gelo. Cuba era um país miserável, corrompido. Por que Demétrio acha que os segmentos mais pobres, e especialmente os camponeses, formaram imediatamente a base de sustentação da revolução, do novo regime e assim permaneceram?  

11. Não é só Demétrio que cai nos lugares-comuns e no simplismo, são também os entrevistadores. Vamos ver o que levantam. Baixa produtividade: é verdade que há isso, mas em função principalmente – e não apenas - do pleno emprego. O governo reconhece e há esforços para melhorar a produtividade sem que isso signifique desemprego elevado, exclusão social. O que é difícil de entender para quem gosta do modelo capitalista de alto padrão para pouquíssimos e pobreza e miséria para a maioria, acha que desemprego é solução para aumentar os lucros e a produtividade e coisas assim. Corrupção alta: a corrupção em Cuba é punida exemplarmente, há casos de altos dirigentes afastados e condenados por delitos que aqui no Brasil não passariam de pequenos furtos. Não é um país marcado pela corrupção. Matança de opositores: esse é o típico discurso baseado em falsidades. Nos primeiros anos foram fuzilados cerca de 500 torturadores e assassinos. Ninguém  - ninguém mesmo - foi fuzilado por opinião, nem antes nem em tempos recentes. É importante para um analista fixar-se nos fatos, não nas versões, e não se contaminar pela ideologia e pela propaganda. 

12. É claro que desde 1959 houve muitos investimentos em moradias, em infra-estrutura, em estradas, portos, aeroportos, agricultura, pecuária. E em educação, saúde e assistência social. Os resultados estão lá, é só ver. É absurdo dizer que em Cuba está tudo como estava em 1959. Mas é claro também que faltou e falta capital para investir mais, que há muitas moradias de baixa qualidade, prédios deteriorados, infra-estrutura deficiente. Cuba é um país pobre. Mas todos em Cuba, e todos mesmo, têm onde morar com um mínimo de dignidade. Não tem ninguém morando nas ruas, embaixo de pontes, em favelas. Não há ninguém desamparado pelo Estado, sem assistência médica, fora da escola ou sem renda.  Ninguém passa fome, embora a comida seja pouca para nossos padrões de classe média, por incrível que isso possa parecer aos que criticam sem conhecimento.  E não dá para desconhecer os prejuízos causados pelo bloqueio econômico. Há inúmeras deficiências de gestão em Cuba, muitos erros e incompetência. Mas dizer que está tudo do jeito que estava antes de 1959 não resiste a uma visita ao país. 

13. Cuba era, antes de 1959, pior que uma república bananeira, era um país que não tinha vontade própria, era uma colônia dos Estados Unidos e isso não é força de expressão. É fato, é História, não foi inventado depois de 1959. A imagem de um bordel não é mera retórica, a máfia dominava os cassinos, hotéis e a prostituição, a imensa maioria da população vivia na miséria absoluta, os médicos concentravam-se em Havana, o desemprego era enorme, não havia escolas no campo. É interessante essa tentativa recente de alguns de dizer que Cuba era um excelente país antes de 1959. Se fosse, a revolução teria o apoio popular que teve? 

14. Há restrições à liberdade em Cuba, é verdade. Seria muito melhor que não houvesse. Mas uma análise isenta tem de considerar duas coisas. A primeira é que não é um Estado policialesco, onde as pessoas vivem mudas e com medo. A segunda é que  essas restrições têm de ser entendidas no contexto de um país sitiado, bloqueado pelos Estados Unidos, ameaçado constantemente e vítima de ações comprovadas de sabotagem por parte de uma potência mundial. Qualquer país nessa situação restringiria as liberdades individuais e coletivas.  

claro que os argumentos não se esgotam aqui e este debate pode ir longe. Estou à disposição. 

 

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Hélio Doyle é jornalista, diretor da WHD Comunicação, professor da Faculdade de Comunicação e membro do Núcleo de Estudos Cubanos da Universidade de Brasília.

 

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