BATE-PRONTO
Materiais inéditos e, também, polêmica e desobediência. Novelties and polemics, controversy and disobedience.
POESIA NAZI E O G8
Régis Bonvicino
A palavra Nazi é uma abreviatura de Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, Partido Nacional-socialista Alemão, liderado por Hitler a partir de 1920. A 24ª edição de Etymologisches Wörterbuch der deutschen Sprache (2002) afirma que o vocábulo foi inventado no sul da Alemanha, em 1924, pelos oponentes do nacional-socialismo hitleriano, porque “nazi” (advindo do nome próprio Ignatz, uma variante de Ignatius) era usado para designar coloquialmente uma pessoa tola e tacanha.
De 6 a 8 de junho de 2007, o Grupo dos Oito ou G8, que congrega os sete países mais industrializados do mundo, a saber, Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá e mais a Rússia, vai se reunir no balneário Heiligendamn, onde Hitler recebeu, em 1932, o título de cidadão emérito, quando ainda não havia chegado ao poder, o que se daria em 1933. Nada mais representativo da situação do mundo contemporâneo, liderado por George W. Bush e seus Blairs e Sarkozys, que o encontro se dê numa cidade onde Hitler foi cidadão de honra, mesmo que o prefeito de Bad Doberan, à qual pertence a praia Heiligendamn (que, inicialmente, era de ricos e, depois da Segunda Guerra, passou para a Alemanha comunista), tenha cassado juridicamente o título conferido ao líder nazista, que tanto sucesso faz até hoje, haja vista, entre outras, além de guerras, Guantánamo etc, a posição dos Estados Unidos (27% da poluição mundial) no que se refere aos “planos” kyotianos para fazer cessar as mudanças climáticas. A Europa é responsável por 25% da poluição da Terra. O Brasil, por 3%.
Este ano foram convidados a participar da reunião alguns newcomers: Brasil, Índia, África do Sul, México e China, este um dos países mais poluídos do mundo, que, todavia, oficialmente, já anunciou sua posição contrária à redução das emissões de poluentes. Vinte das trinta cidades mais degradadas do planeta se situam na China, onde muitas pessoas trabalham por um dólar ao dia.
Lula, por seu turno, vai dizer que o uso do etanol em grande escala contribuirá para o desaquecimento global, enquanto, por aqui, defende o “companheiro” Renan Calheiros, em mais uma demonstração de seu perfil “vanguarda do atraso”. Talvez Lula também adira, às escondidas, à frase ingênua, pichada num dos muros da cidade, que diz “Smash capitalism”, mas o fato é pouco provável, mesmo para o filiado de um partido, o pt, que apoiou o fechamento, por Hugo Chavéz, da rctv venezuelana, coms o argumento de que a rede era marionete do imperialismo norte-americano. É a banalização do mal pelo nazismo (que prescinde do prefixo neo e das divisões direita e esquerda, acrescento), como dizia Hannah Arendt, que cito via José Murilo de Carvalho.
Mas por que toda essa digressão para falar de poesia nazi? Em março deste ano, estive em Santiago do Chile, para o Festival ChilePoesía. No bairro hoje underground de Lastarria, precisamente na calle José Victor Lastarria, deparei-me com um gênero novo: a pichação a la grafite (pelo uso de cores e algumas figuras de pedra incorporadas à obra) intitulada Poesía nazi, escrita por um autor anônimo. Talvez este autor queira, com seus filosofemas, dizer exatamente o contrário do que expressa, numa espécie estranha de sínquise crítica, ou seja, “inversão de tal modo violenta das palavras de uma frase que torna difícil sua interpretação”, no dizer de Celso Cunha e Lindley Cintra. Em Lastarria, há a loja chamada The Clinic, que satiriza Augusto Pinochet, fazendo-lhe estatuetas ridículas.
Leiamos um nazi-poema: “La filosofia... son estúdios/ necesários dicen para apartar/ de la fé em diós a los jovenes/ que van a ser empleados/ de güecos”. A palavra-chave é “güeco”, uma corrupção de “hueco” – oco, vazio – que também é empregada pejorativamente em referência aos homossexuais. E igualmente o fato de o poema tocar na questão religiosa. Vejamos outro: “Si actúas em teatro o cine/ o vídeo y tu mujer te vê haciendo/ el papel de empleado o sirvientísimo/ cagaste...”. Neste, a mensagem é menos dúbia: revela-se o preconceito contra a arte e se explicita o machismo. Será? Ou, muito ao contrário, ela critica os fâmulos em geral e é anarquista, e não nazista.
De qualquer modo, esses poemas nazis poderiam estar pichados nos muros do balneário báltico, onde o G8 reúne-se uma vez mais para reafirmar suas políticas nazistas para o Ocidente e o Oriente, visando a abolir a Terra do universo. Disse, certa feita, Jean Luc Godard que “a ética é a estética do futuro”. Mas, ao reverso do prognóstico do cineasta francês, enterrado recentemente por Nicolas Sarkozy, juntamente com o maio de 1968, não há muita esperança de que exista ética, estética ou mesmo futuro.
Mais representativo do encontro do que esses poemas, que não deixam de sê-lo, talvez seja o cartaz afixado, também numa rua chilena de Lastarria, numa porta de alumínio, onde se lê que é “proibido estacionar”, em virtude de entrada e saída de veículos; nesse cartaz, um desses velhos poderosos quaisquer, com uma pistola escondida nas costas, aponta para um garoto que, frente a frente com ele, tenta, por seu turno, descortinar um horizonte.








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